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Sorriso vence – dor

Por Helayne Cândido

Mais Mulheres na Política abre 50 mil vagas para capacitação de candidatas  às Eleições 2020 — Português (Brasil)

Bloch (1886 – 1944) diz que o homem é fruto do seu tempo.

Pois bem, toda mulher também é.

Fim de ano tem sempre aquele gosto de saudade… a sensação de encerramento, de finitude de um tempo que não retornará, mas que ficará guardado em nossa memória. Nos deixa mais introspectivas, pensativas, ponderamos nossas atitudes durante o ano que se finda, refletimos sobre o que desejamos melhorar na esperança de que o ano novo que se aproxima, teremos novas chances, novas oportunidades.

No meu trabalho como professora, isto também acontece. Estamos a todo momento nos avaliando e pensando que tipo de memórias deixamos naqueles e naquelas que passam por nós. Sempre busco minhas lembranças, no meu tempo de criança para tentar compreender o que se passa com meus alunos e alunas.

Somos um acúmulo de memórias. Em uma das poucas que possuo, tenho a de um sorriso encantador, brilhante e acolhedor como os raios de sol ofuscando junto com seu carinho, qualquer sensação ruim que estivesse no ambiente.

Escrevo sobre uma mulher que a vida me trouxe de volta, 35 anos depois, em forma de livro, em uma manhã deste dezembro.

Ler a escrita desta mulher, nascida na minha cidade no ano de 1950, me fez encher os olhos de lágrimas inúmeras vezes. Sua história é de um amor incondicional, de luta, de dor e de muita coragem. Eu jamais imaginava que por trás daquele lindo sorriso havia uma vida tão difícil.

Anilda é seu nome, mãe de dois filhos, merendeira na escola em que eu estudava, vivenciou na pele a violência contra a mulher numa época em que não existia a Lei Maria da Penha. Sofreu as agruras de um relacionamento violento, tendo a bebida como gatilho, sempre tentando proteger os filhos e na esperança de salvar aquele homem por quem um dia se apaixonou.

Triste olhar para trás e perceber que aquele homem com quem eu havia me casado e ainda amo não existe, quem sabe nunca existiu, nem existirá. Foi um homem idealizado no amor, o qual eu tinha a certeza de que o libertaria do vício, ou seja, da doença do alcoolismo. (p.78)

Em sua obra de memórias, Anilda que possui apenas o ensino primário, nos presenteia com sua sabedoria de vida e ressalta em seus escritos, na página 81, a importância de uma educação para a não-violência.

Eu defendo a ideia de que deve haver nas escolas, igualmente para meninos e meninas, palestras, trabalhos, conversação em grupo sobre o assunto que é extremamente importante. O conhecimento sobre o tema, ainda na adolescência, os levaria à conscientização e ao conhecimento. Estariam preparados para enfrentar e auxiliar quem estivesse passando por momentos de agressão, assim como as consequências advindas da convivência com um doente de alcoolismo, na vida das pessoas que moram na mesma casa.

Realizar sua leitura me remeteu ao meu trabalho, a minha prática dentro do ambiente escolar. Acredito firmemente que é dentro da escola que podemos romper com esses ciclos de violência. Fica evidente que a autora, assim como tantas mulheres e eu mesma, sofreu com o machismo que nos é imposto. E é dentro da escola que necessitamos dialogar sobre tais situações.

Uma mulher que sofre violência doméstica sempre será julgada pelo fato de continuar com seu parceiro. Eu mesma quando não me aprofundava em estudos sobre o feminismo, não compreendia como e porque isso acontecia. Acabava julgando. E todo julgamento vem do desconhecimento. Seja violência física ou a psicológica, é preciso compreender o contexto histórico e perceber que muitas mulheres não conseguem enxergar o ciclo de violência em que vivem, devido ao sonho de tal “felizes para sempre”. Anilda relata, na página 63,

[…] É difícil entender como uma mulher aceita a volta de seu agressor ao lar para viverem juntos novamente. No entanto eu não estava aceitando aquele que ele havia se revelado atualmente ser, mas o homem lindo, maravilhoso e sedutor com quem eu havia me casado, com quem idealizei a perfeição em meu casamento, criei no meu sonho de felicidade, o meu mundo de paz e amor.

