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Precisamos nos salvar todos os dias

por Liliam Beatris Kingerski

“Temos um mundo cheio de mulheres que  não conseguem

 respirar livremente porque estão condicionadas demais

 a assumir formas que agradem aos outros.”[1]

Muitas vezes evitamos escrever sobre o que nos angustia…

Na verdade, enquanto mulheres, somos educadas desde crianças a negar o que sentimos…estranho…quando somos consideradas os seres mais sentimentais e frágeis que existem.

Por vezes temos que ser fortes e aguentar tudo…somos consideradas a base, o alicerce de nossos lares. Mas se um relacionamento não deu certo…a culpa é nossa! Ainda assim, é mais comum ver uma mulher chorar, afinal…homens não choram!

Conversar com mulheres, me faz ver o quanto o mundo ainda é machista e o quanto ainda temos que ser como ele nos molda. Parece que nunca poderemos ser nós mesmas…chorar e gritar … e se fazemos isso, somos consideradas loucas.

Quantas de nós somos o que a sociedade deseja? Quando poderemos ser  nós mesmas?

E eu  aqui, numa noite em que poderia estar me divertindo, tomando uma cerveja e rindo com os amigos…

E eu aqui…agarrada a um dos poucos momentos em que posso ser eu…no silêncio a escrever este texto!

Hoje a tarde, em uma roda de conversas no encontro do Leia Mulheres[2], coletivo do qual participam mulheres com o objetivo ler escritos de mulheres e de nos fortalecer/acolher juntas, falávamos de relacionamentos abusivos…e surgiu a questão, afinal, se pudéssemos mudar algo no passado, o que mudaríamos?

Penso no passado, e enquanto ser humano, posso dizer, errei muito, errei ao não falar, ao não brigar, não abraçar, por não admitir erros, errei por não pedir desculpas …errei por não fazer.

A nossa educação nos impõe:  não se exalte, não chore, não fale…e continuemos a errar…não podemos guardar os sentimentos com a gente…posso dizer, assim como tantas, que muitas vezes, aguentei em silêncio.

Relendo as cartas de amor de um relacionamento que tive, relembrei do quanto era amada e querida e do quanto o nosso amor era “para sempre”, mas como diz uma música que um dia escutei: o pra sempre, sempre acaba!

Crescemos acreditando nos contos de fadas que escutamos quando crianças, acreditando que um homem irá nos salvar! Esquecemos que os contos de fadas nem sempre são reais…quando um relacionamento não dá certo, logo alguém nos diz: tudo vai melhorar, logo você arranja outro!

Como podemos pensar que alguém irá nos salvar, se não nos salvarmos a nós mesmas?!

Por que precisamos de um homem para isso sempre?

Aprendi com o passar do tempo, que precisamos nos gostar, precisamos nos apaixonar por nós mesmas, precisamos nos amar!

Do contrário, sempre seremos princesas à espera de um príncipe, à espera de casamentos  com finais felizes, onde os problemas não existem, onde os finais sejam sempre belos, e a tristeza não habita, e nunca seremos o que queremos, pois nunca estamos satisfeitas.

Aos poucos temos que descobrir sozinhas quem somos e as coisas que gostamos, afinal, muitas vezes nos enxergamos nos gostos dos outros e não os possuímos.

E eu estou nesse processo, todos os dias descobrindo novos gostos, tão meus…

Lutemos juntas por um mundo melhor, onde não tenhamos vergonha de demonstrar o que sentimos, e isso vale para as mulheres e para os homens…e que nossas filhas sejam mais livres, que não precisem ser que não são para estar num relacionamento, ou para agradar pessoas, e que não precisemos achar que temos que curar alguém a não ser nós mesmas.

Segundo bell hooks: “Amor próprio começa com aquele balanço corajoso em que você vai até os sótãos e armários de si mesmo e vê o que está lá.”[3]

conclusão: se eu tivesse mudado algo, talvez não teria sido tão difícil, mas não seria quem sou!


[1] ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Para Educar Crianças Feministas. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

[2] O “Círculo de Cultura: Leia Mulheres” é uma ação do Programa de Extensão Coletivo Paulo Freire desde 2020 e nasceu em 2017 no âmbito do Projeto de Extensão TEAR-  Tecendo Estudos e Ações em Rede pela Vida das Mulheres – TEAR, coordenado pela Prof.ª Giselle Moura Schnorr, do Colegiado de Filosofia da Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR), Campus de União da Vitória.  Objetiva dar visibilidade aos escritos de mulheres de distintos períodos históricos, de diferentes culturas e de distintas áreas de conhecimento por meio da metodologia da  educação popular feminista.

[3] hooks, bell. Tudo sobre o amor. Editora Elefante, 2021.

Liliam Beatris Kingerski é professora de filosofia. Graduada em Filosofia, História e Sociologia, com pós-graduação em Política e Sociedade, História e Sociedade. Mestranda do programa PROF-FILO da UNESPAR. Pesquisadora da Filosofia Feminista, apaixonada por escritas de mulheres e Filosofia. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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