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Memórias de Natal, memórias de infância

Por Gisele Souza Gonçalves

Quando ouço o som das cigarras e sinto esse calor intenso da minha cidade, lembro da minha infância e de como festejávamos a chegada do Natal. Os filmes com neve não são minha referência, mas sim as manhãs já quentes desde muito cedo, o cheiro de manga e de uva quando passamos por uma banca, seja no supermercado ou na esquina. Este é nosso clima de Natal.

E nessa época eu me lembro de quando éramos crianças e planejávamos a noite de véspera, a quem escrever os cartões, o que sugerir de presente caso alguém nos perguntasse. Lembro de estarmos quase sempre juntos: pais, mães, irmãos, primos, tios e tias. Era uma festa permanente no coração.

Assim me permito sentir novamente as lembranças daquela época com menos saudosismo e buscando o que ainda está. O que ficou aqui dentro que veio de lá. Como esta esperança que tenho de que as coisas podem sim melhorar um dia, mas movendo o que é possível, como o pouco que cada um de nós fazíamos naquela época e que se transformava em muito, na verdade, em tudo: do presépio até a ceia havia algo de nós. Penso em como estamos alimentando essa esperança em nossas crianças e também em como a minha criança foi alimentada por algo que nunca morre: a esperança, mas aquela do “esperançar”.

Li, um dia desses, em uma entrevista, algo tão lindo de José Saramago: 

O que eu quero fazer é isso, recordar o menino que eu fui. Tentar saber quem era esse menino. Porque a verdade é que nós pensamos que toda a nossa vida está aí para que tornemos adultos. E, quando somos adultos, nos comportamos como se olhássemos para nós como algo que saiu do estado de crisálida, e que depois da crisálida saiu o inseto adulto com todo o seu esplendor e que são belos, claro; há insetos que deveriam ter ficado na crisálida e não sair (SARAMAGO, 2017, p. 34).

Acredito, considerando a analogia de Saramago, ser um inseto que saiu da crisálida não com todo o esplendor, mas também não como aquele que não deveria sair. Estou por aí seguindo e tentando ser. Penso em tantas crisálidas e nos belos seres que voam em pleno esplendor de aprender. Quero também descobrir a menina que fui por inteiro, descobrir quem eu realmente era e esqueci; ou quem eu sou e não sabia. Quero ser. Neste período do ano, penso muito sobre esse descobrimento do que é sentir, a cada dia novo, a cada experiência diferente e, por que não, em cada Natal?

Ser adulto nos permite entender o quanto vivemos pensando no futuro, o que nos inibe de viver o agora. Mas podemos rever isso por nossas crianças e aproveitar o momento com elas, e enquanto cada um de nós aprende, elas podem conosco sentir e viver suas mudanças para saírem da crisálida, a seu modo e como são, quando assim entenderem ser o momento. Nós estaremos por perto para apreciar, quem sabe reaprender sobre descobertas.

Que o cheiro das minhas frutas preferidas traga sempre a confirmação do quanto é importante sentir e viver o agora, mesmo lembrando do passado e abraçando o que ficou de bom nas memórias de infância tão intensas no Natal, tão importantes para nossa vida. Que aquilo que não foi tão bom nos ensine a rever cada passo, sem culpa, mas com a cautela necessária de quem busca viver sem moldes, porque cada crisálida é única e precisamos lembrar disso.

Dias felizes e intensos sempre que possível são meus desejos de fim de ano!

Referência

SARAMAGO, José in José Saramago por Horácio Costa. Cult 20 anos: melhores entrevistas/ Daysi Bregantini, Welington Andrade (org.) 1ª ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2017.

Gisele Souza Gonçalves. Professora e Doutoranda pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE). Mãe. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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