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Flora Tristan: Sejamos todas párias…sejamos nós mesmas!

Por Liliam Beatris Kingerski

A CLASSE OPERÁRIA TEM DOIS SEXOS: O SOCIALISMO FEMINISTA DE FLORA TRISTAN

Lendo mulheres sigo aprendendo com elas e para além disso, sigo buscando forças, neste momento complicado de minha vida, para continuar minha caminhada…

E por mais que alguns leitores teimem em dizer que minha escrita é “mais do mesmo”, eu insisto…é mais do mesmo que precisa ser dito muitas vezes, que precisa ser palco de reflexão, pois as violências não podem ser naturalizadas jamais!

Percebo que essas mulheres que leio, trazem na escrita não apenas o que acreditam, trazem fatos que vivenciaram, e por vezes, a violência é algo em comum nas suas palavras, são ecos por justiça e por um lugar de respeito na sociedade.

Como é importante ler estas mulheres e parar para escutá-las…elas lutaram, entre a escrita e as ações, contra as violências e opressões de seus tempos. E parece que quando olhamos ao nosso redor, o tempo nem passou.

Me vejo nessas leituras carregadas de sentimentos e humanidade, e que dizem muito sobre nós mesmas!

Mary Wollstonecraft, filósofa do período iluminista, vivenciou a violência desde muito cedo, quando via seu pai chegar embriagado em casa e agredir sua mãe, e ela sempre tentou defender a mãe, esperando o pai todas as noites na porta do quarto deles para tentar evitar as agressões…

Mais tarde, ela percebeu  que a irmã passava por uma situação difícil, incentivou-a a abandonar o casamento e fugir, deixando para trás o filho que tinham, visto que o marido já vivia acusando ela de ser louca, e além disso, o filho também era uma propriedade do marido.

A separação nos torna por vezes a pessoa que está errada, a mulher frágil, aquela que não vai conseguir viver sem a ajuda de um homem. Mal sabem as pessoas que pensam desta forma, que temos mais força do que parece e que podemos enfrentar qualquer obstáculo. Quando me separei, isso não faz muito tempo, parecia que nada fazia sentido, e que aonde quer que eu estivesse, era como se não me reconhecesse em lugar nenhum…a dor era tanta! Hoje busco me reconhecer de novo todos os dias.

Flora Tristan foi uma dessas mulheres que poucos conhecem e alguns sequer ouviram falar…ela atravessou meus pensamentos…

Flora Tristan (1803-1844) escreveu a obra  Pérégrinations d’une paria, que é um relato de uma viagem que realizou entre 1833 e 1834 pelo Peru, em busca do reconhecimento de sua família paterna; neste livro, Flora descreve a situação da mulher enquanto Pária: mulher que foge do casamento, que  vem  de  um  país  onde  o  divórcio  não  é  aceito legalmente e onde  seus direitos não são reconhecidos enquanto mulher;  filha  de  pai  hispano-peruano,  o  coronel  da  Armada  espanhola Dom Mariano de Tristan y Moscoso, e de mãe francesa, Anne-Pierre Laisnay, Flora foi considerada ilegítima  por  ser  fruto  de  um  matrimônio  sem  validade; sem direito a herança que buscou após a morte do pai, ela se reconhece enquanto uma Pária, uma mulher que escreveu quando apenas os homens eram reconhecidos nessa profissão.

Para Flora:

Pária: até agora foram consideradas para nada nas sociedades humanas. (…). Qual o resultado disso? O padre, o legislador, o filósofo a trataram como verdadeira pária. A mulher, isto é, metade da humanidade, foi deixada fora da igreja, fora da lei, fora da sociedade. [1]

Flora casou muito jovem e viveu na pele as dores da violência doméstica; perdeu o pai muito cedo, e passando por dificuldades financeiras , a mãe a obriga a se casar, aos 17 anos, com um homem violento e possessivo que a agredia e a humilhava. Casada e com três filhos, ela sofria com as agressões do marido, quando decidiu fugir e peregrinar pelo mundo, visto que o divórcio era proibido; mas nem tudo é fácil; o marido, achando-se seu dono, perseguiu ela, tentando matá-la a tiros; ainda assim, Flora deixa os filhos com a mãe para viajar/ peregrinar, escapando dessas perseguições. Enquanto pária, Flora resistiu aos padrões impostos pela sociedade em que viveu e lutou pela emancipação feminina.

Mas afinal, o que é preciso para fazer parte dos padrões de nossa sociedade?

Por quanto tempo, nós mulheres, teremos que ser definidas, quando o que queremos é apenas poder ser quem realmente somos?

E quem disse que não podemos gostar da solidão? E quem disse que não podemos ser felizes sem o casamento?

É sempre bom lembrar que até 1977, não era possível divorciar-se no Brasil; sabemos quantas mulheres não se separaram por conta dos preconceitos sociais; e ainda quantas mulheres viveram suas vidas “aguentando” uma relação que já não existia.

Enquanto mulher separada, por vezes sinto na pele as angústias de Flora Tristan…o quanto a sociedade nos exclui, o quanto nos diminui, uma mulher separada é julgada e não vista com bons olhos pela sociedade, encontrando-se fora dos padrões estabelecidos por uma sociedade ainda aos moldes patriarcais.

Muitas de nós ainda se sentem Párias nessa sociedade, onde ainda a mulher é definida por ser mãe, esposa e pelos cuidados com a casa; ainda sofremos com o machismo e concordamos com ele quando negamos às mulheres o direito de escolherem sobre aquilo que querem ser e o que desejam para suas vidas…

Sejamos párias…continuemos buscando por mais espaço e reconhecimento… não sejamos mais uma nesse sistema que violenta mulheres todos os dias!


[1] TRISTÁN, FLORA. União Operária.  São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2015.

Liliam Beatris Kingerski é professora de filosofia. Graduada em Filosofia, História e Sociologia, com pós-graduação em Política e Sociedade, História e Sociedade. Mestranda do programa PROF-FILO da UNESPAR. Pesquisadora da Filosofia Feminista, apaixonada por escritas de mulheres e Filosofia. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

4 comentários em “Flora Tristan: Sejamos todas párias…sejamos nós mesmas! Deixe um comentário

    • Gratidão amiga por ler meus textos…por me auxiliar sempre na escrita…e principalmente por que com vc aprendo todos os dias! Só eu que tenho a agradecer!

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  1. Lindo texto! Como é bom conhecer mulheres como você Professora Lilian! Sempre trazendo a história das nossas lutas diárias! Obrigada por existir!

    Curtido por 1 pessoa

  2. Gratidão Neiva, minha sempre aluna querida e mulher maravilhosa, inspiradora e forte!!!! Obrigada pelo incentivo!!!!Fico muito feliz em saber que gostou e leu meu texto!!! obrigada por vc existir!!! Um abraço apertado!

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