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Escrita em movimento: uma re – flexão sobre Água Viva, de Clarice Lispector

 Por Karine Bueno Costa e Pâmela Bueno Costa

Água viva: edição com manuscritos e ensaios inéditos eBook : Lispector,  Clarice, Vasquez, Pedro Karp: Amazon.com.br: Livros

ÁGUA VIDA

Ao som da música de Gal Costa, em Espelho d’água

Eu vi a revoada /
O mar, estrela e o nada
Os olhos da morena /
E o nosso espelho d’água …

“Eu te digo: estou tentando captar a quarta dimensão do instante-já que de tão fugidio não é mais porque agora tornou-se um novo instante-já que também não é mais. Cada coisa tem um instante em que ela é. Quero apossar-me do é da coisa” (LISPECTOR, 1998, p. 13-14) .

Assim termina, ecoando,  Água Viva, 1973,  de Clarice Lispector: “Hoje é sábado e é feito do mais puro ar, apenas ar. Falo-te como exercício profundo de mim. O que quero agora escrever? Quero alguma coisa tranquila e sem modas. Alguma coisa como a lembrança de um   monumento que parece mais alto porque é lembrança. Mas quero de passagem ter realmente tocado no monumento. Vou parar porque é sábado. Continua sábado. Aquilo que ainda vai ser depois — é agora. Agora é o domínio de agora. E enquanto dura a improvisação eu nasço. E eis que depois de uma tarde de ‘quem sou eu’ e de acordar à uma hora da madrugada ainda em desespero — eis que às três horas da madrugada acordei e me encontrei. Fui ao encontro de mim. Calma, alegre, plenitude sem fulminação. Simplesmente eu sou eu e você é você. É vasto, vai durar. O que te escrevo é um “isto”. Não vai parar: continua. Olha para mim e me ama. Não: tu olhas para ti e te amas. É o que está certo. O que te escrevo continua e estou enfeitiçada.” 

Assim, começa nossa reflexão sobre esta obra monumental de Lispector. Pelo fim, que também é começo. E o que queremos agora? Escrever, movimentar as palavras, não temos nenhuma direção, estamos fluindo… indo ao encontro de nós mesmas.

Escrever sobre o instante já,  sobre a captura imagética por meio das palavras. Sobre o é da coisa. Pode uma arte captar o aqui- agora? Em Água Viva, há essa tentativa de descobrir o mistério por baixo das letras e criar uma arte plástica com palavras, assim como profana a epígrafe do livro:  “Tinha que existir uma pintura totalmente livre da dependência da figura — o objeto — que, como a música, não ilustra coisa alguma, não conta uma história e não lança um mito. Tal pintura contenta-se em evocar os reinos incomunicáveis do espírito, onde o sonho se torna pensamento, onde o traço se torna existência” (Michel Seuphor). 

Clarice, portanto, por meio das palavras, alquimista,  pinta o indizível e inefável. Um  livro como daqueles que despertam o gozo e te tiram do equilíbrio, como teoriza Barthes, e você como leitor e  leitora precisa achar um ponto de reflexão externo, para curar-se da vertigem que a escrita provoca. E no silêncio entrecortado:  “o  que atrapalha  ao  escrever  é  ter  de  usar  palavras”, e no anseio de dominar o instante já, no reflexo da página, no grau zero que Barthes denomina, há o silêncio que entre as palavras,  conecta a vida real à ficcional, e o que escreve continua, externa além de si e das palavras, conecta à  vida, transforma-se em obra.  Uma alquimia, pura bruxaria, e ficamos enfeitiçadas. 

Um olhar de Narciso sobre a tela, sobre o livro, que entre as margens torna-se água:  água viva. E como leitores mergulhamos nessa imagem refletida, um aniquilamento para desvelar essa quarta dimensão, que foge e também nos deixa submerso, na busca pelo inatingível. No silêncio, tenta-se captar  o instante já: “Esse texto que te dou não é para ser visto de perto: ganha sua secreta redondez  antes  invisível  quando  é  visto  de  um  avião  em  alto  vôo.  Então,  adivinha-se  o  jogo das ilhas e veem-se os canais e mares” (LISPECTOR, 1998, p. 60). Barthes, em O prazer do texto, fala de uma escrita em voz alta, é assim a escrita de Água Viva, um monólogo de quase gritos: com ecos. E submersos na linguagem, sobrevoamos e mergulhamos em um fluxo de consciência, de filosofia da linguagem, entre o grito e o silêncio, entre Eco e Narciso. 

Nessa água pulsante que se torna a palavra, não à toa, o título original da obra era “Objeto pulsante”, há o é da coisa: “Minha história é de uma escuridão tranquila, de raiz adormecida na sua força, de odor que não tem perfume. E em nada disso existe o abstrato. É o figurativo no inominável”. Sem enredo, sem espaço, sem tempo, é  flutuante. Um fluxo constante do Devir. 

