Esquerda de lá, direita de cá, e o povo segue tomando no centro

No Brasil, a política é um eterno Fla-Flu: a gente briga na arquibancada, eles dividem o camarote — e no fim, quem paga o ingresso somos nós

Minha militância em 2022 começou bonita: era pela democracia. Bolsonaro, para mim, era um risco real — um antidemocrata que flertava com golpe, atacava instituições e queria transformar adversários em inimigos. Então lutei: escrevi textão na madrugada, organizei livro, fui pra rua, bloqueei no WhatsApp, bati boca no grupo da família e perdi vários zamigos. Votei contra ele, não porque Lula fosse a solução, mas porque era o único caminho para tirar o motorista retardado do volante.

E a ressaca foi rápida. Lula nunca foi santo, e eu sabia disso. Não votei nele por amor, mas por falta de opção. Ele até tenta fazer algo pelos mais vulneráveis, mas o PT joga o jogo de sempre: manter o poder, costurar alianças, proteger os seus. No fim, tudo se resume a status, poder, dinheiro, panelinhas e cargos. Quem continua se lascando? O povo, claro.

Foi aí que entendi: eu estava enxugando gelo. O mesmo enredo, diferentes atores. A polarização é o parque de diversões do sistema. Esquerda e direita são duas torcidas organizadas que se matam na porta do estádio, enquanto o dono da bilheteria conta a grana e ri da arquibancada. O “nós contra eles” é a cortina de fumaça perfeita para que nada mude de fato. Enquanto houver essa guerra, não surge terceira via (não um candidato, mas uma consciência coletiva), não surge reforma séria, não surge futuro.

E aí entra a filosofia econômica da coisa:

  • O Capitalismo é o melhor sistema que temos hoje, mas está doente. Doente de ganância, de desigualdade, de consumo sem alma. É uma máquina brilhante para gerar riqueza, mas péssima para distribuí-la.
  • O Comunismo, para mim, é uma bela ideia que nunca funcionou porque vai contra a própria natureza humana. Pessoas não são iguais em talentos, vontades, riscos que aceitam. Como dizia o Mozão Nietzsche, forçar igualdade gera ressentimento e poder concentrado — e aí o sistema implode.
  • O socialismo é a tentativa de equilibrar o jogo, mas sempre acaba corrompido por quem pega o poder e não quer largar.
    No final, todos os sistemas têm a mesma vocação: manter pouca gente no topo e muita gente na base. É a pirâmide eterna, só muda o logotipo. No fim, tudo farinha do mesmo saco — e nós somos o saco, tomando pancada de todos os lados.

E o mais perverso é isso: o sistema não quer que a consciência desperte. Ele precisa de gente cansada, endividada, dopada, brigando em rede social, dependente de antidepressivo para acordar e de Zolpidem para dormir, acreditando que a salvação virá nas próximas eleições. Mas quando você percebe a engrenagem, o jogo inteiro muda.

Você entende que a verdadeira revolução não é trocar um governante por outro, mas transformar a si mesmo.

Foi quando decidi parar de militar pelo “lado certo” e comecei a militar por mim. Troquei briga de zap por silêncio, noticiário por leitura, textão por meditação. Passei a investir no que posso mudar: minha mente, minha vida, minha paz. Porque a única bandeira que quero levantar agora é a de uma rede na varanda, com um café e um livro na mão.

Não é alienação — é estratégia. Parei de me matar por político que não sabe nem que eu existo. Porque, no fim, nenhum deles vai pagar meus boletos. Enquanto eles enriquecem no poder, eu continuo ralando para pagar a anuidade da OAB e a conta de luz. O povo também. Não deixei de me importar — continuo acreditando na democracia e no valor de instituições fortes – mas decidi direcionar minha energia para a única eleição que posso realmente vencer: a de mim comigo mesmo.

E agora eu rio do caos. Porque se é para viver no circo, pelo menos vou rir do palhaço — antes que ele seja reeleito.

A política só é o reflexo do que somos. A verdadeira revolução não é a próxima eleição, mas o próximo despertar. Porque um povo desperto não se divide — ele se transforma. E transforma o mundo junto.

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E não se esqueça: toda segunda, nossa coluna “Escrever para Não Enlouquecer” traz humor para os dias difíceis. Sábado a gente fala sério — mas só porque o universo exige equilíbrio.

Neemias Moretti Prudente é escritor, advogado, filósofo, professor e editor-chefe do Factótum Cultural. Se perdeu entre os livros, os filmes, os boletos e os rituais de Ayahuasca. Escreve para não enlouquecer — e às vezes enlouquece para escrever melhor.

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