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Novo filme da Netflix utiliza a filosofia de Zygmunt Bauman para explicar o amor na época das relações líquidas

por Giangarlo Galdino

O amor, o verdadeiro amor deveria resistir a tudo. Nenhum sentimento desperta tanta altercação como a mais humana das emoções, do princípio, sempre envolto em circunstâncias que fazem os amantes mergulhar numa felicidade que irradia, ao fim, melancólico no mais das vezes, mas também libertador, a depender do que fizeram dele aqueles que amavam e, por uma ou outra razão, o perderam. Vinicius de Moraes (1913-1980) definiu à perfeição a natureza perniciosa do amor. Em seu Soneto de Fidelidade, escrito numa viagem do Poetinha a Portugal em 1939 e publicado sete anos depois em “Poemas, Sonetos e Baladas”, Vinicius definia a impossibilidade de um amor eterno, uma vez que a chama que o mantém vivo, como toda chama, logo se apaga. Já Nelson Rodrigues (1912-1980), sempre dramático, sempre peremptório, alardeava que se o amor morre, é porque jamais foi amor. A despeito da ideia que mais se coadune com a visão de mundo do freguês, a verdade é que para se amar é preciso ser, antes de qualquer outra coisa, maduro — e aí cabe outra vez chamar Nelson e aconselhar que os jovens envelheçam depressa e, assim, amem, amem à mancheia. Amar só depois dos trinta, com firma reconhecida em cartório, eis a solução para boa medida da amargura do viver.

Talvez seja por isso que o romance de dois adolescentes moderninhos acabe de um jeito tão sombrio e vá cada um cuidar da própria vida, quando poderiam seguir juntos. O diretor Michael Lewen aproveita a premissa do amor como um desencontro sem fim para fazer de “Olá, Adeus e Tudo Mais” (2022) uma crônica das relações líquidas, conceito também explorado por filósofos do mundo contemporâneo a exemplo do polonês Zygmunt Bauman (1925-2017). Adaptado do romance de Jennifer E. Smith, o filme de Lewen cumpre com o objetivo de capturar seu público-alvo e consegue ir além da mera exposição dos típicos conflitos juvenis de dois personagens encurralados entre as obrigações da vida adulta que se avizinha e a vontade de não permitir que aquela chama de que fala Vinicius morra antes de arder — como se uma coisa precisasse, necessariamente, de invalidar a outra.

Clare, vivida por Talia Ryder, fez do último ano do ensino médio a válvula de escape que lhe permitiu sobreviver ao divórcio recente dos pais, mas não saiu tão ilesa da experiência quanto supõe. Sua dedicação paranoica aos estudos a fez imaginar que poderia tratar todos os outros assuntos da vida com o mesmo frio pragmatismo, e daí a surge a ideia de não rejeitar possíveis namorados, desde que o relacionamento não excedesse dez meses, prazo final até que esse primeiro ciclo de sua vida acadêmica de feche e vá, afinal, para sua tão sonhada faculdade. Aidan, de Jordan Fisher, parece ser o único disposto a embarcar na canoa furada da colega, e os dois começam a ter bons momentos juntos — o roteiro de Amy Reed e Ben York Jones não reserva aos pombinhos nenhuma cena de sexo, a despeito de Ryder e Fisher já serem maiores de idade há algum tempo. Claro que algum pequeno abalo sísmico haveria de balançar a tendência de tudo se encaminhar como ouro sobre azul, ou do contrário não existiria nada a ser contado.

O argumento é falacioso desde a origem. Não há nenhum meio de se chegar a bom termo a partir do plano encampado pelos dois: se escolhem viver uma relação em comum, o fazem porque tem afinidades, e daí é razoavelmente lógico que se apaixonem. Tamanha platitude parece não ocorrer a Lewen e, mais grave, a Smith, que apresentam o casal de protagonistas como ingênuos patológicos à mercê das próprias ilusões. O que se depreende do argumento central de “Olá, Adeus e Tudo Mais” é uma espécie de autossabotagem de gente perigosamente mal resolvida, conclusão a que se chega pelo próprio título. O que quererá dizer esse “tudo mais” do final? Refere-se ao “olá” ou ao “adeus”? O desfecho da história, acintosamente obscuro, ressalta a indefinição das figuras de Clare e Aidan, o que não deixa de ser um sintoma de seu pouco caso com os sentimentos um do outro. Nisso, o enredo é de uma coerência enternecedora.

Nesse espaço, já explicitei algumas vezes minha opinião quanto a certo gênero de “literatura”, em especial a que se destina ao mercado infanto-juvenil e a que se intitula feminina, como se hoje, na terceira década do século 21, fosse possível tratar as mulheres como um público diverso, com interesses tão discrepantes dos assuntos que nos movem os homens. Pelo retorno que me chega, verifico que 99,9% das mulheres concordam comigo, o que não se aplica aos adolescentes, uma faixa que se flexibiliza sem critério de tempos em tempos. Esses meninos e meninas seguem um mistério para mim, um adolescente curioso e inconformado quase ao devaneio quarto de século atrás, o que me conduz ao raciocínio de que, talvez, a maioria deles seja muito mais inteligente do que os livros e filmes que se lhes devotam; o problema é que, hoje, o acesso ao sublime, ao esteticamente ousado, ao genial, se dá na mesma medida que ao vulgar, ao desmazeladamente feio e ao tolo. Falta-lhes, por evidente, repertório para separar o joio do trigo — e isso só se tem acatando-se o conselho do Anjo Pornográfico.


Filme: Olá, Adeus e Tudo Mais
Direção: Michael Lewen
Ano: 2022
Gêneros: Drama/Romance
Nota: 7/10

Bula. 7.7.2022.

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