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Como somos alegremente tóxicos no Instagram

Por Juan Diego Godoy

Algumas redes sociais viraram propagadoras de uma positividade contraproducente, ao projetar vidas perfeitas nos perfis e contribuir para que seus usuários ignorem uma realidade mais ambígua

Imagine um lugar onde qualquer sentimento exceto a felicidade fosse proibido. No começo você talvez ache que esse lugar utópico seria excelente. Mas diversos estudos e especialistas chegaram à conclusão contrária. A imposição do pensamento positivo como única solução para os problemas, desterrando as emoções negativas, é conhecido como “positividade tóxica” (toxic positivity, em inglês) e, segundo um artigo acadêmico publicado em maio pela Associação Nacional de Educação dos EUA, pode tornar essas emoções negativas ainda mais fortes. Por quê? Porque, quando uma pessoa é obrigada a se sentir otimista e não consegue, tende a enfrentar uma sensação de fracasso.

Ao contrário do pensamento positivo, que se centra nos benefícios de ter uma perspectiva otimista perante os problemas, esta atitude tóxica exige a positividade das pessoas independentemente dos desafios que elas enfrentem, o que potencialmente silencia suas emoções e as dissuade de buscar apoio social. As redes sociais, com perfis que projetam vidas perfeitas, contribuem para essa atitude, ao fazer os demais usuários sentirem que precisam estar felizes e manter uma vida equilibrada e bem-sucedida o tempo todo. E isso é especialmente verdade no caso do Instagram, onde convergem os corpos e rostos “perfeitos”, a roupa de moda e os produtos que são tendência, as melhores paisagens e as férias que todos pensam desejar – enfim, um caldo de cultivo ideal para essa toxicidade.

Já advertia o empresário e acadêmico de Internet Kalev Leetaru em um artigo publicado em 2019 na Forbes, falando de “um crescente corpo de pesquisa e argumentação segundo o qual estar saturado com imagens tão perfeitas, em que cada cena representa a vida em seu melhor momento, pode tornar as pessoas menos felizes quando comparam essas imagens encenadas com suas próprias vidas”. Leetaru observava a ironia de que, num mundo digital “cheio de ódio e horrores”, o Instagram seja criticado com frequência “por ser muito positivo, feliz e edificante”. E os estudos demonstram que ele não estava totalmente equivocado.

Segundo a Associação Norte-Americana de Psiquiatria, é menos provável que as pessoas que se sentem pressionadas a sorrir diante das adversidades procurem apoio médico e psiquiátrico quando se trata de sua saúde mental, pois “podem se sentir isoladas ou envergonhadas de seus sentimentos, o que as dissuade de procurar ajuda porque o estigma dissuade a pessoa de procurar um tratamento”. E, se formos além, de acordo com um estudo da Universidade do Leste de Londres publicado na International Journal of Wellbeing, um viés positivo poderia fazer as pessoas que sofreram abusos “subestimarem sua gravidade e permanecerem em seus relacionamentos”. “O otimismo, a esperança e o perdão aumentam o risco de que as pessoas fiquem com seus abusadores e sejam alvo de um abuso cada vez maior”, salienta o estudo.

Instagram, como chegamos até aqui?

“Vemos uma positividade tóxica nas redes sociais quando as pessoas que compartilham conteúdos sobre os desafios da vida obtêm como únicas respostas comentários muito positivos que ignoram que essa pessoa poderia se sentir incômoda, cansada ou preocupada”, explica Brock Bastian, pesquisador da Faculdade de Ciências Psicológicas da Universidade de Melbourne (Austrália), em um artigo no site ABC Everyday.

O trabalho de Bastian se centra no impacto que a busca pela felicidade pode causar para o nosso bem-estar. “Mas, de outras formas, a experiência da positividade tóxica poderia não ser uma publicação, um comentário ou uma série de comentários específicos, mas sim um sentimento que se apodera do usuário pouco a pouco, à medida que ele consome mais conteúdo de pessoas que compartilham apenas os melhores e mais emocionantes momentos de suas vidas” diz Bastian.

