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Ao olhar, vê!

Por Eliane Camargo

Estava há alguns dias sem inspiração para lhe escrever. Mas nesta manhã, enamorada com a lembrança de Saramago em seu ensaio sobre a cegueira, me dei conta que escrever é repartir o tempo que as pessoas não veem. Ser escritora ou escritor é reparar nas coisas, nas pessoas e nas cenas “simples” que na correria do dia a dia passam batidas pela maioria dos humanos.

Por isso, quero repartir com você uma dessas cenas, que longe de ser simplória me fez pensar por horas sobre a importância de ver. Não digo olhar, mas de fato ver.

Estava em frente ao computador preparando minhas aulas, quando do outro lado da rua, minha vizinha, ajudada por uma vassoura, apalpava o varal de roupas retirando alguns grampos. Depois com um cuidado maior ainda pendurava peça por peça. O tempo que levou para fazer todo o processo foi maior do que a maioria das pessoas usaria para fazê-lo. Uma cena um tanto estranha, se não fosse pela sua condição, ela é cega.

Era uma manhã de sol… Um dia bonito!

Depois de algumas semanas que não via beleza em nada. O sol tornou-se meu confidente. Atencioso entendia meu estado melancólico e docemente tentava me alegrar. Lá fora, com toda sua poesia, parecia beijar a pele daquela mulher, coisa que só imagino, porque fechada em minha casa não posso dizer-lhe com certeza, quem sabe, ela pudesse lhe responder melhor.

Por alguns instantes pensei em conversar e perguntar a ela, para que pudesse te contar com mais verdade. Perdoe-me se não fiz, mas não quis interromper a cena, me permitindo com um olhar filosófico, somente a observá-la e pensar sobre.

É possível que a frase soe errada, mas a cena me fez perceber isso: Ela não podia sentir o sol refletido em seus olhos, mas podia vê-lo acarinhado pela sua pele.

(Me perdi e me encontrei no tempo que a cena durou. Já não estava triste!) 

E, eu que gosto tanto das cores, de imagens, me questionei: – E quem não enxerga?

Tão logo, o escritor em suas palavras profundas pareceu sussurrar aos meus ouvidos e contrariar meu questionamento superficial: “ Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”. E como Saramago nos faz pensar, a cegueira das pessoas não está na falta de visão, mas na sua própria desumanidade que não as deixa perceber o que está em frente aos seus olhos.

– O que você não reparou hoje? Nas desigualdades do mundo? No olhar de sua filha ou filho? Na mensagem daquela pessoa que te ama? No tempo que poderia ter sido?

(Quem sabe, você leia as entrelinhas e me entenda.)

As pessoas olham para as outras, mas estão tão preenchidas com seus reflexos que não reparam. Estamos “ocupadas/os” demais em postar ao mundo o que olhamos que nos esquecemos de ver, de sentir. Mas é compreensível. Quem vê se inquieta, questiona, se machuca. Quem vê, ainda que não possa, quer mudar o mundo. Quem vê não se encaixa em lugar nenhum.  Este é o preço por tirar as vendas da superficialidade, por sentir demais.

– Sabe! Por vezes eu gostaria de continuar cega. Continuar a ter as crenças que alienam boa parte das pessoas, talvez assim eu tivesse um lugar. (Ah! Como eu queria!) Mas como faz para desver o mundo? Como faz para não sentir? (Eu sei, são perguntas injustas. Não possuem respostas! Seria crueldade pedir que respondesse.)

Reencontrei-me a tal ponto que me entrego à imaturidade das perguntas e já não quero mais as respostas…

Hoje, ao contrário daquela manhã, lá fora o dia está nublado. Mas só de teimosia, contrariei ao mundo e a mim mesma e aqui dentro: o sol se fez!

Eliane de Fátima Camargo, Graduada em Filosofia e Sociologia. Mestre em Filosofia. Feminista. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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Muitas em uma só.

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