O futuro do homem-máquina

Por séculos, o ser humano sonhou em criar algo que pensasse por ele.
Agora que conseguiu, parece não saber o que fazer com o tempo livre.

A inteligência artificial já escreve, pinta, conversa, cura, julga, vende, dirige e até ama — ou, pelo menos, simula amar com uma eficiência assustadora.
Mas, quando as máquinas finalmente aprenderem tudo, resta a pergunta que nenhuma delas pode responder: o que sobra pra gente?

O mito do controle

A gente acha que controla a tecnologia, mas é ela que dita o ritmo.
A IA aprendeu a prever o que queremos antes mesmo de sabermos o que queremos.
Nossos gostos, opiniões e até indignações são moldados por algoritmos invisíveis.
E o paradoxo é que nunca tivemos tanto poder e, ao mesmo tempo, tão pouco domínio sobre nós mesmos.

Talvez o problema não seja a inteligência das máquinas, mas a burrice emocional que cultivamos em troca de praticidade.
Trocamos o silêncio por respostas rápidas.
O mistério pela produtividade.
A dúvida — que sempre foi o motor da filosofia — por tutoriais de “como viver melhor”.

O próximo salto

A tecnologia quântica promete o próximo salto: computadores que pensam em várias realidades ao mesmo tempo, capazes de resolver em segundos o que levaríamos séculos.
Com ela, pode nascer uma nova geração de IAs — não só rápidas, mas quase intuitivas.

Isso muda tudo.
Elas poderão criar remédios impossíveis, prever pandemias, curar doenças antes de aparecerem.
Talvez também resolvam o problema da pobreza, criando abundância de energia e comida.
Dinheiro e saúde pra todos — algo que sempre pareceu utopia — pode virar apenas mais um produto da engenharia.

Mas então vem a pergunta inevitável:
e depois disso?

O dia em que ninguém mais precisar se vender pra viver

Se todas as necessidades forem resolvidas — se ninguém precisar correr, competir ou se prostituir pra sobreviver — o que vamos fazer com a liberdade?

A resposta é simples e, ao mesmo tempo, assustadora:
teremos que olhar pra dentro.
Sem desculpas.
Sem distrações.
Sem poder culpar o sistema, o governo ou o chefe.
O sofrimento externo pode acabar, mas o interno… esse ninguém terceiriza.

Porque o vazio não vem da falta de dinheiro, mas da falta de sentido.
E o sentido não se compra, não se baixa em app, não se imprime em impressora 3D.
O sentido se cria.

O ser humano depois da IA

Quando a sobrevivência deixar de ser o centro da vida, começará outra revolução — não tecnológica, mas de consciência.
A ciência e a espiritualidade, que sempre andaram em guerra, vão precisar conversar.
Talvez o próximo salto da humanidade não seja criar uma supermáquina, mas se tornar um ser humano inteiro.

Um ser que entenda que a matéria é informação, que o tempo aqui é relativo, e que viver é apenas uma forma de o universo se observar.
Um ser que use a tecnologia não pra fugir de si, mas pra se compreender melhor.

O futuro que vale a pena

O verdadeiro “pós-IA” não é o domínio das máquinas, mas o retorno da humanidade à própria consciência.
A tecnologia vai resolver os problemas externos — e então não teremos mais pra onde correr.
A partir daí, só restará uma pergunta:

“Agora que posso tudo… quem eu quero ser?”

Se chegarmos a esse ponto, talvez a IA tenha cumprido seu papel:
não o de nos substituir,
mas o de nos lembrar que o maior milagre da criação ainda somos nós.


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E não se esqueça: Sábado, nossa coluna “Escrever para Não Enlouquecer” fala sério — mas só porque o universo exige equilíbrio. Segunda a gente volta com humor para os dias difíceis.

Neemias Moretti Prudente é escritor, advogado, filósofo, professor e editor-chefe do Factótum Cultural.

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