Naturalmente, os usuários que compartilham conteúdo grandioso estão apenas exibindo um recorte da sua realidade e, talvez sem querer, transmitam a seus seguidores essa pressão de que tudo sempre tem que ser especial e brilhante. Não há lugar no feed para as caras tristes, os fracassos e a ansiedade. Mas o fato de as pessoas não quererem mostrá-los não significa que esses sentimentos negativos desaparecem. Segundo a psicóloga alemã Doris Röschmann, ouvida pela agência de notícias DPA, “as consequências [de ocultar e enterrar os sentimentos negativos] podem ser insônia ou mesmo depressões”, além de que “não ser sincera consigo mesma pode afetar o sistema imunológico em longo prazo”.

“Um crescente corpo de pesquisa sugere que esta ênfase na perfeição inalcançável na verdade tem um efeito nocivo sobre nossa saúde mental. Que em lugar de estarmos inspirados por um fluxo interminável de imagens felizes começamos a comparar nossas próprias vidas reais com os momentos falsos e selecionados dos outros. Que em vez de nos sentirmos fortalecidos pelos feitos e pela sorte de alguns poucos afortunados, nos sentimos deprimidos por nosso próprio estado”, comenta Leetaru na Forbes.

Mas o que se pode fazer? A toxicidade e o ódio também são necessários nas redes para poder participar plenamente no mundo digital? O Instagram e sua felicidade eterna são uma condenação ao sofrimento de seus usuários?

O Instagram volta a mudar seus ‘reels’.
O Instagram volta a mudar seus ‘reels’. UNSPLASH / INSTAGRAM

Equilíbrio e consciência

“Nem todo mundo quer compartilhar suas dificuldades nas redes sociais, e tudo bem. Mas é bom se lembrar disso quando você estiver consumindo esse conteúdo”, diz Bastian no ABC Everyday. “A positividade saudável é deixar espaço para as emoções negativas e sentir-se à vontade com elas, pois a melhor maneira de ser feliz é se basear nessas experiências incômodas, já que, se as evitarmos, elas pioram”, salienta o especialista.

Há maneiras de evitar a positividade tóxica. Algumas estratégias recomendadas no Medical News Today por Jacquelyn Johnson, psicóloga clínica especialista neste tema, incluem práticas como identificar e nomear as emoções em lugar de tentar evitá-las, falar com pessoas de confiança sobre elas ―inclusive os sentimentos negativos―, reconhecer as emoções negativas como algo normal e importante da experiência humana e procurar ajuda de um terapeuta se for o caso.

O Instagram, por sua vez, aparentemente já tomou certas medidas a respeito disso. Sobretudo, através dos seus likes. A rede social lançou uma ferramenta que permite eliminar o contador de reações, com o objetivo de melhorar a saúde mental de seus usuários. Diversos trabalhos, como os estudos intitulados O uso das redes sociais e seu impacto sobre os relacionamentos e emoçõespublicado pela Universidade Brigham Young, e Redes sociais on-line e adiçãona International Journal of Environmental Research and Public Health, pretenderam demonstrar que as pessoas, em particular as gerações mais jovens –como os centennials e millennials– que utilizam esses aplicativos estão sofrendo efeitos negativos na saúde mental que têm suas raízes no “ecossistema tóxico” das redes.

Seria possível então que uma rede cheia exclusivamente de “felicidade” tenha sucesso e nos faça felizes? Para Leetraru, a experiência do Instagram sugere que mesmo uma plataforma que potencialize o conteúdo tipo “feliz primeiro” só nos fará buscar a tristeza que sentimos. “Em resumo, através do filtro rosado dos sites ‘felizes primeiro’ só vemos breves momentos de felicidade encenada em lugar da realidade das experiências de vida totais que cercam esses momentos, comparando toda a nossa vida apenas com estes breves momentos”, detalha o especialista.

Possivelmente tudo conflua para uma realidade que todos vivemos, mas que geralmente disfarçamos: nem tudo é sempre grandioso. O que se exibe nas redes sociais é apenas uma parte –nem sempre verídica – da realidade.

Juan Diego Godoy. El País. 23.8.2021.

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