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“Qoheleth, vaidade das vaidades: reflexões filosóficas de O Eclesiastes”

Por Charles Santiago

Capítulo I

Depois do último texto, Qoheleth: uma voz altiva no contexto das filosofias, recebi, dos nobres leitores, avexadas devolutivas. É digno de nota: na sua maioria, críticas ao modo de escrita, bem como ao seu apavorante conteúdo: “coisas religiosas”.

“Saudades de uma escrita que tropeça em doses etílicas, que assanha os corpos quentes para uma vida de devaneios e de gandaia”.

Acima, versam palavras de uma amiga querida que, de algum modo, não soam somente como críticas, pelo contrário, vejo muito afago para um estilo que, no momento, considero roupagens de uma estação passada: tempos botequianos ou, nos vocábulos de Belchior, “no presente a mente, o corpo é diferente. E o passado é uma roupa que não nos serve mais”.

O último texto foi, para muitos, somente um escrito de quem se assombrou, no leito de hospital, com o sobejo da morte: os fados de uma carcaça em angústia. No entendimento desses leitores, a escrita abeirou-se, com toques filosóficos, de um sentimentalismo puramente cristão.

É preciso dizer que toda escrita é uma arte que, quase sempre, aproxima-se do axioma cervantino: “quando o coração transborda, a língua fala”, a grafia pulula.

Incorrendo no mesmo risco, tributado como um velho cristão, cobiço refletir sobre o Cânon Bíblico que é, dentre tantas coisas, enigmático: Eclesiastes, o livro do mestre pessimista. Não é sem razão que este, na cancha teológica, encontra-se no rol dos documentos classificados como deuterocanônicos.

O desígnio de trabalhar com o Qoheleth tem duplo propósito; o primeiro é que o manuscrito tem sua riqueza filosófica/teológica, mais do que isso, guarda aconselhamento que auspicia travessias para grandes sabenças; e, segundo, é que ambiciono, muito em breve, desenvolver um curso de extensão para ajuizar, filosoficamente, os livros sapienciais no contexto literário e teológico.

Assim, acordado com meu amigo Neemias Prudente, editor da Factótum Cultural, intento refletir, na medida do possível, sobre o livro de Eclesiastes.

Desse modo, para facilitar nossa empreitada, a cada texto aqui publicado, será esboçado um capítulo desse documento que guarda polêmico debate. Todavia, compete esclarecer que não pretendo esgotar o estudo do Eclesiastes, fazendo uma exegese do documento, mas, antes de tudo, filosoficamente, pautar questões que são imprescindíveis para o cotidiano de nosso tempo.

“Debaixo do sol é somente inutilidade, nada faz sentido!”.

Assim começa uma narrativa que, para boa parte do leitor cristão, independentemente do tempo, passado ou presente, é niilista, pessimista e obscura. Se a vida é somente fadiga: nascer, crescer e sofrer, qual é o seu sentido? De que vale a vida debaixo do sol? Esta é a primeira problematização que outorga o Qoheleth.

A discussão acima, tomada no contexto das filosofias, aproxima-se da teoria platônica do conhecimento: o mundo das ideias. Existe um lugar que é perfeito, eterno e imutável. O mundo suprassensível. Já debaixo do sol, de acordo com Platão, o que se tem é ilusão, um mundo de aparências e de engano. O mestre, ao seu modo, abeira-se de uma filosofia platônica. 

 “Geração vai e geração vem; mas a terra permanece para sempre. Levanta-se o sol, e põe-se o sol, e volta-se ao seu lugar, onde nasce de novo”.

O orbe permanece, a natureza tem suas regras e, nela, o homem é somente um instante: “aquilo que existe e deixará de existir” – exclusivamente um efêmero coadjuvante nesse imenso ambiente com crenças e devaneios de artista. Mal sabe o tolo que, de suas ações, “não haverá memória entre os que hão de vir depois delas”.

Nietzsche, filósofo contemporâneo, emplacou, na modernidade, o conceito de eterno retorno para esse movimento que, no Eclesiastes, é cíclico e recorrente: aparece, desaparece e volta a aparecer. Entretanto, para além dessa interpretação nietzschiana, existe, no cânon judaico, uma perspectiva teológica que transcende o que foi e o que será; é a vida que pode ser: una e plural.

“Todas as coisas são canseiras tais, que ninguém as pode exprimir, os olhos não se fartam de ver, nem se enchem os ouvidos de ouvir.”

Ninguém, lançado no mundo, passará incólume dos dissabores existenciais: a brevidade, a inutilidade, a vaidade… Não há riqueza, não há poder, não há saber que possam aliviar o peso da existência, os dramas humanos: todos, indistintamente, estão, debaixo do sol, uma vez nascidos, condenados ao sofrimento: “todos os rios correm para o mar, e o mar não se enche” – a vida não se cansa de se repetir em vaidades.

O texto sapiencial é enigmático, misterioso, poético, literário, filosófico…

O Mestre foi rei, rico, boêmio e, por último, um tolo: acreditou que, debaixo do sol, poderia, com sabedoria, apoderar-se da felicidade. E, de sua tolice, uma nova conclusão: “porque na muita sabedoria há muito enfado”; “quem aumenta a ciência também aumenta a tristeza”.

 Outrossim, sabedoria é enfado, ciência é tristeza, saber é sofrer. O viver debaixo do sol é, entre outras coisas, uma sabença enigmática que Deus impôs aos homens. Por isso, “aquilo que é torto não pode endireitar; e o que falta não se pode calcular”. A vida, nos termos do mestre, é somente uma perspectiva que, embrulhada em aforismos, provoca a miserabilidade humana à luz das vaidades.

Charles Santiago é filósofo, professor e escritor. Colunista da Factótum Cultural. Autor do livro Filosofia de Boteco: no reverso das ilusões.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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