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Tudo bem não estar bem

Por Illyana Magalhães

Mudança de vida, como fazer? 🤔 | Lifestyle Strategy | Ian Borges

Ao som de ‘’We are the champions’’, do Queen, eu limpava o banheiro da casa mais próxima. O ‘’mop’’ (item de suma importância na limpeza britânica), que até então seria para limpar o chão, serviu-me como um microfone. E eu dançava no banheiro masculino, mexendo os pés imitando o Freddie Mercury na sua mais singular performance. Foi incrível sentir essa sensação de imensa alegria, mesmo fazendo algo que me é extremamente incomum. Afinal, eu ocupava uma função de advogada e mudei para outra, completamente distinta.

Vou relatar a minha experiência e espero que lhe seja útil. No começo foi difícil sair do patamar anterior, ainda que medíocre, e me despir dessa veste de advogada interiorana com alguns títulos também medíocres. Para ser honesta, até ontem eu validava os meus relacionamentos a partir do nível de ‘’inteligência’’ do cidadão, nível esse que era medido através do currículo lattes. Sim, leitores, eu cometia essa tremenda burrice. Felizmente, com as análises de consciência que a solidão me proporciona aqui, pude rever quase que integralmente as minhas crenças e predileções.

Até ontem estive sentada em boas mesas, sendo chamada pela alcunha que eu detesto de ‘’doutora’’, com o ego inflado, conversando com pessoas que desfrutavam das mesmas condições que a minha. Hoje, mesmo não desfrutando do que ontem desfrutava, sinto-me muito mais realizada. Eu não precisava do título, não precisava da função que colocava alimento na minha geladeira. Eu precisava de pouco e talvez você também precise.  

E então, eu pergunto a você: o que você precisa? O que você precisa para ser feliz? Eu, Illyana, preciso de livros, de cultura, preciso de pessoas interessadas pela vida e por cultura e de paz. Todas essas coisas eu já tinha no Brasil (bom, nem todas), mas confesso que tais exames de consciência que me fizeram alcançar o resultado final só me foram proporcionados estando fora do país.

Embora tenha relatado sobre a minha insatisfação acerca da imensa quantidade de leituras inúteis nas quais fiz, não posso desconsiderar que algumas me foram importantes e aqui incluo um parágrafo de Drummond que reflete muito bem o que quero dizer. Vamos lá:

Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.”

Eu sempre via esse texto na biblioteca de Colatina. Ele ficava justamente na minha frente, como se estivesse esperando o momento certo para surtir efeito. E, veja bem, ele fez. Assim como a maioria do conhecimento que adquiri até o momento.

As roupas que você veste hoje lhe são uteis ou será preciso despir-se para, então, sair da margem de si mesmo? Sendo mais clara: a travessia foi feita? A minha foi fundamental. Hoje, inclusive, não posso dizer que sou a mesma pessoa que cruzou o oceano para chegar até a Europa**.

Não posso afirmar que seja uma travessia completamente feliz, pois o amadurecimento requer sofrimento. E, está tudo bem não estar bem o tempo inteiro. O importante é não ser inerte frente a essa insatisfação. Afinal, algo precisa ser feito e isso depende unicamente de ti.

Faltou-me, e eu descobri isso precocemente, um diálogo sincero com meu ego frágil. Hoje, felizmente, não necessito de nada que não seja bons amigos, bons livros, cultura e paz.

Espero que meu texto tenha sido útil no sentido de você utilizar a minha experiência para rever a sua vida e evitar dissabores. Quem sabe futuramente você não esteja dançando assim como eu e possa capitalizar os lucros dessa empreitada sendo sósia do Freddie Mercury? Nunca se sabe. heheeh

** Quando coloquei os pes no Reino Unido, ela ainda fazia parte da Europa. Hoje nao mais. Eis o motivo dos asteriscos.

Illyana Magalhães é advogada, aspirante a filósofa e escritora. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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