Houve um tempo em que o silêncio era respeitoso.
Hoje, ele é suspeito.

Você manda uma mensagem.
Ela chega.
Ela é vista.
E… nada.

E o nada, meu amigo, nunca foi tão barulhento.

Antigamente, quando alguém não respondia, existiam dúvidas plausíveis: talvez não estivesse em casa, talvez estivesse trabalhando, talvez nem tivesse visto.

Hoje não.
Hoje o silêncio vem com carimbo:

“visualizado às 14:32.”

É quase uma certidão de desinteresse com validade digital.

Criaram uma geração que consegue conversar com o mundo inteiro…
e, ao mesmo tempo, não sustenta uma conversa de três minutos com uma única pessoa.

É uma habilidade curiosa:
estar disponível para todos
e indisponível para quem importa.

A gente aprendeu a romantizar o vácuo.

“Ah, deve estar ocupado…”
“Ah, deve responder depois…”
“Ah, deve ter acontecido alguma coisa…”

Sim. Aconteceu.

Aconteceu que você não é prioridade.

E está tudo bem. Ou deveria estar.

O problema não é o outro não responder.
O problema é o esforço quase poético que fazemos para não aceitar o óbvio.

Vivemos na era da comunicação instantânea
com sentimentos em modo avião.

As pessoas respondem stories,
curtem fotos,
mandam emoji,
reagem com foguinho 🔥

Mas conversar mesmo…
isso virou um compromisso sério demais.

Quase um casamento.

E veja que curioso:
nunca foi tão fácil falar
e nunca foi tão difícil ser ouvido.

Talvez a verdade seja simples, mas indigesta:

As pessoas não estão ocupadas demais.
Elas estão interessadas de menos.

E interesse, diferente de tempo, não se agenda.
Se sente.

Mas calma… não é o fim do mundo.
É só o fim de uma ilusão.

Aquela ilusão de que todo mundo se importa,
de que todo mundo quer estar perto,
de que todo mundo sente na mesma intensidade.

Não sente.

E nunca sentiu.

A diferença é que antes isso era disfarçado pela convivência.
Hoje, é exposto em tempo real.

Então talvez a solução não seja endurecer…
nem se fechar…
nem sair cobrando respostas como quem cobra dívida vencida.

Talvez seja só ajustar o olhar.

Entender que:

quem quer, aparece
quem não quer, silencia
e quem mais ou menos quer… te deixa olhando pra tela.

E, no fim das contas, fica uma conclusão meio amarga, meio libertadora:

nem todo silêncio é ausência de resposta.
Às vezes, é exatamente a resposta.

Só não vem com palavras.

Vem com aquele frio elegante de quem leu…
e escolheu não ficar.

E gente, se a pessoa não respondeu suas mensagens e não te procura é porque realmente ela não quer falar contigo. Não romantiza não 🙋

📖 E não deixe de ler nosso conteúdo anterior:

E não se esqueça: Sábado, nossa coluna “Escrever para Não Enlouquecer” fala sério — mas só porque o universo exige equilíbrio. Segunda a gente volta com humor para os dias difíceis.

Neemias Moretti Prudente é escritor, advogado, professor, filósofo míscômico, psicanalista em formação e editor-chefe do Factótum Cultural.

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