Por Criminologia PopY

Em 1692, na pequena Salem, pessoas foram condenadas por um crime invisível.
Bruxaria.
Não havia corpo.
Não havia prova material.
Não havia fato verificável.
Havia apenas algo muito mais poderoso:
a acusação.
O filme As Bruxas de Salem não é apenas uma reconstrução histórica. Ele é um retrato cirúrgico do momento em que a justiça deixa de ser busca pela verdade… e passa a ser um reflexo do medo coletivo.
E é exatamente aqui que a criminologia começa a sussurrar — ou talvez gritar.
⚖️ A justiça que já decidiu antes de julgar
Em Salem, o tribunal não investiga. Ele confirma.
As acusações surgem frágeis, carregadas de emoção, contradições e interesses ocultos. Ainda assim, são aceitas como verdade absoluta.
Por quê?
Porque o sistema não está tentando descobrir o que aconteceu.
Ele está tentando validar aquilo que já acredita.
A criminologia crítica nos ensina algo desconfortável:
o sistema penal não é neutro.
Ele seleciona narrativas, constrói culpados e, muitas vezes, legitima decisões que já foram tomadas antes mesmo do processo começar.
🔥 O nascimento do criminoso sem crime
Ninguém em Salem praticou bruxaria.
Ainda assim, pessoas foram presas, julgadas e mortas.
Aqui entra a teoria do etiquetamento (labelling approach):
o indivíduo não é punido apenas por um ato — ele é definido por um rótulo.
Uma vez chamado de “bruxa”, tudo muda:
- sua palavra perde valor
- sua defesa vira suspeita
- seu silêncio vira prova
O processo deixa de ser sobre fatos e passa a ser sobre identidade.
E quando isso acontece… a verdade já não importa mais.
🧠 A mente por trás da acusação
As acusações em Salem não nasceram do nada. Elas brotaram de um terreno fértil:
- desejo reprimido
- inveja
- medo
- necessidade de pertencimento
Acusar virou estratégia de sobrevivência.
A criminologia revela uma verdade incômoda:
nem toda acusação nasce de um crime.
Algumas nascem de conflitos internos que encontram um sistema disposto a acreditar.
🐑 Quando o medo vira consenso
Em um ambiente contaminado pelo medo, ninguém quer ser o próximo acusado.
Então o que as pessoas fazem?
Acusam antes de serem acusadas.
Esse efeito manada transforma suspeita em certeza, boato em prova, emoção em condenação.
E, quando todos acreditam… duvidar se torna perigoso.
⚔️ A inversão fatal
Em Salem, a lógica era simples:
“Se você é acusado, prove que é inocente.”
Essa inversão destrói qualquer noção de justiça.
O ônus da prova deixa de ser de quem acusa e passa a ser de quem tenta sobreviver.
E quando isso acontece, o processo penal deixa de proteger o indivíduo… e passa a esmagá-lo.
🕯️ O verdadeiro crime
O maior crime em Salem não foi a bruxaria.
Foi a abdicação da dúvida.
Quando a sociedade perde a capacidade de questionar,
quando o sistema prefere a rapidez à verdade,
quando a emoção pesa mais que a prova…
a injustiça deixa de ser um erro.
Ela se torna método.
⚔️ E quando não é erro… é estratégia?
Se Salem nos mostra um sistema tomado pelo medo coletivo…
há momentos na história em que o mecanismo é ainda mais perturbador.
Momentos em que o sistema não é contaminado.
Ele é conduzido.
É isso que vemos em The Devils.
Ali, a acusação não nasce do caos — nasce do poder.
Não é o povo que empurra o sistema.
É o sistema que constrói o espetáculo.
O crime deixa de ser apenas imaginário.
Ele passa a ser fabricado.
Provas são moldadas. Testemunhos são induzidos. O julgamento vira encenação.
E a condenação já está escrita antes da primeira palavra da defesa.
Se Salem é o retrato da histeria…
The Devils é o retrato da manipulação.
E juntos, eles revelam algo que a criminologia não pode ignorar:
o perigo não está apenas no erro da justiça.
Está na possibilidade de que, em certos momentos, ela funcione exatamente como foi planejada para funcionar.
🧩 Conclusão (ou um aviso)
A criminologia não serve apenas para estudar o crime.
Ela serve para reconhecer quando a própria justiça começa a se comportar como ele.
E talvez essa seja a lição mais incômoda de todas:
Salem nunca acabou.
Ela só evoluiu.
Às vezes, como medo coletivo.
Outras… como estratégia.
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✍️ Neemias, Criminólogo, Professor de criminologia, Psicanalista em formação e Editor do Factótum Cultural.





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