Por Charles Santiago

Meus caros que acompanham os contos,
Escrever é revelar o que somos e sentimos. Às vezes, é certo, inventamos personagens que parecem muito diferentes de nós. Criamos sujeitos que não somos, situações que nunca vivemos, prosas que talvez nunca tenham acontecido. Mas, no fundo, somos um pouco dos casos que contamos. Talvez até mais do que gostaríamos.
No último conto, ali no boteco da professora Vilma, voltamos a alguns momentos de uma juventude em que, junto com grandes personalidades, construímos o sonho de uma cidade justa, solidária e fraterna. Talvez nem todas as paisagens tenham aparecido naquela história, mas algumas lembranças voltaram à superfície.
Naquele tempo, talvez acreditássemos que bastava querer para que as coisas mudassem.
Mas há um tempo determinado para tudo.
E aquele tempo passou.
Passou o tempo, passaram os amigos, passaram algumas certezas. Com os anos, foram também se desfazendo os elos de algumas amizades. Talvez a amizade seja mesmo dessas coisas que precisam de cuidado, reciprocidade e comunhão de afetos. Quando essas coisas faltam, ela vai ficando como uma fotografia antiga: ainda reconhecemos os rostos, mas já não sabemos exatamente quem são aquelas pessoas.
Pois bem.
Ao sair do boteco, com algumas doses do malte na cabeça, vi, ainda que de longe, alguns daqueles amigos. Não sei se faltou compromisso, se sobraram palavras ou se simplesmente já não havia mais nada a dizer. Eles se divertiam, jogando conversa ao vento, enquanto eu, talvez por prudência, talvez por covardia, tomei o caminho de casa.
Foi então que comecei a pensar com os meus fantasmas:
Seria por conta dos contos?
Seria por causa do tema dos contos?
Será que alguém havia se reconhecido em alguma história?
Ou seria apenas impressão minha?
Não sei.
O que sei é muito pouco, mas é um pouco bastante.
Na muita sabedoria há muito enfado.
Talvez seja esse o problema de envelhecer: começamos a desconfiar até das nossas certezas.
Foi no caminho de volta para casa que percebi uma coisa que talvez devesse ter percebido antes: quando conto uma história, não conto apenas aquilo que aconteceu. Conto também aquilo que ficou em mim depois que aconteceu.
E isso muda tudo.
Porque a memória, essa danada, não obedece completamente àquele que lembra.
Às vezes lembro de uma coisa com absoluta certeza e, depois, descubro que outra pessoa se lembra de maneira completamente diferente. Às vezes tenho certeza de que uma conversa aconteceu de determinado modo, mas já não sei se me lembro da conversa ou das tantas vezes em que a contei.
Há histórias que, de tanto serem contadas, começam a parecer mais verdadeiras do que aquilo que realmente aconteceu.
Talvez escrever seja também enfrentar essa resistência da memória.
Eu queria contar os outros, mas acabo contando a mim mesmo.
Queria falar de Jitaúna, mas acabo falando da pessoa que saiu de Jitaúna.
Desejava contar o passado, mas este insiste em perguntar quem sou agora.
E talvez seja por isso que estes contos tenham começado a ficar diferentes.
Minha busca por Qohelet aconteceu quase por acidente.
Padre. Ou melhor, quase padre.
Depois, policial.
Depois, político.
A política veio acompanhada daquela velha crença de que o mundo pode ser mudado pelas nossas mãos. E talvez possa. O problema é que, em algum momento, descobrimos que o mundo também muda as nossas mãos.
A decepção com a política foi se construindo aos poucos, até que minha passagem pela polícia me fez enxergar outro ofício, outro caminho, outra senda de vida: o magistério.
Foi assim que me tornei artesão de filosofia.
Esse caminho sequestrou-me de Jitaúna e me conduziu para os arredores do melhor do sul do sul do mundo: União da Vitória. Mais tarde, depois de quinze anos de magistério, veio a licença sabática.
Foi então que coloquei uma mochila nas costas.
Não sei se uma mochila é suficiente para carregar quinze primaveras de magistério, algumas desilusões, antigas amizades, uma cidade natal, algumas escolhas erradas e outras que talvez ainda não saibamos se foram certas.
Mas coloquei tudo isso dentro dela, de algum modo.
E parti.
Queria procurar Qohelet.
Queria compreender aquele mestre do Eclesiastes que, há tantos séculos, parecia saber alguma coisa sobre aquilo que eu ainda tentava compreender.
