O calendário brasileiro ganhou, neste ano, uma nova data: 5 de setembro, Dia Nacional de Proteção e Combate à Violência contra as Mulheres e Meninas Indígenas.

A data foi instituída pela Lei nº 15.382/2026 e coincide com o Dia Internacional da Mulher Indígena. Mais do que acrescentar uma celebração ao calendário, porém, a data nos convida a olhar para uma realidade que nem sempre recebe a atenção que merece.

Mulheres indígenas existem. Meninas indígenas existem. E suas histórias, suas culturas, seus sonhos e também suas dores fazem parte da história brasileira.

Os números ajudam a compreender a importância do tema. Dados do Ministério da Saúde mostram um crescimento expressivo das notificações de violência contra mulheres indígenas nos últimos anos, inclusive nos casos de violência sexual. São números que chamam atenção justamente porque representam pessoas reais por trás das estatísticas.

Mas talvez o mais importante de uma data como esta não esteja nos números.

Está no olhar.

Vivemos em um país enorme, cheio de histórias que muitas vezes permanecem distantes de nós. Há realidades que conhecemos apenas quando aparecem em uma reportagem, em um documentário ou em alguma data específica do calendário.

E talvez seja justamente para isso que existam determinadas datas: para interromper o automático.

Esse tema também me toca de perto. No ano passado, escrevi sobre minha avó Maria, uma mulher indígena que foi retirada de sua família ainda jovem. Contar sua história me fez olhar de outra maneira para minhas próprias raízes e para as marcas que determinadas violências deixam através das gerações. Talvez por isso o 5 de setembro tenha, para mim, um significado que vai além de uma data no calendário.

O 5 de setembro acrescenta outro olhar: o das mulheres e meninas.

E é um olhar necessário.

Porque elas não são apenas parte de uma estatística sobre violência. São pessoas que carregam histórias familiares, conhecimentos, tradições e experiências que atravessam gerações.

São mulheres.

São meninas.

São brasileiras.

Talvez uma das coisas mais curiosas das datas comemorativas seja justamente sua capacidade de nos fazer lembrar daquilo que não deveria ser esquecido.

Durante um dia, falamos sobre determinado assunto.

No dia seguinte, o calendário vira a página.

Mas algumas questões não deveriam virar junto.

A violência contra mulheres e meninas indígenas é uma delas.

O 5 de setembro pode ser, portanto, mais do que uma data de conscientização. Pode ser uma oportunidade para conhecer melhor os povos indígenas, ouvir suas mulheres, respeitar suas histórias e perceber que a diversidade brasileira não existe apenas nos livros de História ou nas fotografias que aparecem nas escolas.

Ela está viva.

Está presente.

E merece ser vista.

Que a nova data não seja apenas mais um nome no calendário.

Que seja um convite para olhar com um pouco mais de atenção para quem, tantas vezes, permanece longe dos nossos olhos.

Porque lembrar é importante.

Mas talvez lembrar alguém seja, também, uma primeira forma de dizer: você não está invisível.

Que esta nova data do calendário brasileiro não seja apenas mais uma lembrança passageira. Que seja um convite permanente à proteção, ao respeito e à valorização das mulheres e meninas indígenas.

📖 E não deixe de ler nosso conteúdo anterior:

Neemias, é escritor.

Deixe um comentário

Tendência