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Por uma Filosofia de Cozinha: conhecendo Sor Juana

Por Liliam Beatris Kingerski

Enquanto escrevo…

Entre papéis bagunçados sobre a mesa da cozinha, a qual se encontra entre o guarda-louças e o fogão, em meio aos azulejos pálidos que perpassam a parede, que meus pensamentos vão ganhando forma, os rabiscos vão criando contornos no papel…

É aqui o meu espaço, é aqui que também faço Filosofia!

Em pensar que os filósofos clássicos antigos faziam suas filosofias e desenvolviam seus pensamentos, embrenhando-se numa busca constante por conhecimentos, em praça pública; era na ágora, a praça central da cidade, através do diálogo e da discussão, que o cidadão da pólis tinha o direito à palavra e assim podia se manifestar; enquanto que, os outros, os excluídos deste processo, não podiam sequer participar dessas discussões, a maioria da população não eram considerados cidadãos e portanto não podiam falar naquele espaço…as mulheres faziam parte deste grupo marginal e sem voz, esse grupo praticamente inexistente.

Me pergunto:

-Quem tem direito a falar? Onde podemos fazer Filosofia?

O boteco é um bom lugar para as reflexões fluírem, por vezes entendemos esse lugar como sendo o da conversa, onde o diálogo perpassa livremente as fronteiras da racionalidade, onde entre um gole e outro, as palavras ganham um sentido de embriaguês para além dos muros das academias…O espaço já ganhou até o adjetivo onde pode-se praticar o que conhecemos atualmente por “filosofia de boteco”!

Enquanto escrevo, não pode faltar a xícara de café, nesta cozinha enfadonha penso:

-É possível fazer filosofia onde quisermos? Se é que tem um lugar determinado para que isso ocorra! É possível uma filosofia de cozinha? Enquanto livre pensar e ato de reflexão, de questionar a realidade, podemos filosofar na cozinha?

As questões não cessam: -Quantas mulheres usaram a cozinha para pensar a Filosofia? E quantas, usaram desse espaço para a reflexão, afinal a Filosofia está para além das fronteiras que determinamos.

Visto que não podemos esquecer que provavelmente boa parte das filósofas que conhecemos cozinharam…e que ainda, não podemos dissociar a cozinha do pensamento.

Atualmente, com a Pandemia, e devo me posicionar enquanto mulher, as tarefas acabam se misturando e a por aqui, estudo, enquanto participo deste ambiente, que exige muita imaginação e criatividade.

E mesmo que compreendamos que esse espaço já foi considerado um espaço de opressão feminina, é comum ouvir a frase “Lugar de mulher é na cozinha!!!”, parece que este espaço está constantemente sendo associado às figuras femininas, enquanto que espaço que priva mulheres de alcançarem outros espaços considerados intelectuais.

-Mesmo que não seja para cozinhar, lá me encontro todas as tardes para estudar, para escrever, pensar e filosofar…

Preciso afirmar que é necessário pensar muito e exercitar a criatividade nesse espaço!

Nessa semana, através do projeto “Uma Filósofa por Mês” me deparei com os escritos de mais uma mulher, Juana Inés de Asbaje, mais conhecida como Sóror Juana Inés de la Cruz, nome adotado após ter seguido o caminho da vida religiosa, primeiro com as Carmelitas, depois na Ordem das Jerônimas.

Filósofa e poetisa mexicana, nascida em 1651; trata-se de mais uma voz de mulher que chegou até nós, da qual muito pouco ainda se conhece e o pouco que sabemos perpassa as barreiras do tempo em que viveu, desafiando a sociedade patriarcal da época, que desde sempre atribuem às mulheres papéis que restringem sua liberdade…casamento era uma dessas funções, enquanto que uma mulher que quisesse ler e escrever, não servia para a sociedade.

