por Ana Daniele Holovaty

Ao me deparar com a dúvida em o que apresentar para a escola sobre o dia das mulheres, algo não sai da minha cabeça! Um conto de horror, um conto de terror. Um drama dos anos 1940, um caso de feminicídio, de abuso, de impunidade… de vozes que se calam diante de uma sociedade patriarcal com traços coronelistas. 

Em um grupo de notícias antigas referente às “Gêmeas do Iguaçu”, uma notícia nas páginas policiais de um jornal antigo local chama a minha atenção: O caso do assassinato da Zilda Santos, popularmente conhecida como a Santinha da Cidade, abre uma aura de drama e suspense com pitadas fortes da vida como ela é. O medo paira no ar de uma cidade pequena. As vozes não podem continuar silenciadas. A dor e o descaso com as minorias foram fatores marcantes do nosso passado e só conhecendo esse passado podemos idealizar um futuro melhor. 

Zilda Santos nasceu em 1935 e foi assassinada em 1948. Era uma menina muito bonita e chamava a atenção por onde passava. Estava na adolescência. Como toda adolescente, projetava sonhos e passava por momentos de crescimento hormonal. Se apaixonou por um membro da elite, e este, como muitos outros homens, infelizmente pensou em tirar vantagem da situação. Assim acontecia e acontece com a vida das mulheres na adolescência: exige- se da menina, ainda criança, um comportamento responsável, uma atitude de mulher, mas na hora que os hormônios afloram não admitem que o sexo feminino seja portador de desejo, pois para a sociedade patriarcal só o homem tem essa necessidade biológica. De forma ingênua, Ilza caiu em tentação. Pessoas mal intencionadas: pedófilos da época se aproveitaram da inocência infantil e ela passou por um verdadeiro calvário. Na atualidade sair com uma menina de treze anos é crime. Na época era algo natural. Entretanto, nossa sociedade ainda carrega traços ultrapassados, pois sexualiza as mulheres desde a infância, romantiza a ideia do trabalho doméstico prestado pelas meninas e infantiliza a mulher, quando exige determinados padrões estéticos: rosto angelical, ausência de pelos, delicadeza, etc. A mulher madura assusta o padrão “heterotop”, aquele que espelha na mulher uma criança visando a submissão da mesma. 

Abuso, assédio. Como isso é normalizado??? Quantas de nós não nos sentimos mal quando homens nos assediam? Quantas se calaram! Quantas sofreram violência física!!! Quantas sofreram violência psicológica!! Quantas foram torturadas! Quantas foram mortas! Mortas por algo que começou de forma “tão natural”. Como no caso referido… Logo, quando naturaliza-se uma atitude incorreta, o aval é certeiro para que atitudes piores aconteçam. 

Outra característica que é importante ressaltar sobre esse caso é a impunidade em relação a quem cometeu esse crime. O crime de Zilda Santos ficou famoso na época, porém os envolvidos pertenciam à elite local e ninguém foi preso. As provas sumiram, as testemunhas foram silenciadas, pessoas morreram como “queima de arquivos” e, por fim, o processo prescreveu. Até mesmo uma “rádio novela” foi gravada com o intuito de retratar o caso. 

Lulu Augusto, mulher importante das “Gêmeas do Iguaçu”, levantou essa bandeira ao escrever a radionovela sobre o “Crime do Iguaçu”, assim como era conhecido. Foi ameaçada em ser presa por cogitar uma possível revelação dos nomes dos assassinos no último capítulo da radionovela. Sua produção, seu elenco e a rádio foram censuradas, fazendo com que seu pai, Dídio Augusto, se comovesse e tentasse publicar a situação no jornal ao qual era colaborador: o Comércio. Com medo de represálias, o jornal não permitiu manifestações sobre esse crime, fator fundamental para a criação do jornal Caiçara por parte de Lulu e de seu pai. Lulu Augusto era uma feminista convicta que teve como parte de sua carreira jornalística esse caso de feminícidio. Sua voz tentou ser calada pelo patriarcado, pela elite, por quem, no fundo, abomina o sexo feminino. 

Muitos se assustam com tamanha violência do crime do Iguaçu mas encaram com normalidade quando uma mulher é exposta ou sofre violência. Praticamente todas as semanas os jornais locais lotam as páginas policiais com notícias que acabam depreciando as mulheres, pois ninguém gosta de apanhar, ou ser torturada, e humilhada. Esse papel é exercido por uma imprensa sensacionalista que representa uma grande parcela de machos. Felizmente nem todos pensam da mesma maneira. 

A esperança de consciência social coletiva existe, principalmente quando as vozes femininas não são silenciadas. As vozes de quem sofre e as vozes de quem representa esse sofrimento, de quem tem empatia pela luta! Mergulhar nessa história e trazer a tona, bem como fez Mariana Honesko Bortolini, serve como meio de unir forças para que atos como esse não aconteçam mais. É um grito feminino em meio ao cotidiano machista existente! 

Ao saber desse acontecimento, diante de cada capítulo dessa história, vamos identificando várias Zildas pelo caminho… Que foram silenciadas… Compartilhando esse passado em comum criamos uma identidade que se levanta em direção à frase mais famosa de Simone de Beauvoir: 

“Ninguém nasce mulher: torna-se mulher.” 

Ou como cita Elza Soares, em sua canção “O que se cala”: 

Mil nações moldaram minha cara 

Minha voz uso pra dizer o que se cala 

Ser feliz no vão, no triz, é força que me embala 

O meu país é meu lugar de fala 

Mil nações moldaram minha cara 

Minha voz uso pra dizer o que se cala 

Ser feliz no vão, no triz, é força que me embala 

O meu país é meu lugar de fala

Referências

BEAUVOIR, S. O Segundo Sexo Vol 2: A Experiência Vivida, Difusão Européia do Livro, 1980. 

BORTOLINI, Mariane Konesko. Zilda. O Assassinato da Santinha. Uniuv, 2018.

Ana Daniele Holovaty. Pós – Graduação em História e Sociedade pela UNESPAR.  

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