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Algumas coisas findam, para outras recomeçarem…

Por Helayne Cândido

A vida tem me mostrado que términos são recomeços.

São oportunidades que a vida, essa brincalhona, nos oferece para que possamos nos descobrir ainda mais potentes.

Mas entre o fim e o recomeço existe o processo.

E este processo pode ser doloroso, mas é você que precisa passar por ele. Ninguém o fará por você.

Há algum tempo perdi alguém querido. Como tesouro, me deixou uma bicicleta. Por vezes, meu filho a usava, outras ficava encostada, acumulando poeira e sendo a marca da lembrança de alguém que partiu. Fim.

Levou tempo pra eu olhar para essa bicicleta e entender que ela seria a materialização de uma das últimas falas que ouvi: “Siga”.

Seguir transmite a ideia de movimento, de nos libertar do que nos aprisiona, sair da posição cômoda, fazer doer o que aparentemente está curado.

E esse movimento/processo é doloroso. Por vezes, nos sentimos fracas, sem força, como se a subida a ser vencida fosse impossível. Suas pernas doem e você para, descansa, até senta para respirar. Mas sabe que depois pode vir uma bela paisagem e uma descida com vento nos cabelos. E você pode até cair, se machucar, ralar o joelho. Mas sabe que isso também vai passar. Então, você se levanta e continua. Segue. 

E foi discretamente que iniciei minhas manhãs e tardes de pedal.

Ousadia minha, apenas dou umas voltas de bicicleta para desacelerar essa vida corrida que nos cobra tanto.

Para além de pura distração, pedalar tem sido meu momento de cuidar de mim, da cabeça e do corpo, já não tão jovem pelo avançar da idade. A maturidade exige movimento. Urgência pela vida.

Pedalar, sentir o vento no rosto, avistar as paisagens, ouvir música, pensar sobre a vida tem sido meu momento de refúgio.

O momento que desacelero e só existe eu, a bicicleta e o horizonte.

O momento que ao girar dos pneus, gira também o tempo, gira meus pensamentos, giram minhas angústias, giram minhas alegrias, meus contentamentos, minhas surpresas, meus cansaços, meus medos. Gira a vida.

O momento que aperto os freios e volto às minhas memórias de infância em que me recordo até mesmo de como aprendi a pedalar, numa bicicleta maior que eu, levando meu pai na garupa, que usava os pés como apoio para eu me equilibrar, numa rua de paralelepípedos.

O momento que volto a ser só a Helayne, a moleca que tira as mãos do guidão e voa, sentindo a liberdade e o simples prazer de viver.

Estar viva é uma dádiva. A cada distância percorrida e ampliada penso na famosa frase de Frida Khalo (1907-1954), esta mulher que mesmo presa pela condição de seu corpo, encontrou maneiras de voar:  

“Ao fim do dia podemos aguentar muito mais do que pensamos que podemos.”

Viver a vida com tudo que ela pode nos oferecer, de bom ou de ruim, é uma oportunidade única.

Recomeçar é agarrar essa oportunidade e fazer jus as pessoas que estiveram por aqui e que deixaram como herança o aprendizado e a aventura.

Nesse processo constante que é a vida, que gira, que finda e que recomeça, que estejamos sempre em movimento, na direção de encontrarmos a nós mesmas.

E que seja um feliz encontro.

Helayne Cândido é Professora de ensino fundamental. Graduada em Pedagogia e História. Pós graduada em Psicopedagogia e Psicomotricidade e Artes. Mestranda pelo Pro-filo, pesquisa filosofia e infância. Uma pedagoga apaixonada por história a se aventurar no mundo da filosofia.  

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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