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O tempo sobre a mesa

Por Gisele de Souza Gonçalves

Família dos desenhos animados, sentados ao redor da ilustração da mesa |  Vetor Grátis

Eu tenho gostado de revisitar minhas memórias. Relembrar a infância. Observar melhor os momentos. Quero contar aqui algo que aconteceu há uns meses e que registrei para quando pudesse rever e compartilhar. O processo da escrita é algo complexo e metódico, gosto do que nos conta Bartolomeu Campos de Queirós: “Para mim, o mais difícil é registrar, gravar a primeira frase. Nela reside o tom que procuro dar ao discurso” (QUEIRÓS, 2019, p.75). Acredito que o primeiro passo, o primeiro contato, o primeiro dia de trabalho é sempre um desafio, como a primeira linha do texto que construímos.

E sobre o que registrei há dias: a primeira vez que me arrisquei a fazer um pão. Nunca havia tentado fazer porque sempre achei um alimento muito perfeito para minha capacidade distorcida de elaborar. Descobri com o tempo que pensar assim é por si uma distorção de mim mesma. Ainda que um pão não seja perfeito, ele será sempre um pão, o processo de tentar vale a pena. Seus ingredientes, suas etapas e sua mistura me fizeram contemplá-lo ainda mais. À medida que é sovado, sua textura muda; à medida que se lança a farinha, ele agradece com a massa cada vez mais lisa.

O cheiro, o movimento, o pedido da minha filha em volta da mesa – “deixa eu fazer?” – me fizeram voltar ao passado. Minha mãe fazia pães caseiros lindos. Eu, minha irmã e meu irmão ficávamos assistindo a todo o espetáculo até que a nossa mãe colocava o pão para crescer. Nós brincávamos que eles eram bebês enrolados. Minha mãe reforçava: “não pode mexer enquanto estão descansando”. Nós ríamos porque parecia que ela falava sobre gente e não sobre pão. Os pães pareciam pessoas das mais sérias qualidades.

Lembro-me de que, ainda quando criança, minha mãe e minha tia – que, como mais de 500 mil brasileiros, se foi na pandemia –pensaram em fazer pastéis para vender na região, aqui da cidade, onde tem a fronteira com o Paraguai, na época, nós dizíamos que elas iam vender os pastéis “lá na ponte”. Quem conhece Foz do Iguaçu sabe que entre as duas cidades fronteiriças há uma ponte chamada “Ponte da Amizade”. Hoje, acho um nome poético, naquela época, eu achava que era porque lá só existiam pessoas amigas. Então nós passávamos a ser quatro crianças, porque meu primo vinha com a tia. Nós gostávamos de ver a mãe e a tia abrindo a massa com uma garrafa bem lavada. Não podíamos pôr o dedo nela porque seria o rolo que não tínhamos em casa. Naquela época, por um tempo, substituímos o espetáculo do pão pelo do pastel. Não lembro bem se a ideia de vender pastéis durou muito, mas lembro que os pastéis sim. Um dia, minha mãe disse: “está chegando o seu aniversário”. Eu perguntei se teria bolo, ela respondeu: “não, vai ter pastel”.  Foi a melhor tarde: uma mesa cheia de pastéis, rodeada por mais três crianças da vizinhança, minha mãe e a tia.

Depois de um tempo, apareceu um cilindro, não lembro exatamente como foi a aquisição: se foi comprado ou se foi doado. Minha mãe e a tia ficaram alegres. Não era tão bonito ver a massa se abrindo com o cilindro como espalhada na mesa com a garrafa, mas era muito mais prático para elas e isso foi bom. Elas riam muito mais, cansavam menos. Era muito trabalho: cuidar de nós e fazer os pastéis, entre outras coisas. Meu pai e meu tio – que também se foi pelo mesmo motivo que minha tia – trabalhavam no comércio o dia todo, chegavam à noite. Eram tempos difíceis, mas nós, crianças, ríamos sempre. No fundo, nós quatro não percebíamos tanto as dificuldades porque elas eram naturalizadas, afinal nossos avós passaram por privações maiores, e nós brincávamos demais para perceber o cansaço dos adultos. Hoje sabemos mais sobre o antes porque vivemos outras experiências que nos permitem entender sobre nossa realidade.

E que realidade: temos uma pandemia que nos assusta; ações que nos revoltam; não temos o tio e a tia, assim como muitos que também perderam alguém neste período – gostaria de usar um adjetivo para ele, mas já não encontro, deixo para quem ler pensar em algum.

E eu pensei nisso e em tantas outras coisas fazendo o pão, que não é gente, mas movimenta muito o tempo e as memórias de tanta gente. Para dizer “até”, uso as palavras de Bartolomeu de novo: “Esse percurso exige paciência, escrever e reescrever, dar tempo ao texto para que ele me faça amadurecer diante dele. Muitas vezes, o que escrevo hoje eu não vou estar de acordo na manhã seguinte” (QUEIRÓS, 2019, p.75), e esta construção, reconstrução e desconstrução em nós é que nos movimenta, como o pão que se constrói em tempos diferentes, por mãos diferentes e continua sendo um pão.

Referência

QUEIRÓS, Bartolomeu Campos de. Sobre ler, escrever e outros diálogos/ Bartolomeu Campos de Queirós; organização de Júlio Abreu. 2ª ed. São Paulo: Global, 2019.

Gisele de Souza Gonçalves. Professora e Doutoranda pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE). Mãe. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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