Por Ecos do Mundo

| “Raízes do Sagrado Feminino” e as religiosidades patriarcais |
| Ícone do cinema e da televisão brasileira, Carla Camurati nos brinda com mais uma de suas belas obras de arte, o documentário Raízes do Sagrado Feminino. Trata-se de um filme arrebatador, que percorre cinco religiões que sustentam suas práticas e visões de mundo através de algum tipo de literatura sagrada. Na verdade, o filme aborda as cinco maiores tradições religiosas do mundo, a saber, hinduísmo, budismo, judaísmo, cristianismo e islamismo, que se orientam por textos sagrados, como Vedantas, Sutras, Torá, Bíblia, Corão, dentre outros. São literaturas que guardam os segredos e as riquezas de tradições e culturas espirituais ancestrais, mas que são atravessadas por um elemento comum: são textos escritos por homens, que revelam sabedorias eminentemente masculinistas. É essa a perplexidade de Carla Camurati: as maiores religiões do mundo não somente são controladas por homens, como são veículos do que gostaria aqui de chamar de sagrado masculino — sagrado que produz e legitima relações de poder profundamente opressoras.. |
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| Porque não pode passar despercebido, esse dado deve ser problematizado. É que, diferentemente do que é propagado, a religiosidade não é uma simples questão de foro íntimo. Ainda que seja exercida por pessoas singulares, a religiosidade forma o substrato simbólico de grande parte das culturas e, dessa forma, condiciona de diversas maneiras as nossas instituições, assim como molda nossos corpos e subjetividades. Por isso, o sagrado masculino veiculado por essas religiões possui tentáculos a violar, dominar, controlar e conduzir muitas vidas. Questionar religiosidades hegemônicas acaba sendo uma tarefa de todas e todos nós. Daí a primeira grande pergunta do filme: qual o lugar das mulheres nessas cinco tradições religiosas onde o sagrado masculino se fez e se faz onipotente? Se Simone de Beauvoir afirmou que “ninguém nasce mulher; torna-se mulher”, como as mulheres são forjadas pelo poder das cinco maiores tradições religiosas do mundo? Como as mulheres são plasmadas pelos sagrados masculinos do hinduísmo, budismo, judaísmo, cristianismo e islamismo? Essas questões foram tecidas ao longo do filme por meio de um importante fio condutor: o caráter patriarcal das cinco religiões abordadas. Hinduísmo, budismo, judaismo, cristianismo e islamismo são religiões patriarcais e isso nada têm de moralmente positivo. |
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| Patriarcado é um sistema de poder, exercido por homens e símbolos masculinos, sistema este que coloniza violentamente a vida das mulheres, com vistas a perpetuar a si mesmo e aos privilégios de seus escolhidos. É como poder paterno (pater potestas, segundo a terminologia do direito romano), que figuras masculinas “paternas” regem autocraticamente as demais vidas (pais, maridos, reis, imperadores, juízes etc.). Essa relação de poder possui características muito nítidas: ênfase na virilidade, na disputa e na guerra, exercício violento da força, objetificação dos corpos, produção de conhecimentos que produzem sujeição da realidade (“conhecer é poder”), divisão do mundo entre fracos e fortes, vencedores e perdedores, sujeição ou mesmo eliminação de tudo que pode ser considerado feminino, como gestos, valores, afetos, pessoas etc. Assim, dentro dos quadros patriarcais, toda mulher se torna vítima preferencial. E é nesse sentido que Raízes do Sagrado Feminino escancara a violência das religiões patriarcais contra a mulher. Os sagrados masculinos das cinco maiores religiões do mundo são sagrados patriarcais e, por serem patriarcais, são sagrados que violam corpos femininos, além de determinar masculinidades que só se sentem bem com as mulheres, à medida que estas se tornam vítimas de sua dominação. |
