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“Bom mesmo era antigamente”

Por Álefe Nícolas dos Santos de Carvalho

“Mas é você que ama o passado,

E que não vê

É você que ama o passado,

E que não vê

Que o novo sempre vem” 

(BELCHIOR- Como Nossos Pais)

Segundo a Oxford Languages, o termo “Saudosismo” é a “tendência, gosto fundado na valorização demasiada do passado.” Não só uma simples preferência pelo outrora, o saudosismo é uma constante entre todas as gerações do homem que já passaram pelo planeta. Pode ser encontrado em todos os lugares do mundo, em todas as circunstâncias possíveis, em conversas com pessoas de todas as idades imagináveis. A frase: “bom mesmo, era antigamente” é provavelmente o provérbio mais repetido durante a história da aventura humana nesta Terra. Na maioria das vezes, recitado de forma inocente, pode ser normal que sintamos saudade de como as coisas eram no passado; É natural que o ser humano seja resistente a mudanças. Porém, o que fazer quando um ditado que pode parecer inofensivo, e um sentimento de apego ao passado tornam-se uma poderosa ferramenta de manutenção das desigualdades e do status quo

Primeiramente, deve-se entender a origem do sentimento saudosista. Como foi supracitado, o ser humano tem uma tendência a resistir a todo tipo de mudanças em sua vida, principalmente conforme envelhece. Quando somos bebês, nosso cérebro está fazendo milhares de ligações nervosas novas a cada instante, por isso, temos uma maior probabilidade de testar algo novo, seja esse “algo” provar uma fruta diferente, ou colocar o dedo na tomada. De acordo com a resposta obtida pelos sentidos ao realizar a experimentação, nosso cérebro aprende que sinapses levaram-nos a resultados positivos, e torna essas sinapses em hábitos. Ao passo que envelhecemos, temos uma propensão a tomar apenas os mesmos caminhos nervosos, realizar apenas as mesmas sinapses. Já se perguntou por que idosos acordam todos os dias no mesmo horário, cumprem sua rotina religiosamente, com os mesmos hábitos que repetem há décadas? Seus cérebros já estão condicionados com suas respectivas manias e vícios. Essa questão humana é puramente evolutiva, visto que foi necessário em nossos antepassados filogênicos a capacidade de distinguir, através da experimentação, quais hábitos ajudariam a sobreviver, podendo assim dar continuidade à espécie.

Portanto, é razoável estabelecer que a saudade do pretérito é uma tendência natural, e até mesmo saudável do ser humano. Porém, é necessário diferenciar o conceito de nostalgia, que representa essa saudade saudável, do saudosismo. Enquanto a nostalgia pode até fazer com que cada geração sinta ter vivido em um tempo mais especial que a seguinte (e isto não é errado, e sim um direito que cada geração tem de acreditar ser a melhor), o saudosismo cega as pessoas para a realidade em que vivem, e é transformado em uma ferramenta política para alimentar sentimentos retrógrados e manter as desigualdades sistêmicas que sustentam o poder da classe dominante. O saudosismo é uma espécie de nostalgia anabolizada pela intolerância, que automaticamente classifica qualquer mudança na sociedade como “degeneração”, “libertinagem”, ou ainda com o termo preferido da velharada brasileira, “inversão de valores”. 

É importante entender como as elites fazem uso do saudosismo para seu benefício. Não é incomum notar que manifestações antidemocráticas no Brasil, mais do que corriqueiras no clima fascistóide que tomou conta da política nos últimos anos, são patrocinadas por grupos do agronegócio, por exemplo. “O que latifundiários ganham com isso?”, pode-se indagar. Simples, apesar de possuírem a mais influente bancada no congresso, o Agro vê como um empecilho as instituições democráticas, que asseguram os direitos dos indígenas sob suas terras (ou pelo menos deveriam fazê-lo), e freiam os esforços de desmatamento e transformação da Amazônia em pasto. Sem um aparelho democrático, seria muito mais fácil para esse grupo “passar a boiada”, como diria o ex-ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e realizar diversas reformas que contribuiriam ainda mais para a concentração fundiária no Brasil. Logo, os donos do agronegócio incitam, através do patrocínio de canais de comunicação conservadores, um saudosismo enraizado no período em que o Brasil não teve barreiras democráticas que freassem o Agro: o período da Ditadura Militar. Os meios de comunicação, como sites e blogs, que são patrocinados levantam bandeiras de conservadorismo e políticas públicas neoliberais, quando na verdade, o que realmente defendem é uma volta à República Oligárquica do Café com Leite. Desavisados, a população mais idosa (já insatisfeita com as mudanças sociais ocorridas, pois afinal, bom mesmo era em sua época) muitas vezes, adere a essas bandeiras, sem perceber os interesses pérfidos por trás dos ideais, e acabam por defender atrocidades como uma “Intervenção Militar”, em nome dos “bons costumes”, tornando-se assim pura massa de manobra para quem não quer para o Brasil nada senão que ele se torne uma Republiqueta de Bananas. Ou como podemos chamar à brazilian, Republiqueta de Commodities.

Não só a elite agropecuária, mas diversos outros setores burgueses (setor bancário, industrial, religioso) utilizam-se e fomentam o saudosismo na população para preservar ou retomar sistemas que mantenham sua posição de poder dentro da sociedade brasileira. Isso acontece porque, na medida que o tempo passa, é natural que uma nação acorde cada vez mais para as desigualdades vigentes. Não é à toa que Marx considerou o socialismo como eminentemente inevitável. Não pode-se impedir, ainda mais num mundo globalizado como o hodierno, que os cidadãos percebam as injustiças, e se indignem. O que as elites brasileiras tentam fazer, a todo custo, é utilizar do saudosismo para postergar o descontentamento geral que irá abalar as estruturas da Democracia Burguesa em que vivemos, quando todo o povo brasileiro, enfim, se conscientizar.

Como pode-se, então, analisar as mudanças na sociedade sem a ótica ignorante do saudosismo? 

Deve-se estabelecer um debate sincero e franco sobre a realidade de cada geração.  De fato, os anos 60 devem ter sido do balacobaco. Um movimento mundial pela liberdade, avanços científicos nunca antes vistos e um otimismo sobre o futuro que só poderia existir num mundo que não conhecia as palavras “aquecimento global”. Mas, também, deve-se reconhecer que, caso não se vivesse essa década como um homem branco cisgênero e heterossexual, provavelmente as coisas não seriam tão fáceis. O mesmo vale para os anos 70 e 80, que ainda somam uma ameaça de guerra atômica e uma epidemia de um vírus implacável como o da aids. Os anos 2010, por sua vez, apresentam um ambiente muito menos preconceituoso, apesar de ainda guardarem resquícios da mentalidade do milênio passado. Todavia, as redes sociais tomaram conta da vida do indivíduo moderno, de maneira que se torna cada vez mais difícil manter a integridade de sua privacidade. Cada geração vive um momento efêmero e singular, que só ela mesma pode compreender. É necessário, todavia, que todas as gerações aceitem a efemeridade e singularidade do momento vivido pelas outras gerações. Todos devemos poder fazer uma análise crítica e objetiva da realidade vivida em cada época, para que se possa construir um debate realístico sobre os rumos da sociedade nos próximos anos, livre do entorpecimento saudosista.

Começo a crer que: bom mesmo, era antigamente, antes de eu escrever esse texto.

Álefe Nícolas dos Santos de Carvalho, Estudante do terceiro ano do Ensino Médio e escritor jornalístico.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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