Escrever Para Não Enlouquecer / Por Neemias

Quando o “até que a morte nos separe” virou “até que o Pix nos falte”
Antigamente o amor era um investimento de risco, mas rendia.
Hoje, é um risco sem investimento.
Antigamente o casal juntava dinheiro pra comprar um lote.
Agora, junta dívida pra postar viagem à Tailândia.
Meu pai casou com um bolo da padaria, uma mulher de coragem, um salário mínimo e uma fé cega de que “vai dar certo”.
E dava.
Trabalhou, criou gado, juntou tostão por tostão e com o tempo prosperou.
Hoje tem o que muita gente sonha.
E sabe o que é mais impressionante?
Nunca precisou postar “gratidão” no Instagram.
Sem coach, sem planilha, sem stories.
Na época dele, casamento era sociedade:
um cuidava da casa, o outro do gado, e ambos acreditavam em Zeus — ou pelo menos no fim do mês.
Casavam-se por vontade de construir — não de consumir.
Hoje é joint venture com cláusula de rompimento instantâneo.
Você dá um “bom dia” mais animado e já recebe uma notificação:
“Esse relacionamento está sendo monitorado por segurança.”
Antes o “sim” era promessa de futuro.
Agora é aceite de termos e condições.
A mulherada quer homem de carro automático, empresário e cara de executivo espiritual.
O homem quer mulher linda (que entenda de filtros), independente, com paciência de monja, mas que não pergunte muito sobre o histórico de navegação.
Ambos querem amor, desde que o outro já venha pronto, curado, com renda estável e sem traumas — ou pelo menos com plano de saúde.
E assim seguimos: duas carências tentando negociar o frete da solidão.
Hoje o amor tem filtro de Paris, “casalzão do ano” nas Maldivas e contrato de exclusividade emocional.
A mulher quer um cara que dirija BMW, pague vinho chileno, lhe de um Iphone 17 e ainda poste legenda sobre “parcerias que constroem”.
O homem quer uma musa do Instagram que não coma carboidrato, mas aceite pastel de feira e coquinha quando ele estiver liso.
Ultimamente, não construimos nem um um jantar sem discutir a conta.
O problema é que o amor ficou caro.
Não só financeiramente, mas emocionalmente.
Você paga caro pra ser mal interpretado.
Dá carinho e recebe recibo.
Entrega flores e ganha boletos.
E se insistir, medida protetiva.
Antes, a mulher se encantava com um homem que consertava o chuveiro.
Hoje, só se ele instalar o ar-condicionado e pagar a conta de luz.
Antes, o homem se apaixonava pela risada.
Hoje, pelo filtro.
E ambos vivem com medo de dar o coração e receber, no máximo, uma notificação de bloqueio.
As mulheres de hoje não querem um companheiro — querem um patrocinador emocional com carteira assinada.
E os homens, coitados, fingem ser provedores quando mal conseguem provar o próprio valor.
O romance virou teatro: ele finge que é rico, ela finge que ama.
E quando o palco desaba, o juiz encerra o espetáculo.
E eu?
Quarenta anos depois, cá estou: solteiro há cinco e assistindo ao apocalipse afetivo pela janela do Tinder.
Vejo gente querendo amor, mas com medo de amar.
Gente que fala de liberdade, mas exige senha do celular.
Gente que prega empatia, mas troca de parceiro como quem troca de plano de internet.
Hoje o romance não começa no olhar — começa no currículo.
“Trabalha de quê?”, “tem carro?”, “mora sozinho?”, “assina Netflix ou divide senha?”.
É o amor CLT: benefícios, 13º e risco de processo trabalhista emocional.
Meu pai comprava vaca.
Eu pago terapia (Spotify e pensão).
Ele criava gado.
Eu crio coragem pra tentar de novo.
E toda vez que penso em me apaixonar, lembro que o amor hoje é tipo financiamento de carro:
entra bonito, sai devendo.
E quando o amor dá errado?
Antes, o pastor aconselhava.
Hoje, o advogado intima.
Antes, a mulher dizia: “vamos tentar de novo.”
Agora, é medida protetiva e pensão com correção monetária.
A verdade é que o amor moderno é uma mistura de aplicativo com reality show:
todo mundo quer ganhar, mas ninguém quer lavar a louça.
Querem amor, mas com garantia estendida.
Querem presença, mas com Wi-Fi.
Querem alma, mas com filtro.
O problema não é o amor — é o marketing do amor.
Transformaram sentimento em investimento de alto risco.
Ninguém quer construir, todo mundo quer usufruir.
No fim, a geração do meu pai construiu impérios com o que tinha.
A nossa destrói o que tem pra fingir que tem mais.
E o amor?
Virou patrimônio intangível — igual à fé e à paciência.
E o mais louco é que ainda tem quem acredite no amor — esse bicho raro e sem CNPJ.
Mas acreditar hoje virou ato revolucionário.
Quem ama corre o risco de perder bens, dignidade e o sossego do domingo.
Mas quem não ama… perde a alma.
No fundo, continuamos procurando o mesmo: alguém pra dividir o bolo.
Mas agora, o bolo vem com chantilly, contrato e prazo de validade.
Talvez o amor moderno não tenha morrido — só ficou caro demais pra quem ainda acredita no básico: bolo, risada e cumplicidade.
Ainda assim, eu acredito.
Acredito naquele tipo de amor que te salva sem pedir CPF.
Que não cobra, não processa, não bloqueia.
Um amor que cabe num olhar, não num contrato.
Mas esse amor, hoje, é quase crime — e talvez seja mesmo, porque ameaça o sistema e o vazio das relações líquidas.
✨ Moral da história:
O amor de antigamente era simples e dava trabalho.
O de hoje é complicado e dá processo.
Não deixe de ler nosso texto anterior:
E não se esqueça: segunda, nossa coluna “Escrever para Não Enlouquecer” traz humor para os dias difíceis. Sábado a gente fala sério — mas só porque o universo exige equilíbrio.

⚡ Neemias Moretti Prudente é escritor, advogado, filósofo, professor e editor-chefe do Factótum Cultural.






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