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Hatshepsut – a mulher que foi além do que deveria

Por Helayne Cândido

Etnia[R] - Hatshepsut (✩1503 a.C. ✞1482 a.C.)

O ano é 2013, estou em processo de divórcio, moro de favor na casa de uma tia, durmo com meus filhos num quarto onde cabem uma cama e um colchão e choro durante a madrugada pela incerteza que tinha do futuro, pela situação de tirar meus filhos do conforto de seus quartos, mas com a certeza que um dia olharia para trás e sorriria.

Neste mesmo período, curso licenciatura em História e ao realizar um trabalho de uma disciplina sobre África, me deparo com o nome Hatshepsut – uma mulher. Pois bem, me debruço sob a pesquisa. E é esta mulher que trago para vocês hoje, em minha escrita. Transcrevo para vocês parte dela.

Quando voltamos nosso olhar para a história do Egito, logo nos vem à mente as fabulosas pirâmides, suas técnicas de mumificação e seus grandes faraós. As mulheres geralmente, são lembradas por sua exuberante beleza e por seu papel como grande esposa do faraó. Porém, uma mulher desejou ter seu nome gravado na história, e foi além do que deveria.

No século XV a.C., na região de Tebas, nas proximidades do Chifre da África, nasceu uma mulher que teria seu destino marcado para além da função de apenas ser a rainha do faraó. Seu nome era Maatkara Hatshepsut (1508 – 1458 a.C.), herdeira legítima do trono deixado Tutmósis I, seu pai, que a preparou para assumir o reino. A relação entre eles era muito forte.

A figura da mulher no antigo Egito era de pontual influência: o auge de suas vidas seria ser mãe desse ou daquele faraó, esposa de um homem importante, sendo dançarinas ou exercendo suas funções em atos fúnebres, por exemplo. Mas, Hatshepsut foi além! 

Seu pai, Tutmósis I, que deu início a era do ouro e governou o Egito durante a 18ª dinastia (1506 – 1493 a.C.), teria expandido seu império até a Mesopotâmia, deixando grandes realizações. Ao falecer, não tinha filhos homens legítimos para assumir seu cargo, então Hatshepsut seria sua herdeira direta. Mas o destino lhe pregaria uma peça. Seu pai teve um filho fora do casamento e este não poderia assumir o trono, por não ser um filho legítimo. Seu nome era Tutmósis II.

Desse modo, foi celebrado o casamento entre Hatshepsut, aquela que carregava o sangue real e seu meio – irmão, para fazer jus a sua ascensão. No pensamento egípcio, não era concebível a ideia de uma rainha-faraó, então era necessário unir o sangue do meio-irmão com aquela que carregava o sangue legítimo.

Hatshepshut, ainda uma adolescente, torna-se então, rainha – faraó. Quatro anos mais tarde, Tutmósis II morre em uma batalha (1479 a.C.) e a história se repete. Ele deixa um herdeiro fora do casamento, fruto de um relacionamento com uma de suas concubinas. Na época a criança tinha três anos e se chamou Tutmósis III.

Por ser ainda uma criança, Tutmósis III fica sob a guarda de Hatshepsut, que além de cuidar de sua educação, se torna regente e fica encarregada dos assuntos do império. Tutmósis III é encaminhado ao Templo de Amon, pelo tempo necessário para se preparar para assumir seu reino, quando se tornasse adulto.

Durante esse período, Hatshepsut cuida das questões administrativas e proporciona relativa paz para seu povo, estabeleceu relações comerciais com Punt, efetuando compras de materiais como marfim e incenso, mas era como se não existisse uma figura central, pois ela era mulher e Tutmósis III, uma criança.

Enquanto Tutmósis III crescia, Hatshepsut restaurava monumentos, entre eles o Templo Deir el – Bahari, com registros de sua história de vida, para que seu povo e as futuras gerações tivessem acesso e conhecimento sobre ela. Construiu quatro obeliscos no Templo de Amon, em Karnak, que são verdadeiros documentos históricos que contam a construção do poder de uma mulher no Egito antigo.  

Durante sete anos, todas as decisões envolviam o nome do pequeno Tutmósis III, mas chega um momento que Hatshepsut resolve dar um basta nessa situação de ser sempre coadjuvante e se proclama Rei – feminino. Ser “rainha” implicava ser submissa ao rei e no seu caso, sendo herdeira legítima de seu pai, esse reino que por vezes lhe escapa por ser mulher, é tomado como seu por direito.

