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“Bruaca”, “Reiva”, “Currutela” e mais: entenda qual é o significado de algumas das palavras mais usadas na novela Pantanal

por Neemias Moretti Prudente

Quem acompanha a novela Pantanal, no ar em horário nobre na Globo, fica confuso ao se deparar com tantos termos regionais.

São palavras que fazem parte do vocabulário dos personagens e dos pantaneiros. Embora algumas tenham um significado claro, outras são bem diferentes. Grande parte é derivada do texto original da trama, de 1990 (Rede Manchete).

Nas redes sociais, já há quem diga que vai adotar para vida o vocabulário usado na novela. Como um bom goiano, eu já utilizo faz um bom tempo.

Para ficar por dentro, entenda o significado dos termos usados em Pantanal.

Bruaca

Expressão pejorativa, é usada para ofender a aparência e/ou a personalidade de uma mulher. Pode sinificar mulher feia, velha, bruxa ou meretriz.

É o modo como Tenório chama a esposa “Maria Bruaca”.

Reiva

A expressão “reiva” nada mais é do que raiva.

Sempre que alguém pergunta se é verdade que ela (Juma) vira onça, ela explica: “Só quando eu tô com reiva”.

Marruá

Diferente do que muitos acreditam, marruá não é uma raça de boi. Na verdade, o termo significa “boi bravo”.

A palavra é usada para caracterizar bois agressivos, alongados, que ainda não passaram por doma (ou desgarraram do rebanho) e são considerados selvagens.

Na novela, foi o apelido dado a personagem Juliana Paes, a Maria Marruá, por conta de sua personalidade arredia. Juma também recebeu a alcunha.

Cramulhão

É o famoso diabo, demônio, satanás, belzebu, coisa-ruim, chifrudo, pé-de-bode, cão, anjo caído, lúcifer, satã, demo, sete-peles, tinhoso, capiroto – entre outros nomes.

Não obstante, o termo cramulhão ou cramunhão surgiu de uma lenda antiga. É basicamente o Diabo “criado” em uma garrafa. De acordo com a história, acontece quando uma pessoa aceita fazer um pacto com diabo. Em troca de algo (riqueza, habilidade ou proteção, por exemplo), começa a criar o demônio em uma garrafa. Após o “acordo”, a pessoa precisa de um ovo de galinha que será encantado e vai nascer um diabinho de 20 cm. Esse ovo é fecundado pelo diabo e a figura deve ser mantida dentro de uma garrafa de vidro, tapada com uma rolha. Segundo a lenda, o pacto deve ser realizado durante a quaresma e o diabinho nasce em cerca de 40 dias. Ao longo da vida, a pessoa que fez o trato com o capeta consegue alcançar seu pedido, mas depois que morre é mandada para o inferno. 

No caso da novela, o cramulhão é o melhor amigo de Xéreu Trindade, que tem um pacto com o dito cujo – sua viola é encantada, além disso, ele tem visões, ouve vozes e incorpora o espírito do tinhoso.

Chalana

É uma embarcação de fundo plano (chato), utilizada para transportar pessoas e mercadorias. É comum na região pantaneira, cercada por rios. Quem a conduz recebe o nome de chalaneiro.

Na novela, Eugênio é o chalaneiro oficial do pedaço.

Alforge

É um tipo de bolsa, dividida em dois compartimentos, conhecida como “mala de garupa”, usada para carregar itens sobre o cavalo (ou ombro). Presentemente, este acessório também tem sido utilizado em bicicletas ou motocicletas, presos ao assento, em moldes análogos àqueles em que seria levado numa comitiva.

Quando deixou pela primeira vez o Pantanal rumo ao Rio de Janeiro, José Leôncio queria encher o alforge com o que lhe era de direito (no caso, dinheiro – ao cobrar uma dívida de bois).

Currutela

Sinônimo de bordel, zona, prostíbulo, casa das damas, casa de prostituição, casa da luz vermelha, entre outros, a palavra serve para nomear um estabelecimento (casas e vilas) em que peões (ou garimpeiros) se reunem para se divertir após o trabalho. Por lá, mulheres oferecem favores sexuais em troca de dinheiro. Sendo assim, uma mulher de currutela é relativo a uma prostituta.

