Os Demônios (Terror, Drama – 1971) / Bruxas de Salém (Drama, História – 1996)

Em 1692, na pequena Salem, pessoas foram condenadas por um crime invisível.

Bruxaria.

Não havia corpo.
Não havia prova material.
Não havia fato verificável.

Havia apenas algo muito mais poderoso:

a acusação.

O filme As Bruxas de Salem não é apenas uma reconstrução histórica. Ele é um retrato cirúrgico do momento em que a justiça deixa de ser busca pela verdade… e passa a ser um reflexo do medo coletivo.

E é exatamente aqui que a criminologia começa a sussurrar — ou talvez gritar.

⚖️ A justiça que já decidiu antes de julgar

Em Salem, o tribunal não investiga. Ele confirma.

As acusações surgem frágeis, carregadas de emoção, contradições e interesses ocultos. Ainda assim, são aceitas como verdade absoluta.

Por quê?

Porque o sistema não está tentando descobrir o que aconteceu.
Ele está tentando validar aquilo que já acredita.

A criminologia crítica nos ensina algo desconfortável:

o sistema penal não é neutro.

Ele seleciona narrativas, constrói culpados e, muitas vezes, legitima decisões que já foram tomadas antes mesmo do processo começar.

🔥 O nascimento do criminoso sem crime

Ninguém em Salem praticou bruxaria.

Ainda assim, pessoas foram presas, julgadas e mortas.

Aqui entra a teoria do etiquetamento (labelling approach):
o indivíduo não é punido apenas por um ato — ele é definido por um rótulo.

Uma vez chamado de “bruxa”, tudo muda:

  • sua palavra perde valor
  • sua defesa vira suspeita
  • seu silêncio vira prova

O processo deixa de ser sobre fatos e passa a ser sobre identidade.

E quando isso acontece… a verdade já não importa mais.

🧠 A mente por trás da acusação

As acusações em Salem não nasceram do nada. Elas brotaram de um terreno fértil:

  • desejo reprimido
  • inveja
  • medo
  • necessidade de pertencimento

Acusar virou estratégia de sobrevivência.

A criminologia revela uma verdade incômoda:

nem toda acusação nasce de um crime.
Algumas nascem de conflitos internos que encontram um sistema disposto a acreditar.

🐑 Quando o medo vira consenso

Em um ambiente contaminado pelo medo, ninguém quer ser o próximo acusado.

Então o que as pessoas fazem?

Acusam antes de serem acusadas.

Esse efeito manada transforma suspeita em certeza, boato em prova, emoção em condenação.

E, quando todos acreditam… duvidar se torna perigoso.

⚔️ A inversão fatal

Em Salem, a lógica era simples:

“Se você é acusado, prove que é inocente.”

Essa inversão destrói qualquer noção de justiça.

O ônus da prova deixa de ser de quem acusa e passa a ser de quem tenta sobreviver.

E quando isso acontece, o processo penal deixa de proteger o indivíduo… e passa a esmagá-lo.

🕯️ O verdadeiro crime

O maior crime em Salem não foi a bruxaria.

Foi a abdicação da dúvida.

Quando a sociedade perde a capacidade de questionar,
quando o sistema prefere a rapidez à verdade,
quando a emoção pesa mais que a prova…

a injustiça deixa de ser um erro.

Ela se torna método.


⚔️ E quando não é erro… é estratégia?

Se Salem nos mostra um sistema tomado pelo medo coletivo…

há momentos na história em que o mecanismo é ainda mais perturbador.

Momentos em que o sistema não é contaminado.

Ele é conduzido.

É isso que vemos em The Devils.

Ali, a acusação não nasce do caos — nasce do poder.
Não é o povo que empurra o sistema.
É o sistema que constrói o espetáculo.

O crime deixa de ser apenas imaginário.

Ele passa a ser fabricado.

Provas são moldadas. Testemunhos são induzidos. O julgamento vira encenação.
E a condenação já está escrita antes da primeira palavra da defesa.

Se Salem é o retrato da histeria…

The Devils é o retrato da manipulação.

E juntos, eles revelam algo que a criminologia não pode ignorar:

o perigo não está apenas no erro da justiça.

Está na possibilidade de que, em certos momentos, ela funcione exatamente como foi planejada para funcionar.


🧩 Conclusão (ou um aviso)

A criminologia não serve apenas para estudar o crime.

Ela serve para reconhecer quando a própria justiça começa a se comportar como ele.

E talvez essa seja a lição mais incômoda de todas:

Salem nunca acabou.

Ela só evoluiu.

Às vezes, como medo coletivo.

Outras… como estratégia.

🧩 Não deixe de ler o conteúdo anterior:

✍️ Neemias, Criminólogo, Professor de criminologia, Psicanalista em formação e Editor do Factótum Cultural.

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