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A Internet Deu Errado

Por Álefe Nícolas dos Santos de Carvalho

Criação de Sites: A Internet e seus serviços

Eu sei que é cafona criticar a internet, e o avanço tecnológico em geral.

Todos os boomers do Facebook já passam incontáveis horas reclamando sobre problemas da rede que eles mesmos inventam, e todos já estamos cansados de pessoas repostando aquela foto de uma placa de restaurante que lê “Não temos Wi-Fi, conversem”.

Porém, um debate realístico sobre os rumos aos quais a internet guia a humanidade é necessário para tentar remediar seus venenos mais perigosos, antes que seja tarde demais (provavelmente já é, e pretendo provar isso neste artigo).

Com a chegada da virada do século, o número de usuários da rede mundial de computadores interligados crescia exponencialmente. Os entusiastas da nova tecnologia, em geral, declaravam, confiantemente, que a internet mudaria todos os aspectos da vida cotidiana no novo milênio, e o acesso à informação, interconexão entre todos os povos e liberdade de expressão imperaria nesse novo cenário. Hoje em dia, é razoável afirmar que essas qualidades atribuídas à internet se concretizaram, mas não da forma que deveriam: o acesso à informação excessiva e desnecessária, a dominação cultural imperialista e a liberdade para a disseminação de preconceito e mentiras online são os maiores legados da rede, que não fez nada pelos problemas da humanidade, senão piorá-los.

A internet que deu errado – A informação

          O acesso à informação foi uma das maiores promessas da internet. Com essa nova ferramenta, esperava-se que as novas gerações fossem compostas de jovens antenados e engajados. Parcialmente, essa realidade se concretizou, na medida em que as novas gerações tiveram mais acesso a dados políticos. Porém, isso não é necessariamente algo (tão) revolucionário ou bom.

          Não é tão revolucionário pois as informações hoje disponíveis ainda não cumprem com a promessa de que a internet concederia irrestritamente e ilimitadamente conhecimento sobre tudo. Instituições poderosas, sejam Governos ou grandes conglomerados de tecnologia, ainda mantêm monopólio de incontáveis informações relevantes ao público, e às quais se  deveria ter acesso.

          Não é bom, pois, na mesma medida em que existem mais informações disponíveis para um exercício mais completo da cidadania, também existem mais informações e conteúdos inúteis. Apesar de hoje existir de fato uma facilidade maior para se tornar um cidadão engajado, a quantidade gigantesca de distrações provida pela internet, muitas vezes, nos faz esquecer dos problemas da realidade fora das telas. Nesse sentido, a internet não falhou completamente, mas deixou muito a desejar.

A internet que deu errado – A interconexão entre povos

          Apesar das expectativas de intercâmbio e enriquecimento cultural para todos os povos através do fortalecimento da aldeia global, agora interconectada entre si, a internet apenas consolidou a hegemonia cultural dos países imperialistas. Sim, de fato, o público geral tem acesso à qualquer cultura já documentada na história da humanidade, mas, na grande maioria das vezes, a única cultura que  consome é a cultura pop, fabricada em Hollywood para as massas. Claro, esse processo já estava ocorrendo décadas antes da internet, porém,  acentuou de forma estratosférica a consolidação da hegemonia cultural.

          Um claro exemplo desse processo é a ampla comemoração do Halloween no Brasil em 2021. Antes da internet, conhecia-se este feriado de tradição anglo-saxã, mas nunca  se pensava em comemorá-lo no Brasil. Porém, com as redes sociais, a juventude pode ver de perto influencers, tiktokers e celebridades estadunidenses comemorando o Halloween, e decidiram fazer o mesmo. Sem a internet, esses jovens, provavelmente,  não saberiam nem como soletrar Halloween.

          Outro exemplo, deveras cômico, é que pais começaram a notar que algumas crianças de Portugal estão aprendendo a falar “brasileiro”, após passar horas assistindo YouTubers tupiniquins. Esses “miúdos” começaram a trocar “relva” por “grama”, ou “autocarro” por “ônibus”. Claro que o Brasil não é uma potência imperialista como os Estados Unidos, mas é um centro de polarização regional, e esse caso também evidencia o processo de hegemonia cultural da internet.

A internet que deu errado – Liberdade de expressão

          A tal “liberdade de expressão” era outra bandeira dos otimistas, segundo os quais a internet concederia uma voz para que todos pudessem ser ouvidos. O que talvez esses otimistas não tenham imaginado é a quantidade de ingênuos e mal intencionados no mundo (e, diga-se de passagem, essa mistura nunca pode dar certo).

          Não  precisa procurar muito na internet para encontrar exemplos de como a liberdade de expressão cibernética beiram ao ridículo. Nos grupos de WhatsApp, as fake news (criadas por mal intencionados e disseminadas por ingênuos) com links para portais de credenciais duvidosas polarizam cada vez mais a população. Ademais, o discurso de ódio tornou-se corriqueiro em redes como Facebook e Twitter, que se  preocupam mais com manter o usuário por mais tempo usando a plataforma, do que em torná-la um ambiente livre de preconceitos e mentiras. Ocasionalmente, plataformas banem ou censuram candidatos que exacerbam a “liberdade de expressão” e destilam discriminação, mas apenas quando há uma comoção pública para tal. No geral, as corporações tecnológicas não ligam para isso.

