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Foucault: um filósofo que sacode as evidências para aprendermos a olhar de outro modo o visível

 por Karine Bueno Costa

“Somos bem menos gregos que pensamos. Não estamos nem nas arquibancadas nem no palco, mas na máquina panóptica, investidos por seus efeitos de poder que nós mesmos renovamos, pois somos suas engrenagens” –  M.  Foucault.

“É preciso tornar visível o que é visível” –  M. Foucault.

Minha relação  com a leitura de Michel  Foucault é antiga, começou no primeiro ano de graduação em Letras (2006), quando, em um congresso,  assisti a uma explanação sobre Análise do Discurso, o que me interessou muito, especialmente, pela ótica apresentada da genealogia da loucura, pois estava lendo Don Quijote de la Mancha e a “loucura” quixoteana me fascinava, aliás,  me fascina até hoje, pois os “dragões podem ser moinhos de vento”, basta aprender olhar metaforicamente: ver o visível.

A partir disso,   iniciei a leitura de Foucault, com Vigiar e punir: Nascimento da prisão. O que me fez pensar que não há nada de humanista nesse sistema, porque mudar do suplício público para as prisões,  na visão do filósofo, só foi mais uma paixão dos reformistas, sem nenhuma visão humanitária, pelo contrário, para anormalizar o delinquente. No decorrer da história, no início do século XXI, isso fica claríssimo, principalmente em sociedades subdesenvolvidas como a nossa, em que as cadeias se tornaram “escolas do crime”, local de exclusão e segregação racial, por mais que seja o século que se diz “defensor direitos humanos”, é o que mais produz violência e criminalidade – a recente  série cinematográfica brasileira “Irmandade” deflaga isso – sustentadas por um sitema que, no papel, tem o objetivo de ressocializar o indivíduo e reitengrá-lo à sociedade.

Posteriormente, mergulhei em As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas, um livro fundamental a qualquer pessoa  das humanidades, tanto para se deleitar com o rigor linguístico, quanto para entender o homem como uma invenção moderna e que o poder não se exerce apenas por meio de aparelhos repressivos e coercitivos, mas que se exerce por meio dos discursos, entre as palavras e as coisas: “o comando discursivo é a voz do poder; e o silêncio, o signo da obediência: consentida ou imposta”. Desse modo, Foucault nos convida a olhar de outro modo, ver o que está fora, ressignificar, pensar outros modos de ser e  sacudir as evidências.

 Assim como faz no início de As palavras e as coisas, ao fazer uma  análise do quadro de Diego Velázquez, de 1656,  “ Las meninas”, em que o olhar do pintor, autorretratado na tela, nos fita, como se fôssemos os espectadores do entorno e os próprios retratados, no entanto, deflagrados pelo espelho ao fundo, como um casal, rei e rainha da espanha:  Filipe IV da Espanha e Mariana de Áustria. Uma obra genial do pintor espanhol, que na metalinguagem imagética coloca em xeque questões cruciais ao homem moderno, o qual precisa com urgência aprender a desaprender o que foi lhe imposto pelo discurso e construção historiográfica como verdade, para que possa ser o que realmente é.

Observa-se, na pintura,  que Velasquez está fitando os governantes, os que estão fora e refletidos no espelho, posicionados exatamente onde estão também sempre os  espectadores da tela, pois segundo Foucault, os sujeitos modernos também são governantes de si, e que possuem escolha de governar a si mesmo de modo ético e temperante.

Recentemente, estudando novamente Foucault, em uma disciplina de mestrado, intitulada “A relação Ética- Estética na filosofia foucaultiana”, passei a notar o quanto a visão de Foucault é imprescindível para uma vida mais filosófica, ou para ter a filosofia como um  modo de vida. A historiadora Margareth Rago, em debate para Café Filosófico, intitulado   Foucault: A filosofia como modo de vida, expõe que Michel Foucault viu o século XX organizado em torno de sólidas instituições sociais, com intuito de manter a ordem, mas que afetaram  também a constituição de quem somos e do que rege o nosso modo de viver.

Para a historiadora, Foucault colocou em debate verdades até então inquestionáveis, no campo da justiça, do saber médico, das regras de conduta sexual, pois ele vê a filosofia como um modo de vida, onde “estéticas da existência” visam à constituição de subjetividades éticas, a partir das práticas da liberdade e das contracondutas em direção a uma vida não-fascista. Nesse sentido, uma filosofia que visa à transformação e “sacudir as evidências”: “tornar visível o que é visível”.

