Saúde mental e tecnologia

Como psicólogo clínico com foco em adultos desde o começo do ano de 1990, tenho acompanhado de perto o crescente impacto da tecnologia na experiência humana, especialmente na saúde mental. A convergência digital impulsiona avanços que redefinem nossa interação com o mundo, e a área da saúde não é exceção. Ferramentas que antecipam resultados sofisticados, aplicadas desde a programação genética até o auxílio ao diagnóstico, prometem otimizar a qualidade de vida.

Johnson et al. (2021) apontam a medicina de precisão e a inteligência artificial (IA) como elementos fundamentais no desenvolvimento da saúde personalizada. A análise genômica, em particular, demonstra um significativo potencial para identificar predisposições a um amplo espectro de patologias, tais como doenças metabólicas, disbiose, doenças autoimunes, infarto, depressão, obesidade, alcoolismo, estresse e câncer, possibilitando a implementação de estratégias preventivas. A integração da IA à velocidade das análises genômicas permite a elaboração de recomendações individualizadas para nutrição e bem-estar, representando um avanço relevante no campo da saúde.

No consultório, observo um aumento de pacientes que me procuram após passarem por avaliações mentais e emocionais mediadas por IA. Reconheço o potencial dessas ferramentas, mas defendo a importância fundamental do contato psicoterapêutico genuíno. A psicoterapia tem sido desafiada a se adaptar às mudanças trazidas pela saúde gerenciada e pela pesquisa baseada em evidências (LEES, 2016), buscando um equilíbrio coerente e viável. A confiança, a comunicação verbal e não verbal, os relatos e os silêncios carregados de significado são elementos cruciais que utilizo para interpretar experiências, auxiliar na ressignificação de traumas e reestruturar crenças limitantes, promovendo uma vida mais plena e em paz.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece o impacto positivo da IA na prestação de serviços de saúde em escala global. A tecnologia acelera e aumenta a precisão no diagnóstico e triagem de doenças, fortalece a pesquisa e apoia a vigilância e a gestão de sistemas de saúde. No entanto, a integração da tecnologia na experiência subjetiva humana, especialmente no suporte psicológico, suscita questões relevantes. Embora tecnologias avançadas possam oferecer algum nível de assistência emocional, a relação terapêutica que construo com meus pacientes continua sendo fundamental. A empatia, a intuição e a habilidade de entender o contexto único de cada pessoa são aspectos essenciais na prática clínica que a tecnologia ainda não consegue reproduzir. 

A Terapia Baseada em Processos (PBT), apresentada por Hofmann, Hayes e Lorscheid (2023), adota um modelo funcional de caso, possibilitando que a intervenção se adapte às demandas específicas de cada pessoa, ao invés de seguir um protocolo rígido fundamentado em um diagnóstico. Hofmann, Hayes e Lorscheid (2023) defendem que a PBT constitui uma alternativa significativa para as limitações dos modelos diagnósticos tradicionais, focando nos processos de mudança biopsicossociais em vez de aderir a protocolos rígidos para transtornos mentais.

Portanto, o impacto transformador da tecnologia é inegável em diversas áreas. Contudo, a complexidade da mente humana e a importância do cuidado personalizado em saúde mental exigem uma abordagem que equilibre a inovação tecnológica com a experiência e a sensibilidade humanas, garantindo que a tecnologia sirva como um complemento, e não como um substituto, ao cuidado genuíno.

REFERÊNCIAS

LEES, J. (ed.). The Future of Psychological Therapy: From Managed Care to Transformational Practice. Londres: Routledge, 2016.

JOHNSON, K. B. et al. Precision Medicine, AI, and the Future of Personalized Health Care. Clin Transl Sci, [s.l.], v. 14, n. 1, p. 86-93, jan. 2021.

HOFMANN, S. G.; HAYES, S. C.; LORSCHEID, D. N. Aprendendo a terapia baseada em processos: Treinamento de habilidades para a mudança psicológica na prática clínica. Porto Alegre: Artmed, 2023.

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Adriano Nicolau da Silva, Psicoterapeuta, Neuropsicopedagogo e Neuroeducador. Graduado em Psicologia e Filosofia. Especialista nas áreas de educação e clínica. Uberaba, MG. Colunista do Factótum Cultural. E-mail: adrins@terra.com.br

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