Em locais do interior do país, como é o caso do Pantanal e Goiás, onde há peões e garimpeiros, as currutelas ficam localizadas à beira de estradas, fora das cidades.

Foi em um dessas casas que Josê Leôncio, ainda na juventude, conheceu Generosa, e perdeu a virgindade com ela (o ato acabou gerando o filho primogênito José Lucas de Nada). Além disso, foi numa dessas que ele também conheceu Filó.

Portanto, se receber um convite para visitar uma currutela, não deixe de ir!

Flozô

A expressão deriva da palavra “flor”. Diz-se de um homem muito sensível, delicado, afeminado. É uma forma pejorativa dada aos homossexuais (gays).

Na novela, a palavra já foi dita por peões, como Alcides e Tenório, que questionaram a sexualidade de Jove depois que o filho de Zé Leôncio chegou no Pantanal.

Parecença

O jeitinho panteneiro de dizer “parecença”. O sentido é o mesmo que o do termo original – significa semelhança (que se parece com alguém ou com algo).

A pronúncia ganhou destaque na novela quando Josê Leôncio ficou chocado com a “parecença” entre José Lucas de Nada e o seu pai, Joventino.

Tapera

É uma casa velha e mal cuidada, ou em ruínas, por vezes abandonada, e geralmente localizada em zonas rurais.

É como o núcleo pantaneiro se refere à casa de Juma.

Comitiva

É um grupo de peões que leva o gado de um lugar para outro.

Numa comitiva há várias funções: Ponteiro (é aquele que abre o caminho, o primeiro peão da comitiva – é também quem geralmente toca o berrante), Meeiros (que ficam do lado para não deixar o gado abrir), Culatra (que fica na parte de trás, que também cuida para o gado não escapar) e o Chefe da comitiva (que fica cuidando do gado e do caminho).

É em comitiva que Josê Leôncio foi criado pelo pai Joventino, que era um peão de comitiva.

Guaiaca

É um cinto feito de couro ou de camurça, com pequenos bolsos, onde se guardam dinheiro, pequenos objetos, fumo e até armas de fogo.

Na novela, quase todos os peões da fazenda de José Leôncio utilizam a guaiaca.

Laço de 12 Braças

É um laço feito de couro que serve para laçar (prender) gado e cavalos, quando algum animal foge do controle ou precisa ser curado/marcado ou castrado. O comprimento do laço é variável, mas os maiores medem uma base de “12 braças” (17-18 metros).

Na novela, José Lucas de Nada foi em busca de marruá para trazê-lo no “laço de 12 braças”. Além disso, o pai de Josê Leôncio aprendeu a conquistar boi marruá com feitiço e não no laço. Nível Hard!

Berrante

É uma corneta feita de chifres de boi ou de outros animais. É uma espécie de buzina de chifre usada pelos boiadeiros. Não é tocada só para guiar o gado (geralmente pelo ponteiro), mas também utilizada na comunicação entre integrantes da comitiva (expressa sentimentos e emoções).

O som do berrante é único. É só ouvir o berranteiro tocar, que a gente já reconhece o barulho.

Na novela, ao se aproximar da fazenda pela primeira vez, José Lucas de Nada toca o berrante. Ao ouvir, Josê Leôncio fica impressionado com aquele som tão bonito (tocado do mesmo jeito que seu pai, Juventino). Além disso, quando Jove toca o berrante pela primeira vez, é humilhado pelos peões. 

Isso mostra que engana-se quem pensa que é simples tocar berrante, é preciso fôlego e muita técnica.

Por fim, outros inúmeros termos são utilizados na novela (v.g. apiar, pirangueiro, grileiro, posseiro, jacú, ninhal, boca de sapo) … Mas isso fica para outra comitiva!

Gostou do conteúdo?

Conhece outros termos utilizados no Pantanal? Conta pra gente qual é o seu preferido!

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