Quando Foucault se refere ao facismo, não analisa apenas o de Hitler ou Mussolini, nos patamares mais cruéis, desumanos e grotescos da nossa história, mas o facismo que  nos faz gostar do poder, desse poder que nos domina e explora, desde as pequenas coisas. Na visão foucaultiana, por meio das relações de poder, nós somos constituídos por técnicas de poder e nós também nos constituímos, ou seja, apresenta-se  uma nova relação do sujeito, alguém que também tem poder de escolha e que precisa pensar como o poder nos constitui. Assim, o poder, para o francês, não atua sob a consciência apenas, mas age sob o corpo.  E, ao fazer uma genealogia do sujeito moderno, analisando historicamente a constituição do sujeito do século XX, o filósofo ampliou os horizontes do pensamento, incluindo dimensões do campo da história, da ciência, da psiquiatria, das prisões, mostrando que o poder limita e, assim, faz uma analítica do poder e  apresenta-o  em algumas tipologias: Poder Disciplinar;  Biopoder; Biopolítica; Governamentalidade.

Dessa forma, por meio de mecanismos de controle, a sociedade impõe normas de conduta, as quais são constituídas socialmente em conjunto. Mas, para que o sujeito aceite essas regras é preciso que tenha a ilusão de que é livre,  nesse sentido, há um sujeito que se sente livre, mesmo que não seja.  Por isso Margareth Rago enfatiza a síntese do pensamento do filósofo francês:  “O poder deve ser analisado como algo que circula, em cadeia, porque o  poder transita entre os indivíduos e não se aplica a  eles”. Ou seja, não é só questão coletiva, mas individual também, que incluem as macroestruturas e além disso retoma a questão da subjetividade, não mais como o indivíduo sujeito somente  às práticas coercitivas, mas no âmbito das práticas de si e de liberdade, como subjetivação e não sujeição, ou seja,  capaz de tomar decisões de poder também.

No entanto, deve ter um meio de ser sujeito sem ser assujeitado. E como escapar disso? Para Foucault, a resposta a esse questionamento está  no conhecimento e  cuidar de si, a partir de práticas de liberdade, de lutas contra a ideia de custo benefício, imposta pela visão neoliberal. Nesse viés,  para Rogo,  é preciso lutar contra a ideia neoliberalista de que é preciso ser empresário de si, de domínio e narcisismo. Para Foucault, o cuidado de si é uma prática filosófica, ou seja, uma estética da existência. Como cuidar então de si e ser livre? Por meio de exercícios espirituais, meditação, dieta, escrita de si, retiro, exercícios físicos e amizade, a qual o fortaleça e ajude a cuidar de si, na escultura de si e trabalho de si.  Uma forma  que ajuda a sair da estultícia para sapiência. Ao contrário do Cristianismo que nega a si, o filósofo retoma aos gregos que tinham por objetivo a subjetivação, com a militância da parresia: coragem da verdade. Em suma, para Foucault, o intelectual deve ser assim, aquele que sacode as evidências, que faz ver o que está fora, aquele que desfamiliariza o olhar e denuncia as formas de poder, sem se apaixonar pelas formas de poder.

Ademais, Rogo salienta que o mundo só conseguirá se transfigurar  à custa de mudança e, se o  mundo não se encontrar consigo mesmo, não conseguirá ser outro e mudar, por isso a ética e o pensamento crítico são formas de resistência ao poder avassalador que se constitui socialmente. Portanto, é preciso sacudir as evidências e ver o que está além do que nos determina a ser e agir no mundo, por isso a filosofia de Michel foucault é fundamental, porque sacode as evidências e é uma filosofia de liberdade, não facista e que  mostra possibilidades de outros modos de ser e de aceitar as coisas como realmente elas são, sem normas de conduta do e para o outro, ou seja, é preciso ver de outro modo, “tornar visível o que é visível”, metaforicamente, transformar moinhos de vento em dragões, ser quixoteano, viver de “quixoteria”, viver sua verdade.

REFERÊNCIAS

FOUCAULT, M. As palavras e as coisas : uma arqueologia das ciências humanas. tradução Salma Tannus Muchail. 8ª ed. São Paulo : Martins Fontes, 1999.

______. Polêmica, política, problematização. In: Foucault, M. Ditos e escritos V: ética, sexualidade, política. Org.: Manoel Barros da Mota. Rio de Janeiro: Forense Universitária.
p. 227

______. Vigiar e Punir: nascimento das prisões. Petrópolis: Editora Vozes, 1987.

Rago, M. Café Filosófico. Foucault: a filosofia como modo de vida | Por Margareth Rago. Disponível em: (73) Foucault: a filosofia como modo de vida | Margareth Rago – YouTube

Karine Bueno Costa, Professora de produção textual no Colégio São José-PU. Graduada em Letras: Português/Espanhol. Pós-graduada em Língua Portuguesa e Literatura. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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