Sábado de manhã. Crossfit.
O habitat natural de pessoas que fazem agachamento com pneu, pulam caixa de madeira voluntariamente e chamam sofrimento de “superação”.

Entrei tranquilo. Camiseta preta. Shiva estampado no peito, tridente na mão, cara de quem transcendeu o ego há milênios. Eu, infelizmente, ainda tentando transcender o sono e descobrir se meu espírito já tinha acordado ou só meu corpo mesmo.

Começou o treino.

Começaram os olhares.

No início achei que era meu desempenho atlético impressionante. Depois percebi que era o Shiva mesmo.

Um rapaz olhou pra camiseta, franziu a testa e lançou a pergunta mais brasileira possível:

— Que diabo é isso?

Veja a ironia. O cidadão não fazia ideia do que era… mas já tinha concluído que vinha do inferno.

Respondi:

— Shiva.

O silêncio que veio depois foi tão profundo que parecia meditação transcendental.

Uma moça da igreja disse que tomou um susto. Um susto de uma camiseta. Nem era o capeta fazendo levantamento terra. Era tecido e tinta.

Ali percebi que o verdadeiro treino daquele sábado não era físico.

Era sobreviver ao cardio religioso coletivo.

E é curioso como funciona a ignorância humana. A pessoa não conhece uma religião milenar, nunca leu uma linha sobre hinduísmo, não sabe quem é Shiva, mas sente confiança suficiente para estranhar, julgar e quase pedir uma água benta entre um burpee e outro.

O mais engraçado é que Shiva representa justamente destruição… mas destruição do ego, das ilusões, da ignorância.

Ou seja: talvez ele estivesse trabalhando ali mesmo.

A camiseta, aliás, ganhei de um amigo meu, o Jocy. Desses raros com quem dá pra conversar sobre espiritualidade, filosofia e existência sem transformar tudo em campeonato de “quem está certo”. Estamos escrevendo um livro sobre religiões. O que, pensando bem, talvez também assuste algumas pessoas.

Em certo momento pensei em falar de Jesuz Cristo. Pensei em dizer que talvez ele fosse uma das poucas figuras espirituais capazes de sentar numa mesa com Shiva sem surtar por causa de uma estampa.

Mas deixei quieto.

O pessoal ainda estava emocionalmente abalado pelo tridente.

Continuei o treino.

No fim, ninguém foi possuído.
Ninguém saiu falando sânscrito.
E o máximo de manifestação sobrenatural foi um aluno vendo estrelas depois do treino funcional.

Saí dali pensando numa coisa simples:

Talvez o Brasil não precise de mais religião.

Talvez precise de mais conhecimento sobre elas.

Porque quando falta educação, sobra medo.
E quando sobra medo… até uma camiseta vira ameaça espiritual.

No fundo, Shiva não assustou ninguém naquele sábado.

O que assustou foi encontrar algo que não cabia dentro da própria bolha.

Saí dali com uma certeza:

O mundo não precisa de mais gente defendendo sua religião como um território.

Precisa de gente que aguente a existência da religião do outro… sem entrar em curto-circuito.

E se isso parecer difícil…

talvez seja porque a gente anda treinando muito o corpo…

e quase nada a Consciência.

E só um lembrete rápido, entre um burpee e outro: intolerância religiosa é crime. Vivemos em um país laico, onde cada um tem o direito de seguir sua fé, sua filosofia ou nenhuma delas. Então, se não for por consciência… respeite pelo menos por inteligência 😄

📖 E não deixe de ler nosso conteúdo anterior:

E não se esqueça: Sábado, nossa coluna “Escrever para Não Enlouquecer” fala sério — mas só porque o universo exige equilíbrio. Segunda a gente volta com humor para os dias difíceis.

Neemias Moretti Prudente é escritor.

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