A sensação de impunidade que um perfil anônimo na internet concede para indivíduos retrógrados chega a ser horripilante. Na vida real, longe das telas, acovardam-se em vocalizar seus pontos de vista intolerantes, mas dentro do espaço virtual, sentem-se livres, e mais, encontram seus iguais: outros perfis anônimos preconceituosos.

A internet que deu certo

          Existe um exemplo do que a internet deveria ter sido. O site Wikipédia, provavelmente um dos endereços mais visitados na história da internet, representa todos os melhores valores cibernéticos: foi construído por uma comunidade, não sendo controlado por uma grande empresa tecnológica, democratiza todo o tipo de informação que se possa imaginar para um acesso gratuito por todos que disponham de conexão à internet, com total privacidade (a Wikipédia nunca vai, por exemplo, vender os dados de seus usuários para empresas que coletam tais informações).

          Há quem afirme que a Wikipédia não é confiável. No geral, pode-se afirmar com certa tranquilidade que a maioria das informações do site são verídicas, até mesmo porque grande parte delas conta com fontes externas e mecanismos de checagem de fatos.

          Creio ser razoável afirmar que, caso a internet se resumisse apenas a um site como a Wikipedia, o mundo seria um lugar melhor (tanto o virtual, como o real).

Rumos sombrios: META

          Os novos investimentos para a criação de uma realidade virtual integrada ao cotidiano anunciados pela empresa, que deixou de se chamar Facebook, para se chamar Meta, são um tópico extenso que merecem seu próprio artigo. Declaro apenas que borrar os limites entre o que é real e virtual pode muito bem ser o fim da humanidade como se a conhece.

As experiências a que já vivenciamos através dos sentidos são ilusórias, como Buda e filósofos gregos apontavam, então, é inconcebível para mim que qualquer coisa boa possa provir de misturar nossa realidade, que já é distorcida através de nossa cosmovisão pessoal, com uma outra realidade, completamente fabricada por mãos humanas.

As empresas tecnológicas fazem de tudo para nos manter em suas plataformas. Por isso mesmo, seus algoritmos nos direcionam apenas o conteúdo pelos quais elas identificaram que vamos nos interessar. Com a realidade virtual sendo integrada ao cotidiano, a bolha em que já vivemos na internet se estenderá para todas as facetas de nossas vidas. Não gosta de ver mendigos na rua? Quem sabe, o novo óculos de realidade virtual o camuflará para impedir seu desconforto.

Claro, estou apenas especulando. Não me surpreenderia, porém, se daqui há 15 anos a realidade virtual mergulhasse a Terra numa hiper-realidade distópica.

Quem é o culpado?

          É difícil, e ao mesmo tempo simples, apontar culpados para a calamidade caótica que chamamos de internet. Difícil, pois foi uma miríade de fatores que colaboraram para que a rede se desenvolvesse dessa forma, e fácil, pois existiram algumas peças chave nessa equação. É justo afirmar que empresas como Microsoft, Google, Facebook (ou Meta, como preferir), e Apple são algumas das culpadas, por terem grande participação na destruição de todos os pilares que assegurariam uma internet positiva, ao violarem a privacidade do usuário, ao monopolizarem os serviços disponíveis e ao priorizarem o tempo que seus usuários passam em suas plataformas, em vez de considerarem a qualidade que seus serviços agregam na vida dos clientes.

Qual é a solução?

          Não há solução. A internet se tornou parte essencial da vida de bilhões de pessoas de todo o mundo, que já não podem imaginar um mundo sem acesso ao Google, Facebook ou ao YouTube, os três sites mais acessados do mundo segundo a Similar Web. A cada ano que se passa, o número de conectados à rede cresce, o domínio dos conglomerados tecnológicos se consolida, e a dicotomia entre virtual e real tem seus limites ainda mais embaçados.

          Não há solução, pois não estamos dispostos a abrir mão de passar um tempo por dia no Instagram, mesmo que isso signifique que nossos dados estão sendo traficados. Não há solução, pois não estamos dispostos a abrir mão de assistir alguns vídeos no YouTube por dia, mesmo que este seja responsável pela radicalização de jovens impressionáveis em todo o mundo. Não há solução, pois não estamos dispostos a abrir mão de acompanhar brigas de celebridades no Twitter, mesmo que essa plataforma empodere líderes da extrema direita- e esclareço que me incluo completamente nessa crítica, pois sou usuário ativo de todas as plataformas que citei. Não há solução, e o problema tende a piorar.

Álefe Nícolas dos Santos de Carvalho, Estudante do terceiro ano do Ensino Médio e escritor jornalístico.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

Um comentário em “A Internet Deu Errado Deixe um comentário

  1. https://pflkwy.wordpress.com/2016/06/09/historico-de-fundacao-do-blog-pflkwy/

    Blog sobre notícias e política com um viés de esquerda: onde os bravos nunca ousaram percorrer e que não espere deste o obsequioso silêncio dos covardes, amortecendo consciências, desarmando resistências que só no fátuo da retórica da ideia, da moral e da ética é que se venera seu oponente evitando a sedição.

    Quem sou?

    Talvez, irracional, ilógico, egocêntrico e ideológico. Sei Lá!

    Quando faço sucesso nas minhas realizações, ganho falsos amigos e verdadeiros inimigos. Hoje o que mais gosto de fazer e escrever; admiro os grandes pensadores antigos e atuais independente da sua corrente de pensamento. Talvez seja pedir muito! É melhor viver o presente, porque o passado não moverá moinho, ele só vai balizar meu presente e, o que para o futuro. Assim vou reinventando minha história.

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