Por Adriano Nicolau da Silva

Tired student resting on folded arms at a desk surrounded by papers and books

O trabalho docente envolve uma combinação de exigências pedagógicas, administrativas e relacionais que pode produzir exposição prolongada a condições estressoras. No contexto brasileiro, estudos com professores da Educação Básica identificam associação entre burnout e diferentes características das condições de trabalho, incluindo insatisfação profissional, sobrecarga e falta de apoio institucional (Magalhães et al., 2021; Ramos et al., 2023). A Organização Mundial da Saúde (World Health Organization [WHO], 2019) caracteriza o burnout como um fenômeno ocupacional decorrente do estresse crônico no trabalho que não foi adequadamente administrado, envolvendo exaustão, distanciamento mental ou sentimentos negativos em relação ao trabalho e redução da eficácia profissional. Portanto, compreender o esgotamento docente exige considerar não apenas o indivíduo, mas também as condições ambientais nas quais seu comportamento ocorre.

Na perspectiva da Análise do Comportamento, o burnout pode ser examinado a partir das relações entre comportamento e ambiente. Isso significa evitar explicações que atribuam o esgotamento exclusivamente a uma fragilidade pessoal, falta de resiliência ou característica interna do professor. As condições de trabalho participam das contingências nas quais diferentes respostas docentes são selecionadas e mantidas (Baum, 2006; Skinner, 1953). Quando as exigências são intensas, os recursos disponíveis são insuficientes e as consequências reforçadoras relacionadas ao trabalho tornam-se pouco frequentes, podem ocorrer mudanças importantes na frequência e na variedade do repertório profissional.

Imagine-se, por exemplo, o cotidiano de um professor da rede pública que precisa administrar sucessivas demandas burocráticas, turmas numerosas, conflitos em sala de aula, cobranças administrativas e expectativas elevadas de desempenho. Se, simultaneamente, consequências relacionadas à própria atividade de ensinar, como participação dos estudantes, reconhecimento profissional, autonomia e percepção de progresso pedagógico, tornam-se pouco frequentes, enquanto cobranças, conflitos e pressão institucional permanecem frequentes, configura-se um ambiente no qual estímulos aversivos podem exercer importante controle sobre o comportamento. Nessas condições, respostas de fuga e esquiva podem adquirir função relevante quando produzem alívio imediato diante de situações aversivas (Sidman, 2003).

A questão central, entretanto, não é afirmar que determinado comportamento possui uma função apenas por sua aparência. Na Análise do Comportamento, a função de uma resposta deve ser investigada a partir das relações estabelecidas entre antecedentes, comportamento e consequências. Assim, afastar-se da sala de aula, reduzir interações, evitar determinadas tarefas ou faltar ao trabalho pode, em determinadas condições, produzir consequências que reduzem temporariamente o contato com estímulos aversivos. Se esse efeito for contingente e consistente, a frequência dessas respostas poderá aumentar, especialmente quando outras alternativas comportamentais não produzem consequências comparáveis (Catania, 1999; Moreira & Medeiros, 2007).

Esse processo pode repercutir sobre a prática pedagógica. Respostas anteriormente frequentes, como planejamento cuidadoso, interação individualizada, escuta dos estudantes e elaboração de estratégias diversificadas de ensino, podem diminuir quando deixam de produzir consequências reforçadoras ou passam a competir com contingências mais imediatas. Não significa afirmar que esses comportamentos simplesmente “entrem em extinção”, mas que sua frequência pode ser reduzida em função das mudanças nas contingências. O repertório docente pode, desse modo, tornar-se menos variado quando respostas de afastamento produzem consequências imediatas mais consistentes do que aquelas relacionadas à inovação e ao investimento pedagógico.

Pesquisas recentes ajudam a dimensionar esse problema. Em estudo realizado em Minas Gerais com 745 professores da Educação Básica pública, Magalhães et al. (2021) encontraram prevalência de burnout de 13,8%. A ocorrência do fenômeno apresentou associação, entre outros fatores, com insatisfação no trabalho, desejo de mudar de profissão e falta de apoio da direção escolar. Em estudo posterior realizado durante a pandemia, Ramos et al. (2023) analisaram 438 professores brasileiros e investigaram fatores relacionados aos indicadores de burnout, qualidade de vida e saúde. Esses estudos não autorizam uma explicação exclusivamente comportamental do fenômeno, mas oferecem elementos empíricos importantes para investigar as relações entre condições de trabalho e comportamento docente.

A literatura internacional também evidencia que o burnout docente ultrapassa a experiência subjetiva de cansaço. Madigan et al. (2023), em uma revisão sistemática de 21 estudos envolvendo 5.267 professores, encontraram associações entre burnout e queixas somáticas, doenças, alterações relacionadas ao eixo hipotálamo-hipófise-adrenal e marcadores inflamatórios. Em outra revisão sistemática e metanálise, Beames et al. (2023) examinaram programas destinados à saúde mental, ao burnout profissional e ao bem-estar de professores. Os autores encontraram efeitos positivos de diferentes programas sobre estresse, ansiedade, depressão, burnout profissional e bem-estar, embora tenham destacado a heterogeneidade dos estudos e limitações metodológicas. Esses resultados reforçam a importância de considerar as condições ambientais e institucionais na compreensão e na prevenção do esgotamento docente.