A protagonista expõe o fluxo dessa tentativa de pintar com as palavras, de atingir a imagem do reflexo, a liberdade de ser: “Vou te fazer uma confissão: estou um pouco assustada. É que não sei onde me levará esta minha liberdade. Não é arbitrária nem libertina. Mas estou solta” (1998, p. 37).  Além de protagonista é a voz do texto, e essa narradora não está presa a um tempo. Perdida no tempo, na escuridão, no silêncio, apresenta aspectos cronológicos: “Hoje é noite de lua cheia” (LISPECTOR, 1998, p. 36), que pode ser qualquer quando, qualquer dia. Inclusive, na alquimia, pode ser agora, enquanto esta escrita se faz. Sincronias de Clarice. 

E escreve a quem? A um ex-amor ou a um leitor ou a uma leitora?:  “Você que me lê me ajude a nascer” (LISPECTOR, 1998, p. 47). Nascer em flor como narciso, em pura liberdade de ser, despertando a raiz adormecida das páginas do livro, no silêncio entre as palavras, no inominável, nasce  a água viva, água ilusória que cria a fantasia e como ouvintes mergulhamos nessa escrita tão profunda, e nessas águas pulsantes renascemos… no instante já da coisa. 

Como provocação, quais são as três experiências que nascemos para fazer? (Crônica As três experiências, de Clarice Lispector). Como Clarice: escrever, ser mãe e também amar? Da mesma forma, como as flores brotam em diversos lugares, têm diversas cores, sabores, cantos e encantos,  somos mulheres flores, rosas: “o modo de ela se abrir em mulher é belíssimo” (CLARICE, 1998, p. 57). Como cravos, girassóis, violeta, orquídea, margarida, tulipa, jasmim, estrelícia, gerânio, a vitória-régia, crisântemo: brotamos. Em lugares diversos em momentos diversos: temos nosso próprio tempo para nascer. Temos tempo para fluir.  

Nesse sentido, trata-se de  uma escrita que não é para ler,  mas ser. E só de passagem, nessa travessia, tocamos no monumento que é essa obra. Mas, há algo que fica, permanece e lateja em nossas almas, o coração continua pulsante: estamos vivas e o agora é um instante. Assim começa … assim continua… porque “essa história é continuação”, sem começo e nem fim… o silêncio ecoando nas margens: água viva.  Sou-me. O que somos: “sou um coração batendo no mundo” (CLARICE, 1998, p. 36). E nessa pulsação, a vida acontece, é mistério e acontecimento. O agora é dia feito, e novamente domingo! Do que são feitos os dias? Os instantes que vivemos? Memórias e não memórias, as palavras como imagens “eu vejo palavras” e os pensamentos nos consomem, mas não conseguimos agarrá-los. Como capturar aquilo que fica atrás do pensamento?  Os instantes tão fixos, mas que de repente morrem e nascem novamente. O agora é a pintura da vida: estar viva, isso é tudo.  

Escrever como quem aprende, desse modo,  caminhamos e mergulhamos nessa água vida, para viver sem ensaios, mas no improviso. Ardendo pela angústia da vida sendo, tremendo com os instantes que nos consomem. A vertigem do instante: fotografar o instante. Como Manoel de Barros, na tentativa de  capturar o silêncio, nos indagamos: “como capturar o instante já”?.  Assim, clariceando nos entregamos à travessia que toda arte proporciona. 

No ritmo, na gira da música, a escrita de Clarice é como uma melodia, composta por variadas notas musicais. Acompanhando e equilibrando-se na escrita, música, pintura: “jazz em fúria, improviso diante da plateia” (CLARICE, 1998, p. 23). Como dar vida para uma pintura? Misturando com as palavras: “substituir a tinta por essa coisa estranha que é a palavra” (CLARICE,1998, p. 23). Ou como quando diz:  “Sei o que estou fazendo aqui: conto os instantes que pingam e são grossos de sangue” (CLARICE, 1998, p. 23). Nesse viés, mergulhamos em uma cena: “mergulho na quase dor de uma intensa alegria”.  Viver a experiência do canto, maravilhoso instante: nascemos e brotamos, e assim, nasce em nós o desejo de capturar o real. Como afirma Derrida: “às coisas mesmas, que sempre nos escapam” (In CAPUTO, Por amor às coisas mesmas: o hiper-realismo de Derrida, p. 44-45). O Real sempre escapa. Nesse prisma, olhar e ver, capturar o que vemos e somos, nos escapa. No movimento de espelho versus mundo: “ Eu sou” é o mundo, e no movimento de formar o mundo, escrevendo a música do ar, conseguimos notas, essas notas nos mostram como há a impossibilidade de despertar o espelho. O mundo é o espelho e, neste, só vemos nós mesmas? Há um mistério,  seja de Oxum a Dorian Gray,  o que  é um espelho? Clarice, nos pinta a definição: “espelho é o vazio cristalizado que tem dentro de si espaço para se ir para sempre em frente sem parar: pois espelho é o espaço mais fundo que existe” (CLARICE, 1998, p. 78). O que vemos quando olhamos no espelho? Além da imagem refletida? E quem somos sem o olhar de outrem. Nesse reflexo, para compreender o que é, temos que olhar e ver a ausência de cor, como na água, insípida . O espelho é o que há, o único material inventado que é natural. A vida começa no fundo do olhar narcísico imagético,  no silêncio e no amor pela imagem  de si ou do outro? Ou ainda como no amor de Naiá por Jaci, renascendo em Vitória Régia, aquática, silenciosa e lunar?

