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Mais Platão, menos prozac: Você conhece a filosofia clínica?

O modelo de tratamento para cuidar da saúde mental é instrumento que ajuda a lidar com questões existenciais e problemas interiores

Mais Platão, menos prozac. Muitos ainda não conhecem a filosofia clínica como modelo de tratamento para a saúde mental com foco na organização e/ou estruturação do pensamento como instrumento para lidar com os problemas interiores e questões existenciais.

O filósofo alemão Gerd. B. Achenbach, fundador da prática filosófica (philosophische práxis), em 1981, afirmava que a filosofia só pode ser realmente compreendida por meio de sua prática e de uma experiência empática: “terapia da alma”.

Com abordagem distinta da prática desenvolvida por psicólogos, psicanalistas ou psiquiatras (com discordâncias por parte de alguns profissionais), a filosofia clínica é o uso do pensamento com fins terapêuticos e, no Brasil, foi inaugurada pelo filósofo e psicólogo Lúcio Packter, em Porto Alegre (RS), na década de 1990.

O filósofo Guilherme Caiado, filósofo clínico, pedagogo e professor na rede municipal de Uberaba, explica que a filosofia clínica é uma abordagem terapêutica que se fundamenta na filosofia clássica. Segundo ele, é um método terapêutico livre, reconhecido como uma modalidade terapêutica, assim como tantas outras. “Nos primórdios, era recomendado ser filósofo de formação, hoje avançamos. Exige-se uma graduação e os cursos de formação em filosofia clínica adequou seu currículo para esta nova demanda.”

A filosofia só pode ser compreendida por meio de sua prática e de uma experiência empática: terapia da alma

Guilherme Caiado conta que no Brasil, existe a Associação Nacional de Filósofos Clínicos (Anfic), que vai nortear e orientar os centros de formação, código de ética e orientações do funcionamento dos consultórios.

“O sistematizador da filosofia clínica no país cedeu os direitos autorais de suas obras, sobretudo os cadernos clínicos, que é muitas vezes a “Bíblia” do filósofo clínico. Em Minas Gerais estão sobre tutela do Instituto Mineiro de Filosofia Clínica (IMFIC), que regulamenta os centos de formação. Há vários polos, como Uberlândia, Lavras, Poços de Caldas, São João del’ Rei e Belo Horizonte. A filosofia clínica hoje está presente em empresas, escolas, hospitais, clínicas, igrejas, em suma, onde existir um ser humano. Ela não se limita a consultórios.

Cada pessoa tem um modo singular e subjetivo de se movimentar existencialmente e, na maioria das vezes, os desconfortos emocionais decorrem justamente dos conflitos das várias maneiras de ser que, às vezes, se desencadeiam pela ausência do conhecimento de seu funcionamento existencial

Guilherme Caiado, filósofo clínico

O engenheiro Elson Gregório, de 36 anos, revela que procurou a filosofia clínica para se conhecer melhor e “tratar um ‘trama’ do passado”. Ele conta que perdeu o pai aos 8 anos e teve uma adolescência complicada. Não de dar trabalho, mas de um jovem bem fechado. “Minha mãe sempre bateu nessa ‘tecla’, de que precisava de ajuda profissional. No fundo, era resistente, mas decidi procurar, já que estava em uma péssima fase, nada dava certo e lidava com várias incertezas e dúvidas sobre a vida.”

Elson destaca que a aceitação veio depois de perceber que precisava de ajuda externa: “Nunca fui uma pessoa que conseguisse se abrir com alguém, tinha dificuldades em relatar meus próprios problemas e sempre queria ajudar a todos, assumindo as dores alheias. Queria algo novo. Cheguei a fazer consultas com psicólogos, mas não me ajudaram muito, não conseguia me encontrar. Para mim, chegar num consultório e já ter de me abrir era difícil. Fui a um psicólogo logo após o falecimento do meu pai, mas era uma criança e isso não deu certo, não quis dar sequência. A segunda experiência foi na fase adulta e também não foi bom, pelo simples fato de ser uma pessoa fechada e não conseguir me abrir e contar meus problemas.”