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| Eis como a mulher indiana é vítima do sentido teológico do casamento. Seu pai, que até então detinha total poder sobre seu corpo, paga um dote para a família de seu futuro marido e, sem qualquer respeito ao desejo da filha, planeja seu matrimônio e lega ao marido o poder que antes exercera sobre ela. O filme menciona uma mãe que diz para a filha que, se seu casamento for ruim, sua tarefa é construir um céu dentro daquele inferno. Ainda mostra três irmãs assassinadas certamente pelos maridos, muito provavelmente devido ao fato de o pai delas não ter tido dinheiro para dar um bom dote à família de seus maridos, que também eram irmãos. E tudo isso chancelado por tradições religiosas hinduístas. E o que dizer do budismo, religião aparentemente sem preconceitos, porém inspirada na vida do Buda Shakyamuni, que fez de tudo para não aceitar sua madrasta Mahaprajapati como monja, pelo simples fato de ser mulher? Mesmo depois de aceitar ordenações femininas (bhikkhunis), ainda há hoje um abismo entre homens e mulheres causado pelo sentido patriarcal dessa religião. E as narrativas judaicas segundo as quais foi Eva, a primeira mulher segundo um dos relatos da criação presentes na Torá, a fonte da queda do paraíso, já que ela teria sido seduzida pela serpente (Satã) e teria convencido Adão a comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal? Não é por isso que na importante literatura judaica do Talmud babilônico, onde sábios judeus discutem questões nascidas da Torá, se encontra uma importante oração onde os homens agradecem diariamente a Deus por não terem nascido mulher? E o que dizer da cena da circuncisão muçulmana de uma menina da Indonésia (maior país muçulmano do mundo), que se prepara para a mutilação de seu clitóris, tudo isso em nome de Alá? E as perseguições político-religiosas das mulheres realizadas por grupos islâmicos como Al-Qaeda, Estado Islâmico e o Talibã? Não é tudo isso filho direto e dileto do patriarcado religioso? Sim, certamente é. |
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| Mas, é no patriarcado cristão que essas práticas de violência contra a mulher nos tocam sobremaneira. É que o cristianismo colonial e patriarcal forma o substrato religioso hegemônico onde nossas existências foram e são criadas. No Brasil, valores cristãos e a simbólica cristã atravessam até quem se diz ateia ou ateu. E no cristianismo colonial e patriarcal que nos concerne, o crucificado virou crucificador e, nas cruzes dessa tradição, os corpos femininos têm lugar preferencial. São “bruxas”, “macumbeiras”, mulheres pretas, mulheres indígenas, mulheres trans, mulheres lésbicas, mulheres PCDs, mulheres que vivem com HIV… que desde há muito são alvos dos juízos condenatórios cristãos. E o que dizer das frentes parlamentares cristãs, que chegaram a propor recentemente a criminalização de meninas engravidadas por estupro, como se elas fossem culpadas pela violência sofrida? É claro que há uma relação direta entre patriarcado colonial cristão brasileiro e o aumento de crimes por feminicídio, transfobia, lesbofobia, dentre outros. Carla Camurati só coloca uma lente de aumento para que tenhamos coragem de enxergar o que já vemos. Raízes do Sagrado Feminino não revela somente a destrutividade do sagrado masculino de origem patriarcal. O filme mostra a ambiguidade de todas as tradições apresentadas. Há sempre elementos que fogem da violência machista, mesmo dentro de uma tradição religiosa patriarcal. Por isso, lideranças religiosas femininas dessas religiosidades patriarcais se revelam verdadeiras linhas de fuga em relação às práticas religiosas de opressão. |
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| Contudo, Carla Camurati ousa também ouvir homens, pois o patriarcado religioso é um problema criado por homens. Mas ela ouve homens que colocam em xeque a legitimidade do sistema que os beneficia. Na pluralidade de vozes femininas e masculinas, Camurati escreve então sua sinfonia. Por um lado, o filme é um convite ao pensamento crítico. Por outro, é uma ode a todas as mulheres que, vivendo em meio à força destrutiva dos Deuses patriarcais, semeiam esperança, igualdade e amor. Não à toa, Simone de Beauvoir, Lélia Gonzalez, Angela Davis, Beatriz Nascimento, Judith Butler, Malala Yousafzai, Ivone Gebara, dentre outras grandes vozes contemporâneas aparecem no filme, mesmo que seja somente numa foto, talvez para mostrar que o sagrado feminino não é necessariamente uma realidade religiosa, mas o que nutre as lutas de tantas mulheres por uma vida onde seus corpos não sejam mutilados e violentados em nome do que quer que seja. Dentre esses grandes nomes femininos que ousam sonhar num mundo de pesadelos patriarcais, certamente está o de Carla Camurati. Que sua nova obra nos incomode e que gere belos frutos. |
| Autor convidado Alexandre Marques Cabral é professor dos departamentos de filosofia da UERJ e do Colégio Pedro II. É doutor em filosofia, teologia e ciências da religião. |
| Neste texto e para ir além: |
Filme: Raízes do Sagrado Feminino, disponível no app Aquarius |
Aquarius. 31.7.2026.











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