 Nesse fluxo, a realidade escapa, e nesse instante, que já não sabemos mais, mergulhamos: “na quase dor de uma intensa alegria – e para enfeitar nascem entre meus cabelos folhas e ramagens” (CLARICE, 1998, p. 24) – Mulher natureza:  Flor -res-Ser.

 Em processo de travessia, ou atravessamento, no en\tre-caminho, nos re-conectarmos com nós e com o mundo: “Eu me ultrapasso, abdicando  de mim  e então sou o mundo: sigo a voz do mundo, eu mesma de súbito voz única”. E nesse movimento escorremos por caminhos desconhecidos, obscuros, profundos, inefáveis,  além do palpável. 

Vida é jornada em movimento, é preciso coragem no atravessamento. É o talvez, o entre caminho que nutre a travessia, sem buscar certezas para viver a experiência, deixar-se encantar-se com o canto, pois só quem escuta o canto da sereia mergulha para o fundo.Uma das coisas mais difíceis é se entregar ao instante, ao acontecimento, pois, ao tentar capturar, não nos damos conta da vida sendo. Água viva é o canto da sereia, que ecoa e convida a aniquilamento do ego, a calar nossa mente, a fugir do agito ensurdecedor que ecoa o mundo moderno  e ficarmos enfeitiçados pelo som e pela imagem, para ouvir nossa voz e ver nosso eu.  

Afinal, não é assim a vida? Assombradas pelos espectros, mergulhamos, tentando captar o nosso é,  dessa maneira, nosso fim é nosso começo, o que nos move é o pathos: “Só no ato do amor – pela límpida abstração de estrela do que se sente – capta-se a incógnita do instante incontável, maior que o acontecimento em si: no  amor o instante de impessoal joia refulge no ar” (CLARICE, 1998, p. 10). Só o amor e a alegria, como potencialidade da vida, podem nos conectar com o instante e com o mistério. Água viva que pulsa, corre, escorre e move o nascimento do mundo, de nós e da arte. 

Sem fim e nem começo:  apenas continuação… Água Viva nos transborda, nos afeta e nos mostra um mundo, um novo reino.  Experimentamos a água, transbordamos, ficamos vazias de si, assustadas e encantadas com pingos e a tempestade de uma escrita que escorre e inunda nosso ser. Enfim, é no ato de criar,  de ler, de escrever, de pintar, que podemos renascer e morrer em flor, livres, múltiplas no sagrado feminino: úmido,  brotar e desabrochar no mais puro amor pelo fato de sentir a vida pulsar. 

(Texto escrito sem pretensão também em um sábado, com noite de lua cheia, lua azul de agosto).

REFERÊNCIAS

BARTHES, R. O grau zero da escrita. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2004.

BARTHES, R. O prazer do texto. Edição: 6ª. Tradução: J. Guinsburg. São Paulo: Perspectiva, 2006.

CAPUTO, J. Por amor às coisas mesmas: o hiper-realismo de Derrida. In: DUQUE-ESTRADA Paulo Cesar (org.). Às margens: a propósito de Derrida. Rio de Janeiro/São Paulo: Ed. PUC-Rio / Edições Loyola, 2002. 

LISPECTOR, C. Água Viva. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. 

Karine Bueno Costa, Professora de produção textual no Colégio São José-PU. Graduada em Letras: Português/Espanhol. Pós-graduada em Língua Portuguesa e Literatura. Colunista do Factótum Cultural.

Pâmela Bueno Costa, professora de filosofia na rede estadual e particular de ensino – SC. Graduada em Filosofia. Pós-graduada em Ensino da Filosofia. Mestre em Ensino da Filosofia PROF-FILO. Cursando terceiro ano de Letras: Português/Espanhol (UNESPAR). Ilustradora amadora e aprendiz de aquarela. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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Karine Bueno Costa-
Professora de produção textual no Colégio São José-PU. Graduada em Letras: Português/Espanhol. Pós-graduação em Língua Portuguesa e Literatura.
Karine.costa@hotmail.com
42- 999591893

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