Os Contos que te Conto: Leitura Literária de Eclesiastes. Uma prosa por semana para quem ainda gosta de uma boa história.

Pois bem, caro caçador de tramas, fiquei de voltar ao último conto. Prometi contar-lhe mais sobre aquele personagem enigmático que, sentado no bar de Jorge, na eterna cidade conhecida como Jitaúna, parecia encontrar novos sentidos para o velho refrão de Qohelet:

Hevel havalim, hakol hevel.

Desta vez, porém, farei isso de casa. Deixarei o bar à distância e, no aconchego deste recanto – meu canto que, vez ou outra, ainda abriga algumas almas esquecidas -, tentarei reconstruir, entre um chá de boldo e os restos de uma ressaca, as últimas lembranças daquela madrugada de confidências.

Antes, porém, preciso fazer uma pequena digressão sobre o boteco e sua estranha magia ficcional.

O bar de Jorge é um desses lugares onde as conversas não obedecem à ordem das coisas. Gente estranha chega, senta, bebe, fala e desaparece. O tempo ali parece sofrer de alguma doença antiga: passado e presente se misturam, mortos conversam com vivos e personagens que jamais deveriam ter se encontrado dividem a mesma mesa. É um lugar de anacronismo sem qualquer constrangimento.

Ali, mundos se entrecruzam e escapam à lógica da razão instrumental. Diante de um copo sujo, de um prato qualquer e de um ovo rosado que ninguém se atreve a perguntar de onde veio, podem surgir grandes histórias. Muitas, é verdade, são fantasiosas. Mas, entre nós, caro leitor, talvez realidade e ilusão sejam apenas maneiras diferentes de organizar aquilo que chamamos de experiência. A diferença, talvez, esteja menos na verdade do acontecimento do que no grau de materialidade que estamos dispostos a conceder a ele.

Agora, olhando tudo de longe, com o corpo já descansado e a cabeça menos inclinada a transformar cerveja em metafísica, lembro-me do velho que palavreava sobre o hevel.

Estava no canto da mesa, sozinho, segurando seu líquido maltado com uma tranquilidade quase suspeita. Não parecia beber para esquecer. Ao contrário, contemplava o interior do boteco como quem assistia a alguma coisa que somente ele conseguia enxergar. Havia em seu rosto uma expressão rara de felicidade.

E devo confessar: não parecia ser efeito do álcool.

Era o semblante de alguém que cultivava perguntas.

Talvez por isso eu tenha prestado atenção.

Depois da minha resposta vaidosa à pergunta do garçom, o velho me lançou aquele olhar que os sábios costumam destinar quando percebem que alguém falou mais do que sabe. E então começou a versar sobre o livro mais problemático das Escrituras.

Não me lembro de tudo.

Seria desonesto dizer o contrário.

Naquela altura da noite, meu corpo já começava a abandonar a conversa antes mesmo de mim. A cabeça pesava, as pernas bambas negociavam com o chão e as palavras do velho pareciam chegar de muito longe.

Mas alguma coisa ficou.

A palavra hevel.

Segundo ele, traduzi-la simplesmente por “vaidade” era insuficiente. Em português, “vaidade” frequentemente nos conduz à ideia de orgulho, aparência, futilidade, desejo de reconhecimento. O termo hebraico, porém, parece abrir uma paisagem muito mais incerta: sopro, vapor, fumaça, aquilo que passa diante dos olhos e não se deixa agarrar.

Não é exatamente o vazio.

Tampouco é simplesmente a inutilidade.

É aquilo que escapa.

Talvez seja por isso que, naquela noite, uma frase tenha ficado presa em algum lugar entre minha embriaguez e minha memória:

“Tudo é inútil” não é o mesmo que “tudo é hevel”.

Hoje penso que demorei a compreender a diferença.

Durante muito tempo, fui daqueles que confundiam a fugacidade da vida com sua falta de sentido. Se tudo passa, pensei, então nada vale a pena. Se tudo termina, para que começar? Se a vida não permanece, resta apenas rir dela, beber alguma coisa e esperar que o tempo faça o resto.

Naquela noite, aliás, eu parecia ter encontrado uma resposta bastante convincente: cerveja, boemia e o presente.

O problema é que talvez o velho estivesse dizendo outra coisa.

Talvez hevel não seja uma sentença contra a vida, mas contra a nossa pretensão de segurá-la.

A lembrança volta em fragmentos.

O bar.

O copo.

A voz do velho.

O ventilador fazendo aquele ruído de coisa cansada.

Alguém rindo ao fundo.

E eu, cada vez mais distante da conversa, tentando acompanhar palavras que, naquela hora, pareciam grandes demais para uma cabeça frágil.

Talvez fosse ali que a sabedoria começasse a me escapar.

Ou talvez eu estivesse simplesmente bêbado.

Prefiro deixar ao leitor a decisão.

Quando me levantei para ir embora, já não sabia exatamente se havia entendido alguma coisa. Caminhei em direção à porta. Lá fora, Jitaúna continuava sua noite como se nada tivesse acontecido. Ainda antes de sair, ouvi uma frase que, na época, não compreendi:

A finitude não é um acidente que acontece à vida. Ela constitui a própria condição da existência humana.

Hoje, penso que aquelas palavras não apontavam para uma teologia de superação da finitude. Não havia ali promessa de fuga, nem uma esperança fabricada contra o tempo. Havia outra coisa, talvez mais difícil: uma espécie de filosofia da habitação da finitude.

A sabedoria não consistiria em escapar do tempo, mas em aprender a habitar o instante que nos foi concedido.

Talvez essa seja a estranha sabedoria do velho.

Não negar que tudo passa.

Não transformar a passagem em desespero.

Não exigir da vida aquilo que ela jamais prometeu oferecer.

Talvez reconhecer como dom justamente aquilo que pode ser vivido enquanto ainda está conosco.

E, quando já estava quase do lado de fora, entre a porta e a rua, ouvi ainda uma última frase. Não sei se ele realmente a disse ou se minha memória, muitos anos depois, resolveu inventá-la para preencher as lacunas daquela noite:

— Lembra-te de que há um tempo determinado para tudo debaixo do sol.

Não quero me alongar.

Primeiro, porque o corpo cansado ainda não aprendeu a filosofar sem reclamar. Segundo, porque certas frases precisam de tempo para amadurecer — e talvez essa seja justamente uma delas.

Deixo, portanto, o pensamento para o nosso próximo conto.

Afinal, se há um tempo para tudo debaixo do sol, talvez também haja um tempo para contar uma história.

E outro para descobrir o que ela queria dizer.

📝 Não deixe de ler nosso conto anterior:

Charles Santiago é jitaunense, professor da Unespar, filósofo, colunista do Factótum Cultural e líder do Grupo de Pesquisa Poética do Sagrado.

Deixe um comentário

Tendência