Mas talvez aqui esteja a primeira confissão que preciso desatar:
não sei se fui procurar Qohelet ou se fui buscar a mim mesmo.
Talvez por isso eu esteja no momento em Jitaúna.
Porque algumas buscas precisam começar pelo lugar onde tudo germinou.
Voltar para Jitaúna não significa necessariamente regressar.
A cidade continua aqui, mas eu não sou mais aquele que se despiu desse chão.
E talvez essa seja uma das coisas mais difíceis de aceitar: podemos voltar ao nosso lugar, mas não podemos inverter a correnteza.
A rua continua.
A praça continua.
O boteco talvez continue.
Algumas pessoas continuam.
Mas aquele sujeito que ladrilhava por essas ruas já não existe da mesma maneira.
Ou talvez exista apenas nos contos.
Foi então que compreendi que Jitaúna não precisava ser o sítio onde todas as histórias acontecem.
Poderia ser o lugar de onde elas partem.
Uma lembrança poderia nascer aqui e me levar para outro lugar. Uma conversa poderia ter acontecido longe daqui e, ainda assim, voltar para mim quando estou sentado em algum boteco da cidade.
Uma história pode começar em Jitaúna e terminar em qualquer canto do mundo.
Há tramas que pertencem a uma cidade.
Há outras que pertencem a uma pessoa.
E há aquelas que, depois de algum tempo, já não sabemos a quem se destinam.
Lembro, por exemplo, de uma história que não aconteceu em Jitaúna.
Aconteceu em União da Vitória.
Começou com futebol.
Depois veio um acidente.
Depois, uma cirurgia.
E, entre uma coisa e outra, algo começou a mudar.
Naquele momento, eu não sabia, mas ali começava a nascer o manuscrito de Filosofia de Boteco.
Mas essa é outra história.
E talvez eu precise de outro conto para contá-la.
Por enquanto, basta dizer que algumas histórias começam muito antes de sabermos que um dia serão memórias.
Talvez eu esteja contando essa história porque ela aconteceu.
Talvez porque ainda não tenha terminado.
Há acontecimentos que terminam no momento em que acontecem.
Outros continuam dentro da gente.
E talvez sejam justamente esses os mais difíceis de contar.
Foi pensando nisso que compreendi por que Qohelet começou a me intrigar tanto.
Não porque ele tenha respostas.
Talvez justamente porque não tenha respostas fáceis.
Ele parece saber que aquilo que pensamos possuir escapa.
Que o tempo passa.
Que a pessoa trabalha, constrói, deseja, acumula, ama, perde e, depois de tudo, descobre que não conseguiu segurar nada definitivamente.
Hevel.
Ainda não sei traduzir essa palavra como gostaria.
Vaidade?
Sopro?
Vapor?
Névoa?
Talvez o problema esteja justamente aí: queremos que uma palavra permaneça quando ela mesma parece nos lembrar que tudo passa.
Talvez seja por isso que continuo procurando Qohelet.
Não para encontrar uma resposta definitiva, mas para aprender a fazer perguntas melhores.
E talvez seja também por isso que continuo escrevendo estes contos.
No começo, pensei que estava contando histórias de Jitaúna.
Agora começo a desconfiar de que estou narrando as histórias que Jitaúna deixou em mim.
E isso é diferente.
Muito diferente.
Porque, se escrever é revelar aquilo que somos, talvez cada conto desvele também aquilo que tentamos esconder.
Foi preciso sair de Jitaúna para que algumas coisas pudessem ser vistas. Passar por outros lugares, outras cidades, outras profissões, outros fracassos e algumas poucas certezas.
E talvez tenha sido preciso voltar para perceber que não era exatamente a cidade que eu procurava.
Era aquilo que havia ficado dela em mim.
Talvez o próximo conto seja justamente sobre isso: uma história que aconteceu longe de Jitaúna, mas que, por alguma razão, só consegui compreender quando voltei para casa.
Afinal, algumas histórias precisam de distância para serem contadas.
E algumas precisam de retorno.
Talvez eu ainda esteja procurando o mestre de Eclesiastes.
Ou talvez seja Qohelet quem esteja, há muito tempo, procurando por mim.
📝 Não deixe de ler nosso conto anterior:

Charles Santiago é jitaunense, professor, escritor. Líder do grupo de pesquisa Poética do Sagrado. Colunista do Factótum Cultural.
Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.





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