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Vale a pena pagar o preço da liberdade?

Por Álefe Nícolas dos Santos de Carvalho

Líbia vive o caos 10 anos depois da Primavera Árabe - ISTOÉ DINHEIRO

Para responder a essa pergunta, precisa-se, primeiramente, estabelecer que a liberdade é um conceito abstrato e subjetivo, e que muda de acordo com as circunstâncias e culturas envolvidas. Dito isso, proponho a análise da liberdade alcançada por um povo no passado recente: a liberdade conquistada pelos líbios, com a queda de Kadafi.

Muammar al-Gaddafi, ou como a mídia brasileira o apelidou, Kadafi foi um ditador da Líbia, que ascendeu ao poder como revolucionário em 1969, e foi apenas deposto de seu cargo como “Líder Fraternal” do país durante a Primavera Árabe, em 2011.

Durante suas décadas de vida política, transitou por diversas ideologias, como o nacionalismo-árabe e socialismo-árabe, até que acabou por fundar sua própria escola política: a Terceira Teoria Internacional, descrita em seu Livro Verde (um livreto conhecido por todos os líbios, sob ordem de Kadafi). 

Não é segredo para ninguém que Kadafi foi um ditador sanguinário, que restringiu as liberdades políticas de seu povo, perseguiu seus opositores e, apesar de tentar elaborar um sistema verdadeiramente democrático em seu Livro Verde, que fugisse da “Ditadura dos Partidos” que assola o mundo ocidental atualmente, governou com completa hegemonia política.

Por isso, não é surpresa nenhuma que líbios tenham se insurgido contra a pesada pata do “Cachorro Louco”, como Ronald Reagan o alcunhou, durante a Primavera Árabe (claro, que com muito incentivo das potências da OTAN, que já farejavam o lucro que poderiam obter com um maior controle sobre a região, que contém enormes jazidas de petróleo).

A surpresa ocorreu, muito provavelmente, para os revoltosos: a Líbia sem Kadafi entrou em colapso.

Apesar de suas tendências autoritárias e fundamentalistas, Kadafi utilizou do dinheiro que provinha da venda do ouro negro para construir, por exemplo, o maior canal de irrigação do mundo, que livrou milhares de líbios da aridez do deserto, promoveu programas de moradia para todos os cidadãos, zerou a dívida externa e, ainda mais impressionante, promoveu um salto da alfabetização de 10% para 88% durante seu governo, provando que sim, existe um caminho para países africanos vencerem os desafios da era pós-neocolonialismo.

Hoje, todo o desenvolvimento conquistado por Kadafi se perdeu no meio de um país fragmentado, em guerra.

Diversas milícias tomaram conta do vácuo de poder, e controlam agora os pontos estratégicos, como portos e centros urbanos, lutando entre si por uma hegemonia inalcançável. Enquanto a Líbia se desenvolvia sob o olhar sanguinário de seu ex-ditador, após a sua libertação, o país é palco de atrocidades inimagináveis, como o tráfico de escravos, promovido pelas milícias, que ocorre com imigrantes vulneráveis em pleno Século XXI.

Não é exagero afirmar que, sem Kadafi, a Líbia voltou 400 anos no passado.

Repete-se agora a indagação inicial: Vale a pena pagar o preço da liberdade?

Para muitos líbios (não todos, visto que a insatisfação com Kadafi não era absoluta), a liberdade que almejavam era a liberdade política, para poderem se manifestar, apoiar ou opor, sem medo de represália do governo autoritário (vale ressaltar que esse conceito de liberdade sofreu enorme influência das potências ocidentais).

Por esse ideal de liberdade, sequestraram e lincharam o homem que, 42 anos atrás, havia expulso o domínio estrangeiro, travestido de governo local, de sua terra natal.

E, afinal de contas, conseguiram o que desejaram? Efetivamente, não.

Hoje, a Líbia se encontra como uma colcha de retalhos, mergulhada no caos da guerra entre grupos políticos, vendo o passado glorioso de uma nação que crescia se apagar na memória dos mais velhos, e o sonho de uma democracia se tornar cada vez mais distante. Se há 20 anos havia um ditador líbio que cometia barbaridades, agora existem diversos deles.

Portanto, repito mais uma vez, vale a pena pagar o preço da liberdade?

Cabe a você, leitor e cidadão, responder.

Álefe Nícolas dos Santos de Carvalho, Estudante do terceiro ano do Ensino Médio e escritor jornalístico.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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