Por Charles Santiago

A ressaca tem sua magia. Nivela reis e plebeus sob o mesmo teto da fraqueza humana, sempre com a indigna promessa: jamais verter álcool na taça da existência.

Ah, leitores!

Depois de narrar, do sofá de casa, o banquete de excessos, e passados alguns dias, decidi voltar ao boteco. Dessa vez, porém, com outro objetivo: tirar a limpo o que de fato havia acontecido. Não tenho muitas certezas. As memórias são apenas um conjunto de vozes que dançam umas sobre as outras.

Antes de seguir o destino imaginado – tomar uma aguardente e prosear com o mais nobre dos amigos, o garçom – quis contemplar a praça central da bela Jitaúna, entornada por bares e vigiada pela Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição.

E, para minha surpresa, encontrei uns amigos de infância sentados, jogando conversa fora e aguardando o tradicional acarajé da cidade, a iguaria afro-brasileira de Toin Quá, figura lendária dos festejos populares.

Não perdi tempo. Corri para abraçá-los e contar sobre meu novo projeto: escrever contos que refletissem literariamente sobre o Eclesiastes.

Riram.

Fizeram pouco caso.

Também isso faz parte da vida.

Depois dos abraços e das risadas, agendamos uma prosa noturna. Minha sugestão foi o boteco do Jorge, mas preferiram o Bar da Vilma, uma professora aposentada que gostava de reunir amigos, beber alguma coisa, contar causos e fazer folia.

Pensei comigo:

Talvez seja um lugar onde seja possível encontrar meu personagem enigmático, Qohelet.

Nesse intervalo, aproveitei para passear um pouco. Queria observar a cidade e seu charme nordestino.

Jitaúna não havia mudado muito.

Ou talvez tivesse mudado.

Mas eu, quem sabe?

A política local continuava complicada. O povo jitaunense é bom, mas os políticos daqui são políticos. Vendem esperança e colhem votos.

Em algum momento, quero contar outras histórias: a construção de um partido de esquerda, os movimentos sociais, o jornal É Fogo!, a revista Educando, o Filosofia para Leigos e também as traições que vieram depois.

Mas isso é assunto para outro conto.

Um dia qualquer.

Pois bem.

No horário marcado, estava eu no Bar da Professora Vilma.

Ao vê-la, pensei comigo: seria ela uma de minhas professoras na adolescência?

Não pude confirmar.

Mas o pensamento ficou.

Ali pelas tantas, depois de alguns goles, fui informado de que os convidados que eu aguardava haviam desistido.

Não sei o motivo.

Talvez nem importe.

Já depois de algumas cervejas, pus-me a conversar com a professora. Ela não se intimidou. Com largas risadas, passava a limpo os tempos de militância, os grupos políticos de Jitaúna que se denominavam de “pomba”, de “peixe” e o seleto grupo de Vinicius.

O bar era aconchegante.

Mas estava vazio.

Só havia a proprietária, que fazia também o serviço de garçom.

Em dado momento, entre um gole e outro de cerveja, a professora sentou-se diante de mim. Tomou o copo e começou a falar como quem revivia uma antiga paixão: a sala de aula.

Suas palavras substituíam as vitrolas e as cantigas.

Derramavam-se em filosofias da finitude.

Eu a escutava.

Havia naquela mulher alguma coisa que não conseguia nomear.

Talvez fosse o modo de falar.

Talvez o jeito de olhar para as coisas ordinárias.

Talvez aquela insistência em perguntar.

E então pensei:

Seria Qohelet uma mulher?

A pergunta não me pareceu absurda.

Mas a dúvida trazia felicidade.

Aproximei-me.

Precisava ouvir sua voz.

E, tomando coragem para um ato cênico, depois de muitos goles, dei-me de pé e gritei:

— Havel havalim! Hakol havel!

Ela não se fez de rogada.

Riu.

E repetiu:

— Vapores dos vapores!

Fiquei imóvel.

— Fale-me dessa locução superlativa — pedi.

Ela levantou o copo.

— Você quer mesmo saber?

— Quero.

— Então comece pelo princípio.

Fez uma pequena pausa.

— Havel havalim. Hakol havel.

Eu sabia.

Mas queria ouvi-la.

— Havel é vapor – disse ela. – Você olha, está ali. Tenta segurar, desaparece.

Bebeu.

— Talvez seja por isso que Qohelet não começa explicando. Começa dizendo.

Olhou para a praça.

— Veja o sol.

— Nasce e se põe. Depois nasce outra vez. E outra. E outra.

Ela sorriu.

— E alguém ainda pergunta o que há de novo?

Fiquei em silêncio.

Lembrei-me então das palavras de Qohelet:

“Uma geração vai, e outra geração vem, mas a terra permanece para sempre.” 

E depois:

“O sol nasce, e o sol se põe, e apressa-se para o seu lugar, de onde torna a nascer.”

Vilma tomou mais um gole.

— Tudo tem seu movimento – disse. – E nós pensamos que estamos descobrindo o mundo.

Lá fora, a praça continuava iluminada.

A igreja, silenciosa, parecia observar os bares como quem já tivesse visto aquela cena muitas vezes.

As pessoas passavam.

Conversavam.

Riam.

Discutiam política.

Lembravam dos mortos, dos vivos e daqueles que preferiam esquecer.

Eu observava Vilma.

Ela parecia falar de outra coisa.

Mas falava de nós.

Pensei na cidade, que parecia mudar sem mudar.

E em nós, que mudamos tanto para continuar sendo os mesmos.

A professora ficou em silêncio por alguns segundos.

Depois perguntou:

— Você já percebeu que há coisas que não conseguimos dizer?

— Como assim?

— Como hevel.

Sorriu.

— Você quer uma palavra que dê conta de tudo. Mas talvez a palavra seja justamente aquilo que escapa.

Antes que pudesse continuar, alguns jovens entraram no bar.

Vinham felizes, depois do culto.

Conversavam alto.

Riam.

Procuravam atendimento.

Vilma levantou-se.

Por um instante, deixou de ser a professora que revivia suas memórias e voltou a ser a proprietária do bar.

Serviu os jovens.

Perguntou o que desejavam.

Trouxe as cervejas.

Eu esperei.

Queria respostas.

Ela demorava.

Olhei para o meu copo.

Pensei nos amigos que não vieram.

Nas antigas disputas.

Na cidade.

No sol.

Talvez o próprio texto estivesse me ensinando alguma coisa.

Qohelet não entrega suas respostas.

Talvez Vilma também não.

Quando voltou, sentou-se novamente.

Eu ia perguntar.

Mas um dos jovens chamou por ela.

Ela se levantou outra vez.

Fiquei sozinho.

A praça permanecia iluminada.

A igreja permanecia silenciosa.

O bar permanecia cheio de vozes.

E eu, diante do copo, pensei naquela mulher.

Seria ela apenas a professora Vilma?

Ou haveria alguma coisa de Qohelet naquela voz?

Não tinha resposta.

Bebi mais um pouco.

Antes de me despedir, combinei voltar.

Queria ouvi-la falar novamente sobre hevel.

E, no meu íntimo, queria descobrir se ela era, de fato, o enigmático Qohelet.

Mas isso, meus leitores, também será assunto para outro conto.

📝 Não deixe de ler nosso conto anterior:

Charles Santiago é jitaunense, professor, escritor. Líder do grupo de pesquisa Poética do Sagrado e colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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