Escrever Para Não Enlouquecer – Por Neemias

Passei anos — talvez a vida inteira — olhando para o céu.
Buscando Deus, fonte, consciência, absoluto (e, vai saber, até algum alienígena).
Lendo, estudando, cursando, meditando, ritualizando, sangrando, tentando atravessar o véu do mundo comum como quem quer descobrir o código secreto do universo.
Queria entender tudo.
Queria tocar o fundamento.
Até que, em determinado momento, tudo ficou escuro.
Não metaforicamente. Escuro mesmo.
Uma espécie de tela preta surgiu diante de mim.
Como se a experiência tivesse acabado.
Como se eu tivesse chegado ao limite.
E minha reação foi quase infantil:
— É isso? Só isso? Esse vazio?
Eu esperava revelações grandiosas.
Recebi silêncio.
E então, depois do nada… apareceu a vida.
Não uma visão celestial.
A minha vida.
Simples. Imperfeita. Cotidiana.
Eu a observava passar diante de mim.
E, confesso, senti indignação de novo:
— É só isso? Depois de tudo que busquei, é viver?
Naquele instante me vi como um velho chato.
Um homem cansado, como se já tivesse vivido demais.
Alguém que despreza a própria existência porque ela não é mística o suficiente.
Foi quando algo mudou.
A compreensão não veio em forma de frase épica.
Veio como ajuste interno:
A vida pode ser boa.
Depende de você.
Não no sentido infantil de controlar o universo.
Mas no sentido radical de postura.
Ali entendi algo que talvez eu estivesse evitando:
Buscar o céu pode virar fuga da terra.
E talvez despertar não seja escapar da condição humana —
mas aceitá-la profundamente.
Ir ao céu…
e voltar para viver como homem.
Com mais consciência.
Com mais responsabilidade.
Com menos arrogância, inclusive espiritual.
E aprendendo a sustentar o céu enquanto caminho na terra.
Percebi que existem duas versões possíveis de mim:
O velho ranzinza que rejeita a simplicidade da vida porque ela não é transcendental o bastante.
Ou o jovem aprendiz que aceita o jogo, aprende as regras e começa a criar dentro delas.
Aceita, aprende, vive bem.
Rejeita, reclama, endurece.
Simples assim.
Talvez o universo seja mental.
Talvez seja matéria.
Talvez seja mistério.
Mas existe um fato incontornável:
existe um Observador.
Ele não está fora. Está dentro.
E quando você o encontra, tudo o que você chama de realidade começa a mudar.
Naquele momento, me vi jovem.
Não porque descobri todos os segredos.
Mas porque aceitei que não preciso descobrir todos para viver bem.
O futuro continua sendo mistério.
A tela escura continua lá, no fundo de tudo.
Mas agora sei algo que antes me escapava:
Não vim apenas buscar o céu.
Vim aprender a viver a vida do Neemias.
E isso, curiosamente, pode ser o verdadeiro despertar.
Porque, afinal, como ensina o mestre Layman Pang:
“Antes da iluminação, corte lenha e carregue água;
depois da iluminação, corte lenha e carregue água.”
Mas, sim… ainda olho para o céu — só para lembrar de onde vim.
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E não se esqueça: Sábado, nossa coluna “Escrever para Não Enlouquecer” fala sério — mas só porque o universo exige equilíbrio. Segunda a gente volta com humor para os dias difíceis.

⚡ Neemias Moretti Prudente é escritor, advogado, professor, filósofo míscômico, psicanalista em formação e editor-chefe do Factótum Cultural.





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