A partir do behaviorismo radical, isso significa deslocar a pergunta de “o que há de errado com esse professor? ” Para “quais relações comportamentais estão sendo produzidas pelas condições de trabalho? ”. A mudança não é apenas terminológica. Ela permite investigar como carga horária, número de alunos, exigências administrativas, formas de avaliação, relações com a gestão, reconhecimento profissional, autonomia e consequências produzidas pelo trabalho participam da manutenção de determinados repertórios. O comportamento do professor não ocorre no vazio; ele é selecionado em interação contínua com as contingências presentes no ambiente escolar (Skinner, 1953, 1969).

Essa análise também ajuda a compreender por que intervenções centradas exclusivamente no indivíduo podem ser insuficientes. Estratégias individuais podem contribuir para o enfrentamento das dificuldades, mas a prevenção e a redução do burnout exigem igualmente examinar as contingências organizacionais relacionadas à sobrecarga, ao controle aversivo e à baixa disponibilidade de consequências reforçadoras. Uma escola que pretende preservar o trabalho docente precisa criar condições para que comportamentos profissionais relevantes produzam consequências efetivamente reforçadoras. Reconhecimento, autonomia compatível com as responsabilidades, apoio da gestão, colaboração entre profissionais e condições adequadas para o planejamento podem constituir componentes importantes de um ambiente de trabalho mais favorável.

A Análise do Comportamento oferece, nesse sentido, uma contribuição específica para a compreensão do burnout docente porque permite investigar o fenômeno a partir das relações funcionais entre práticas institucionais e comportamento. O professor não deve ser responsabilizado isoladamente por padrões comportamentais que podem estar relacionados às contingências presentes em seu contexto de trabalho. Ao mesmo tempo, uma análise funcional cuidadosa evita transformar automaticamente qualquer dificuldade profissional em burnout, exigindo investigação das relações entre antecedentes, respostas e consequências em cada contexto.

O enfrentamento do esgotamento docente, portanto, não depende apenas de ensinar o professor a suportar melhor as condições existentes. Requer também examinar e modificar condições que possam produzir e manter padrões de sofrimento, afastamento e redução do repertório profissional. Em vez de perguntar somente como tornar o professor mais resistente às exigências escolares, é necessário investigar quais mudanças nas contingências podem tornar o ambiente de trabalho mais reforçador, previsível e compatível com uma prática pedagógica de qualidade. Nessa perspectiva, cuidar do professor significa também analisar e transformar o contexto no qual seu comportamento é continuamente selecionado.

Referências

Baum, W. M. (2006). Compreender o behaviorismo: Comportamento, cultura e evolução (2ª ed.). Artmed.

Beames, J. R., Spanos, S., Roberts, A., McGillivray, L., Li, S., Newby, J. M., O’Dea, B., & Werner-Seidler, A. (2023). Intervention programs targeting the mental health, professional burnout, and/or wellbeing of school teachers: Systematic review and meta-analyses. Educational Psychology Review, 35, Article 26. https://doi.org/10.1007/s10648-023-09720-w

Catania, A. C. (1999). Aprendizagem: Comportamento, linguagem e cognição. Artes Médicas.

Madigan, D. J., Kim, L. E., Glandorf, H. L., & Kavanagh, O. (2023). Teacher burnout and physical health: A systematic review. International Journal of Educational Research, 119, Article 102173. https://doi.org/10.1016/j.ijer.2023.102173

Magalhães, T. A., Vieira, M. R. M., Haikal, D. S., Nascimento, J. E., Brito, M. F. S. F., Pinho, L., Volker, V., & Silveira, M. F. (2021). Prevalência e fatores associados à síndrome de burnout entre docentes da rede pública de ensino: Estudo de base populacional. Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, 46, Article e11. https://doi.org/10.1590/2317-6369000030318

Moreira, M. B., & Medeiros, C. A. (2007). Princípios básicos de análise do comportamento. Artmed.

Ramos, D. K., Anastácio, B. S., Silva, G. A., & Pires, L. U. R. (2023). Professores na pandemia: Fatores e condições associados à síndrome de burnout. Pro-Posições, 34, Article e20210100. https://doi.org/10.1590/1980-6248-2021-0100

Sidman, M. (2003). Coerção e suas implicações. Editorial Psy.

Skinner, B. F. (1953). Science and human behavior. Macmillan.

Skinner, B. F. (1969). Contingencies of reinforcement: A theoretical analysis. Appleton-Century-Crofts.

World Health Organization. (2019, May 28). Burn-out an “occupational phenomenon”: International Classification of Diseases. https://www.who.int/news/item/28-05-2019-burn-out-an-occupational-phenomenon-international-classification-of-diseases

Adriano Nicolau da Silva, Professor, Psicoterapeuta, Neuropsicopedagogo e Neuroeducador. Graduado em Psicologia e Filosofia. Especialista nas áreas de educação e clínica. Pós-Graduando em Física. Uberaba, MG. Colunista do Factótum Cultural. E-mail: adrins@terra.com.br

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