Ela buscou respeito entre os homens, inclusive abrindo mão de sua figura feminina e adotando uma barba postiça e usando calças, para que durante os encontros oficiais, fosse respeitada. Mas apenas isto não bastou. Ela precisava encontrar uma maneira para legitimar sua posição, tendo em vista que os faraós eram considerados deuses na Terra, Hatshepsut trata de deixar registrado em vários monumentos e pinturas, como ela teria sido escolhida para ser faraó.  Fato que teria acontecido durante sua concepção.

A mulher era considerada aquela que carregava o sangue real e o caráter divino dos reis era transmitido pelas mulheres. Outra questão importante era a parte religiosa, por meio da Teogomia, onde deus teria pessoalmente gerado seu filho. Eis a justificativa que Hatshepsut precisava. Ela então se apresenta como filha de Amón Rá, que representado por Tutmósis I, teria estado com sua mãe e gerado sua vida, que foi concebida em meio a um intenso perfume de incenso. Talvez aqui, o motivo de sua forte ligação com Punt. Amón-Rá teria dito a sua mãe que ela daria à luz uma menina que governaria o Egito.

Esta explicação pode ter sido bem aceita pelos sacerdotes devido ao fato que durante seu governo houve paz e tranquilidade. Os sacerdotes deveriam pensar que se algo estivesse errado, os deuses lhe avisariam com alguma catástrofe. E assim, se seguiram os anos.

Considerado um Napoleão da época, Tutmósis III cresceu e após a morte de Hatshepsut, ele manda que destruam todos os registros de seu governo, mesmo os que ele também aparecia. Tudo que lembrasse o nome da mulher que ousou ser faraó, foi destruído. Talvez, ter registrado nas paredes do templo que uma mulher teria administrado com tamanha eficácia o país, do qual agora ele era o chefe, não era algo bem compreendido por ele.

Tutmósis III, assim como tantos outros homens que tentam esconder nossos feitos, foi infeliz. Por volta de 1908, foram encontrados os primeiros indícios da múmia da mulher que desejou ser sepultada no Vale dos Reis, e desde então, muito se tem desvendado acerca dos mistérios e da história de vida dessa mulher.

Para alguns historiadores, Hatshepsut é entendida como uma usurpadora ou oportunista, mas se olharmos a história por outro ângulo, percebemos que ela foi uma mulher que foi além de seu tempo e que ousou tomar as rédeas de sua vida. Vale ressaltar que a história foi por anos e anos, escrita por homens. Que esses homens viveram em contextos históricos machistas, em que não era possível para eles, conceber uma mulher sendo protagonista de sua vida, quiçá, governando um país. Nesse sentido é mais fácil tratar de seus feitos com menosprezo. 

Por longos anos, essa mulher e seus feitos estiveram adormecidos. Conhecer sua história é perceber que ela foi uma entre tantas mulheres que deixaram seus nomes gravados na história. E por maiores que tenham sido as tentativas de apagar sua existência, a história registrada nos pequenos detalhes é implacável. Sim! Mulheres foram personagens importantes durante várias fases da história da humanidade, e suas contribuições embora tentativas de apagamento, foram inúmeras.

Finalizando, transcrevi para vocês parte da minha pesquisa numa época em que me vi, como Hatshepsut, assumindo as rédeas da minha vida. Hat, como carinhosamente a chamo, foi uma inspiração por continuar, por buscar forças onde eu não tinha. Talvez minha identificação com ela tenha se dado ao fato de sua ligação com seu pai, algo que também tenho e por ela lutar bravamente por seu direito de existir para além do que a sociedade esperava dela. Conhecer sua história e escrever sobre ela é perceber as pequenas lutas diárias que enfrentamos pela afirmação de nossa existência, para além de meras coadjuvantes. E isto ocorre por anos.

Você consegue perceber o quanto de atualidade tem as vivências de Hat?

Olhei para trás e sorri…

Helayne Cândido é Professora de ensino fundamental. Graduada em Pedagogia e História. Pós graduada em Psicopedagogia e Psicomotricidade e Artes. Mestranda pelo Pro-filo, pesquisa filosofia e infância. Uma pedagoga apaixonada por história a se aventurar no mundo da filosofia.  

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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