“A diferença entre um louco e um advogado criminalista é que o louco ao menos não precisa fingir que acredita na sanidade do mundo.”
— Inspirado por Charles Bukowski

Imagine Charles Bukowski, o velho safado, sentado atrás de uma mesa de fórmica num escritório de advocacia criminal qualquer, cercado por processos mofados, uma pilha de intimações não respondidas, bitucas de cigarro e, claro, uma garrafa de uísque quase vazia. O letreiro na porta seria sincero:

“Bukowski Advogados Associados — se der, a gente defende.”

Porque, sejamos honestos: se Bukowski fosse advogado criminal, ele não seria desses que saem em foto com o cliente após a absolvição, postando no Instagram uma frase de Nietzsche mal interpretada. Ele seria o advogado que manda o cliente calar a boca, manda o juiz catar coquinho mentalmente e escreve peças com mais palavrões do que artigos jurídicos.

A petição inicial: escrita num guardanapo, às 3 da manhã

Bukowski não usaria “Excelentíssimo Senhor Doutor Juiz de Direito”. Ele começaria a peça assim:

“Caro enrustido engravatado, aqui estou eu, mais uma vez, para defender outro infeliz que, assim como eu, caiu na armadilha desta sociedade hipócrita.”

As teses defensivas seriam escolhidas da mesma forma que escolhia mulheres: impulsivamente, sem critério, e já esperando o pior desfecho.

Se fosse réu confesso:

“Confessou porque é burro, excelência, não porque é culpado.”

Se fosse flagrante:

“Flagrante? Flagrante é o preço do uísque que eu paguei ontem à noite.”

E se fosse tráfico:

“Ora, quem aqui nunca vendeu alguma coisa para sobreviver? Uns vendem droga, outros vendem alma.”

A sustentação oral: uma performance etílica

Na tribuna, Bukowski não usaria beca. No máximo, uma camisa manchada de café e uísque. O juiz olharia torto, e ele devolveria com aquele olhar típico de quem está no tribunal só porque o bar ainda não abriu.

Começaria a sustentação mais ou menos assim:

“Senhores jurados, estamos aqui para decidir o futuro de um homem que cometeu um erro… como todos vocês já cometeram, mas tiveram a sorte de não serem pegos.”

E se fosse no júri:

“Se for para condenar todo mundo que já pensou em matar alguém, não sobra ninguém pra desligar a luz do fórum.”

No final, largaria o microfone como quem larga um cigarro: com desprezo e tédio. E sairia do tribunal antes da sentença, porque saberia que o resultado pouco depende dele — e muito mais do humor do juiz, do promotor e do acaso.

O relacionamento com os clientes: terapia ou cumplicidade?

Bukowski não chamaria o cliente de “constituinte”. Chamaria de “parceiro de infortúnio”. Não faria contratos de honorários com cláusulas mirabolantes. O preço seria claro:

“Me paga uma garrafa e eu penso no seu caso.”

Se o cliente dissesse: “Mas doutor, eu sou inocente!”
Ele responderia:
“Todos somos até alguém pagar pra provar o contrário.”

E quando o cliente insistisse: “O senhor acha que eu vou ser absolvido?”
Bukowski olharia, traria o copo à boca e responderia:
“Você tem tanta chance de ser absolvido quanto eu de parar de beber.”

A visão da justiça: um cabaré decadente

Para Bukowski, o Direito Penal seria o grande circo de horrores, um cabaré decadente onde palhaços engravatados fingem se importar com a moral e a justiça, enquanto, nos bastidores, vendem favores, negociam sentenças e tomam café requentado.

Ele diria:
“O tribunal não passa de um palco onde todos mentem: o réu, o juiz, o promotor e, claro, eu.”

E mais:
“A justiça não é cega. Ela enxerga muito bem quem tem dinheiro, sobrenome e quem não tem.”

No final, escreveria em sua máquina de escrever enferrujada:

“Defender culpados é fácil. Difícil é defender quem acredita na justiça.”

O pós-processo: ressaca, ironia e mais processos

Após cada audiência, Bukowski não iria comemorar no restaurante chique com o cliente absolvido. Iria para o boteco mais próximo, pediria o de sempre e refletiria:

“Mais um processo, mais uma ressaca. E amanhã, tudo igual.”

Enquanto os colegas postariam fotos felizes com as hashtags #JustiçaFeita #CriminalistaDeSucesso #AdvocaciaNãoPara #AdvocaciaporAmor, ele escreveria um poema num guardanapo:

“Ganhei? Perdi?
O juiz sorriu, o cliente chorou,
eu bebi.
Fim.”

Considerações finais: advocacia criminal como filosofia trágica

Se Bukowski fosse advogado criminalista, ele provaria que a defesa penal não é apenas uma função jurídica: é um modo de vida. Um exercício contínuo de resistência, de cinismo e de humor ácido diante de um sistema que, de tão absurdo, só pode ser suportado com ironia.

Ele mostraria que o advogado criminalista, no fundo, é como o poeta: um cronista do fracasso humano. Alguém que conhece as misérias mais profundas das pessoas e, ainda assim, levanta da cama todos os dias para tentar, entre um gole e outro, colocar um pouco de poesia no caos.

E, claro, ele encerraria com sua frase clássica:

“Enfim…
o cliente se lasque,
o sistema continua,
e eu?
Eu bebo.”

Se você leu até aqui e não riu… parabéns: você é juiz ou promotor.

Mas se riu — mesmo que só por dentro — então vai gostar do meu livro de Criminologia com Humor, onde sigo exatamente essa linha: rir para não enlouquecer diante do espetáculo tragicômico que é o sistema penal.

Bukowski me ensinou que não existe glamour na dor, nem heroísmo na queda — mas que a queda pode ser um ótimo lugar para observar o mundo e escrever sobre ele, com a coragem de quem não tem mais nada a perder.

Valeu, velho safado. Onde quer que esteja — num bar, num tribunal ou num poema — sua palavra ainda arde.


E se, no fundo, a advocacia — ou qualquer outra profissão — não for exatamente uma escolha, mas um sintoma? Sobre isso, escrevi outro artigo: Escolhi minha profissão ou ela me escolheu? A psicanálise responde


E não se esqueça: Toda segunda, nossa coluna “Escrever para Não Enlouquecer” traz humor para os dias difíceis. Sábado a gente fala sério — mas só porque o universo exige equilíbrio.


⚡ Neemias Moretti Prudente é escritor, advogado, filósofo, professor e editor-chefe do Factótum Cultural. Se perdeu entre os livros, os filmes, os boletos e os rituais de Ayahuasca. Escreve para não enlouquecer — e às vezes enlouquece para escrever melhor.

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