A filosofia clínica foi a grande saída para Elson: “É difícil falar do resultado porque foi fantástico, me ajudou em vários fatores. Em pouco tempo, sem perceber, já tinha contado a minha vida para a filósofa e me sentia outra pessoa, conseguia analisar a vida de outra maneira, de outro ângulo, conseguir ter mais paz, tranquilidade para tomar decisões. Passei a falar, e esse era um desafio enorme na minha vida”.

MUDANÇA DE VIDA 

Elson conta que fez o tratamento por dois anos e, infelizmente, interrompeu por causa da pandemia: “Não quis fazer remoto porque gostava do presencial, dos exercícios, sempre me relaxava, costumava até dormir na hora da meditação (mesmo a terapeuta me dizendo que eu não estava dormindo), conseguia sair do consultório bem mais leve. Nunca fiz outro tipo de terapia. Sempre que tive oportunidade de conversar com uma pessoa que fazia alguma terapia, percebia que a minha cuidava além da mente, mas do corpo também, o que é fundamental. Depois de fazer a filosofia clínica, percebi que todos necessitam dessa experiência, além de bom é desenvolvedor para o ser humano. Estou na expectativa de recomeçar logo as consultas presenciais, para retomar o tratamento.”

Gleice Ferreira, de 47 anos, bacharela em direito, explica que a filosofia nas salas de aula na faculdade lhe trouxe visão e compreensão maior em vários sentidos e a fez perceber que nas sessões de filosofia clínica encontraria a ajuda necessária para as questões que enfrentava.

“Ela me trouxe uma abordagem inteligente, lógica e racional. Percebi que havia como me libertar de tantos conceitos e pré-conceitos que fui internalizando ao longo da minha existência e que me trouxeram muita dor. Enfrentava situações difíceis nos relacionamentos conjugal, familiar, social e comigo mesma. Havia iniciado sessões com psicólogo, em outros momentos, mas não consegui dar sequência.”

Para Gleice, a filosofia clínica lhe proporcionou o encontro consigo mesma: “E desse encontro muito de valor percebi em mim, assim como também o que desejava e o que não desejava. Resgatei a confiança e a segurança que precisava sentir comigo mesma e que estavam perdidos. Quando estamos bem agimos a nosso favor. Muito me foi acrescentado. Fiz por 12 a 18 meses, não me lembro exatamente, mas foram os melhores momentos da minha vida. Sou imensamente grata à filosofia clínica pela abordagem e o processo em cada sessão. Ao final de cada uma me sentia inteira e segura desejando assim que viessem outras sessões.”

A filosofia clínica me trouxe uma abordagem inteligente, lógica e racional. Percebi que havia como me libertar de tantos conceitos e pré-conceitos que fui internalizando ao longo da minha existência e que me trouxeram dor

Gleice Ferreira, de 47 anos, bacharela em direito

Já Nara, que quer se identificar apenas assim, de 40 anos, administradora de empresa e servidora pública, conta que o que mais a impressionou na terapia em filosofia clínica foi a terapeuta ser amiga do partilhante (pessoa que busca a filosofia clínica).

“Em outras terapias que fiz, a profissional conhecia minha vida e nem me permitia conhecer a sua. A terapia em filosofia clínica me ajudou e continua ajudando a superar traumas, transtornos obsessivos compulsivos (TOC’s) e a transmutar experiências na minha vida, no trabalho e na família. Continuo com as sessões porque a minha evolução positiva é muito estimulada”.

Para quem ficou curioso, instigado a procurar esta terapêutica, a filósofa clínica Marta Batalini, professora universitária e reprogramadora neurodimensional, a define tomando emprestado as palavras de uma poeta: “Trago Cora Coralina, quando ela diz que o que vale na vida não é o ponto de partida e sim o caminho que fazemos”.

Estado de Minas. 1.8.2021.

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