Perceber as amarras que lhe prendem ou lhe prenderam – a você, a mim e a tantas mulheres – é um processo de desconstrução e reconstrução.

Desconstrução porque precisamos entender que não precisamos do outro para sermos completas ou termos o “final feliz”. Crescemos ouvindo estórias de contos de fadas, com o “felizes para sempre”, com a imagem do príncipe encantado e com a ideia de que um casamento só sobrevive graças aos sacríficos que as esposas precisam fazer em busca da família feliz.

Reconstrução porque se despir de todas essas exigências que caem sobre nossos ombros é libertador. Mas também é sofrido e desafiador. Longo e doloroso – e apenas você passará por ele – este processo.

Após ler Anilda, fiquei muito pensativa sobre o amor. Esse sentimento que possui uma força arrebatadora, que move montanhas, que move o mundo, e que se usado ao extremo e apenas com o outro, toma uma força destruidora. Porque existe um lado do amor que nos torna egoístas e quer salvar a pessoa amada. E isso é muito belo, mas esse amor, penso eu, não pode ser maior que nosso amor próprio.

Fiquei pensando se um dia amarei e serei amada novamente, na maneira mais singela que o amor pode se apresentar. Minha história não chega nem perto da história de Anilda, mas tive que me desconstruir e reconstruir e se para mim foi difícil, com toda a “modernidade” que me rodeia, imagine para a autora, que viveu num tempo bem diferente do meu. Somos fruto de nosso tempo, lembra?

Hoje vivemos na perspectiva de nossa independência financeira e emocional. Anilda era uma mulher super independente, mas alimentava o desejo de salvar seu amor, salvar seu casamento, contexto de sua época. Diz ela: […] pois sempre acalentei docemente que conseguiria ter aquele marido sonhado. (p.67)

Li Anilda no dia que Bell Hooks, a autora de “O feminismo é para todo mundo”, veio a falecer. Conforme lia a primeira, mulher da minha terra e de minha memória infantil, relacionava com as ideias de Bell. Procurei compreender o que estava por trás dos escritos de Anilda, para além do que ela nos mostra. Compreender os motivos que levavam seu companheiro a cometer tais agressões.

E fica evidente que homens também são prejudicados pela cultura do machismo impregnado em nossa sociedade. Bell comenta na página 12 de seu livro: […] na maioria das vezes, pensam que feminismo se trata de um bando de mulheres bravas que querem ser iguais aos homens. Eis o que a mídia de massa dissemina e o senso comum por desconhecimento, julga de forma equivocada. Ela ainda continua na página 30,

Conscientização feminista para homens é tão essencial para o movimento revolucionário quanto os grupos para as mulheres. Se tivesse havido ênfase em grupos para homens, que ensinassem garotos e homens sobre o que é sexismo e como ele pode ser transformado, teria sido impossível para a mídia de massa desenhar o movimento como sendo anti-homem.

Por fim, são duas mulheres esplêndidas! Uma encantou e terá seus estudos ecoados ao longo do tempo. A outra, dona Anilda, mais próxima e por quem tanto nutro carinho pelo olhar de ternura que me dirigia, agora despertou em mim ainda mais admiração por sua história de vida, pois apesar de tudo que sofreu, tirava forças para nos presentear sempre com um sorriso. E tenha certeza, seu sorriso hoje, Dona Anilda, é ainda mais lindo pra mim.

Eu sou a forte sobrevivente de um quase naufrágio no bravio mar encapelado, que, após tanta luta contra chuvas, ventos, tempestades, raios e trovões, encontra remanso onde pode continuar navegando com a vista de um horizonte azul e ensolarado. Aí, vou feliz e vencedora…

Ler mulheres é um ato revolucionário.

Leia Anilda…

Referências

HOOKS, Bell. O feminismo é para todo mundo: políticas arrebatadoras. – 8ª ed. – Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2019.

ZEIZER, Anilda. Amor e Dor: uma História de Vida. Porto União, SC. Uniporto Gráfica e Editora Ltda. 1ª ed., 2021.

Helayne Cândido é Professora de ensino fundamental. Graduada em Pedagogia e História. Pós graduada em Psicopedagogia e Psicomotricidade e Artes. Mestranda pelo Pro-filo, pesquisa filosofia e infância. Uma pedagoga apaixonada por história a se aventurar no mundo da filosofia. 

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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