
Virou expressão popular. O termo “fake news” permeia o debate público, a roda de conversa com os amigos, o grupo do trabalho no WhatsApp, o almoço de família. E nosso encontro semanal aqui na newsletter.
Destaco o Primeiro equívoco sobre o tema: confundir fake news com uma simples mentira.
Inventam-se coisas há milênios.
Há grafites caluniosos nas ruínas de Pompeia.
Minha geração acompanhou uma das mais célebres falcatruas lançadas contra uma personagem famosa: a insinuação de Carlos Imperial sobre um uso indevido de uma cenoura. Era pura vingança de alguém destituído de escrúpulos.
Caluniar pessoas, inventar situações, e utilizar a voz, a escrita e até imagens como ferramentas para tecer uma trama urdida de maldades e sem compromisso com o real é um traço permanente da história.
Fake news vão além da simples mentira.
O campo das notícias falsas se situa na ideia de persuasão e propaganda. Logo, distante da zona da verdade baseada em argumentos ponderáveis.
Há duas maneiras de garantir o não acesso de uma pessoa à boa informação crítica:
1- Recurso clássico de ditaduras, como a da Coreia do Norte e a de Cuba: impedir o contraditório e barrar quaisquer fatos que divirjam da versão oficial. Controla-se a opinião pela escassez e seleção de dados.
2- Abundante em democracias: afogar o cidadão em informações e contradições, a ponto de ninguém ser capaz de distinguir o falso do verdadeiro.O Brasil abusa desse segundo modelo.
Aqui, funciona o processo de açodamento informativo sobre o internauta desavisado: embaralha-se o critério objetivo usado para checar os fatos que, no fundo, todos os elementos são relativizados e se chega ao patamar de achar que qualquer discussão seja fruto exclusivo do direito que tenho à opinião.
Exclui-se a busca equilibrada de fatos.
Vamos a um caso mais delicado da nossa história para apurar uma notícia falsa:
Quando nasceu a imprensa brasileira formal, em 1808, os impressos tinham uma posição clara e anterior a tudo.
A Gazeta do Rio de Janeiro, por exemplo, dirigida por Frei Tibúrcio José da Rocha, tinha como objeto claro a divulgação favorável das ações da Corte Portuguesa recém-instalada na capital da colônia.
Já a oposição se pronunciava do exterior, pois o exilado Hipólito José da Costa enviava, de Londres, seu Correio Braziliense.
Tudo que era positivo na Gazeta era negativo no Correio.
A posição era absolutamente parcial nos dois veículos e um bom leitor talvez devesse ler ambos para conseguir formar uma posição mais sólida.
O desafio é válido até hoje.
Encontrar o verdadeiro é contrapor dois polos? Se eu ler uma revista de direita e depois uma de esquerda, eu encontrarei a verdade do centro?
Como sempre, a resposta não é tão fácil, pois, se a dita verdade raramente aparece em zero ou dez, não significa que ela brilhe em cinco.
Eu disse que era um fato delicado.
A imprensa declaradamente partidária e oficial saiu de moda no Brasil. A neutralidade passou a ser uma meta. Surge uma nova forma, sempre desejável para garantir a objetividade: o outro lado.
Para o historiador, nunca existe neutralidade. Porém, há redatores mais e menos honestos. O Baudolino, de Umberto Eco, mostra um redator desonesto. Seu conselho era mentir muito para ser acreditado.
O leitor de 1808 tinha menos trabalho para seu exercício em busca da verdade, bastava retirar a capa do diário da Corte ou da oposição.
O leitor de 2022 recebe um desafio imensamente maior. Como se dizia na República Velha, a verdade eleitoral parecia ser uma mulher nua desejável, mas que deveria estar coberta.
Em plena “era da liberdade e da informação”, a liberdade experimenta burcas ideológicas.
Já dizia Joseph Goebbels, ministro da propaganda nazista: “Uma mentira dita mil vezes torna-se verdade”.
As estratégias e os ideais nazistas durante a ditadura de Hitler foram veiculados pelo rádio, um importante meio de comunicação da época.
Hoje, mais de 80 anos depois, a mentira está na internet.
Os tempos digitais nos trouxeram, além da flexibilidade, informações complexas, voláteis e não-lineares.
As fake news estão, mais do que nunca, em nosso cotidiano – real ou virtual.
Escapar delas consiste em uma tarefa desafiadora. Na verdade, é quase impossível.
Então, como é possível sobreviver às mentiras ditas na internet? Duvidar e questionar tudo que vemos é uma solução?
#RecadoDaEquipeK
Para fechar a terceira temporada do Universo Karnal, o professor Leandro Karnal debate sobre esse tema atual e necessário (especialmente neste período eleitoral).
Karnal mergulha no universo das fake news com a ajuda de profissionais especializados na manipulação de imagens e sons.
E mais: ele também conversa com o jornalista e comentarista Boris Casoy, que apresenta estratégias para não ser seduzido pelas fake news.

Sábado, 20/08, às 23h
Na CNN, pela TV, ou pelo YouTube da CNN Soft.
Um grande abraço e uma ótima semana!
LK e Equipe K.






Deixe um comentário