O enclausuramento foi sua escolha para fugir das cobranças constantes que pairavam sobre a figura feminina; Juana, apaixonada pela leitura desde muito cedo, com apenas três anos aprendeu a ler e aos seis começou a escrever poemas; passava horas a admirar os livros da biblioteca do avô materno, foi alí que sua paixão aflorou, passando a ler os clássicos e a teologia. Aprendeu latim praticamente sozinha; conta-se que, ainda pequena, ficava escondida para ouvir as lições recebidas por sua irmã mais velha, ficando profundamente indignada por saber que as mulheres não eram aceitas nas universidades; um dia chegou a pedir para a mãe a vestir com roupas masculinas para que pudesse estudar; esse episódio demonstra o quanto ela tinha consciência dos privilégios dos homens.

Sor Juana, lutou arduamente contra as correntes que a aprisionavam e desde cedo buscou ser ela mesma, tudo o que queria era estudar; e se casar era a única coisa que não queria; no convento ela conseguiu ter seus livros, de valor inestimável e o silêncio que precisava para escrever seus poemas e cartas…. tudo o que sabemos sobre ela estão nestes documentos, que traduzem sua vida, numa escrita de si.

Em 1690, o bispo de Puebla, sobre o pseudônimo de Sor Filotea publicou, sem permissão de Juana, uma crítica ao padre António Vieira; ele usou o texto dela para seu benefício e por acreditar que, por ela ser mulher, ela deveria se devotar às orações e não à escrita e ao pensamento.

Juana escreveu uma carta, onde defende o direito das mulheres à educação, valorizando o ato de cozinhar, e o quanto aprendia enquanto fazia isso:

Então, o que eu poderia lhe contar, senhora, dos segredos naturais que descobri enquanto cozinhava? Veja que um ovo se junta e frita na manteiga ou no óleo e, ao contrário, parte a calda; Para observar que, para que o açúcar permaneça fluido, basta adicionar uma parte muito pequena da água em que o marmelo ou outras frutas ácidas estiveram; ver que a gema e a clara do mesmo ovo são tão contrárias que, naquelas que servem açúcar, cada uma serve por si mesma e juntas elas não. Por não me cansar desses calafrios, os quais me refiro apenas a dar notícias completas do meu natural e acho que vão fazer você rir, mas, senhora, o que podemos saber, além de filosofias de culinária? Lupércio Leonardo disse bem, que você pode filosofar e vestir o jantar. E eu costumo dizer vendo essas pequenas coisas: Se Aristóteles tivesse ensopado, muito mais ele teria escrito. ” (De La Cruz, 1979, p. 74) [1]

Entre as tarefas que lhe foram confiadas no convento, estava a de preservar a memória gastronômica do convento de San Jerónimo. Sor Juana demonstra em seus escritos poéticos e em suas cartas o quanto a filosofia se encontra presente no cotidiano, o quanto a escrita deve ser saborosa…

Sor Juana e tantas outras das mulheres que leio, como Virginia Woolf (mulher que escrevera seus pensamentos na sala de estar), buscavam, o que todas nós também buscamos… um teto todo seu…um espaço para pensar, estudar, escrever em paz!

Sor Juana morreu aos 43 anos, após ter sido punida por sua escrita ousada, perdendo sua biblioteca, seus instrumentos musicais, e dentre outras coisas, suas convicções e sua fé…o amargor da sua dor é o que resta!

As escritas de Sor Juana têm sabor de coragem!  As informações referentes a ela aos poucos vão sendo desveladas.

Fica o convite: tomar um café, escrever, conversar…a cozinha pode ser esse espaço!


[1] De la Cruz, SJI (1979). Resposta a Ir. Filotea. Barcelona: Ed. Grupo Feminista de Cultura, Laertes.

Liliam Beatris Kingerski é professora de filosofia. Graduada em Filosofia, História e Sociologia, com pós-graduação em Política e Sociedade, História e Sociedade. Mestranda do programa PROF-FILO da UNESPAR. Pesquisadora da Filosofia Feminista, apaixonada por escritas de mulheres e Filosofia. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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