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Nísia Floresta, e a luz questionadora que nos acompanha

Por Helayne Cândido, Marcella Schiavo Trava e Rafael Costa de Lima 

Nascida em 12 de outubro de 1810, na cidade de Papari, no Rio Grande do Norte, esta mulher é uma das tantas personalidades femininas que devemos conhecer. Foi educadora, jornalista, escritora e defendia a causa feminista por direitos iguais às meninas e meninos, às mulheres e homens, numa sociedade brasileira que via na figura das mulheres apenas a função de cuidar do lar e de cuidar dos filhos, além de agradar aos seus maridos. 

Acreditava que uma educação para além de pontos de bordado e para além do ambiente da cozinha era primordial e urgente para que meninas tivessem acesso às ciências, ao mundo do trabalho e ao ser gente. A avançar no espaço mundo a fora e ressignificar suas existências. 

Para além disso, era abolicionista e possuía um olhar crítico frente à situação dos indígenas no país, e enquanto escritores homens se valiam de uma escrita romantizada sobre os índios, por exemplo, Nísia denunciava o crime que era cometido contra estes povos.  

Seu pai era um advogado português e sua mãe uma mulher de posses. O que, juntando ao fato de sua localização geográfica, foi um facilitador para suas viagens à Europa. O que encanta em Nísia é que tendo consciência de sua condição, desejava que outras pessoas também tivessem acesso a uma educação plena e uma vida digna. Escreveu cerca de quinze livros, considerados até mesmo polêmicos para época e que somente tomou visibilidade na década de cinquenta. Hoje, sua grande estudiosa chama-se Constância de Lima Duarte, pesquisadora de literatura e feminismo no Brasil.  

Nísia teve seu primeiro casamento aos treze anos, fato corriqueiro para época. O que não era comum, seria voltar para a casa dos pais. E foi o que ela fez. Não se sabe ao certo o que teria acontecido, assim como outras informações de sua vida se perderam no tempo. Mas o fato é que esta menina inquieta e questionadora não seria fácil de dominar. 

Seu verdadeiro nome era Dionísia Floresta Brasileira Augusta. O último nome foi adotado devido ao segundo relacionamento, este de muito amor e companheirismo, que se chamava Manoel Augusto, da área do direito, com o qual teve dois filhos, Lívia Augusta e Américo Augusto.  

Em 1830, Nísia trabalha num jornal pernambucano chamado “O espelho das brasileiras”, com uma escrita voltada às mulheres, mas por um olhar masculino. Nísia então inicia uma escrita crítica sobre temas abordados na época, sobre o comportamento feminino e, dois anos mais tarde, em 1832, ela publica “Direitos das mulheres e injustiças dos homens”, inspirada em outra mulher brilhante, Mary Wollstonecraft, feminista inglesa. 

Questionadora de uma superioridade hipócrita e mesquinha de homens, Nísia, em 1838, já viúva, cria a escola para meninas, chamada “Escola Augusto”, em homenagem ao seu falecido marido. Dentro delas, as meninas estudavam para além do que era comum na época: latim, grego, italiano, com um diferencial crítico, pois acreditava que as mulheres não tinham acesso às ciências, ao conhecimento e por isso não poderiam viver suas vidas para fora da esfera doméstica e permaneciam na esfera doméstica porque não estudavam. Eis o círculo vicioso, eis o que ela denunciava. 

Um fato interessante de sua vida é que quando sua filha, Lívia Augusta, estava com doze anos, ela escreve “Conselhos para minha filha”, talvez com um olhar acarinhado preparando a mesma, para tudo que enfrentaria nesse mundo predominantemente masculino. Foi um livro de grande repercussão pois voltava-se à questão educacional. 

No ano de 1846, no Rio de Janeiro, onde fundou sua escola, o jornal da época, chamado Jornal do Comércio, tece vários elogios à escola e apresenta as alunas destaques da instituição, entre elas, Lívia, sua filha. Porém, tempos mais tarde, o mesmo jornal lança críticas anônimas a essa escola, por considerar a proposta educacional avançada e imprópria para meninas. Para meninas! Um ano depois, a escola encerra suas atividades.  

Essa mulher que era a favor da educação física para meninas e contra o uso de espartilhos, morou em alguns lugares da Europa e conheceu Augusto Comte, considerado pai da sociologia e filósofo positivista. Deste encontro, surgem rumores de certo envolvimento para além da admiração acadêmica, desmentida com a revelação de cartas (que se encontram num museu em Paris) entre os dois de cunho estritamente acadêmico. Constância, pesquisadora de Nísia, afirma que ela não seria positivista, que simpatizava com algumas ideias, mas que não se considerava como tal.  

Essa pensadora faleceu no dia 24 de abril de 1885, vitimada por uma pneumonia e foi sepultada no cemitério de Bonsecours, na França. Em 1948, a cidade de Papari muda seu nome para Nísia Floresta e, em 1954, seus restos mortais são trazidos para sua terra natal, onde repousam no mausoléu construído para ela e onde se pode ver uma placa com escritos de Augusto Comte, em sua homenagem.  

A chegada de seus restos mortais foi um evento importante para a cidade, que parou para receber sua filha que ali nascera. Um pequeno avião sobrevoou a cidade jogando dos céus folhetins com a sua fotografia. Hoje, seu corpo descansa na cidade que leva seu nome. Mas a luz questionadora que a moveu se mantém acesa na vida de várias outras mulheres.  

Suas Contribuições: 

Nísia Floresta, uma mulher, uma brasileira, viveu em um período na qual nenhum desses indicativos fosse favorável na sociedade, mas, por se tratar de uma mulher determinada, extraordinária, que ansiava por conquistas e mudanças, é considerada a primeira a lutar por uma igualdade de respeito e aos direitos das mulheres no Brasil. 

Escreve seu primeiro livro em 1832 sob o título: Direitos das Mulheres e Injustiças dos Homens, texto muito discutido entre os pesquisadores que discordam entre uma inspiração ou uma tradução livre da obra de Mary Wollstonecraft, a primeira feminista inglesa. 

Nísia Floresta relaciona os conceitos da escritora inglesa com a realidade brasileira da época, destacando a superioridade masculina e a falta de acesso da mulher ao direito à educação, ao contato com a ciência e aos postos de trabalho. Questiona e se posiciona sobre motivos da ausência de mulheres em cargos públicos, de comandos e nas cadeiras das universidades: 

Por que [os homens] se interessam em nos separar das ciências a que temos tanto direito como eles, senão pelo temor de que partilhemos com eles, ou mesmo os excedamos na administração dos cargos públicos, que quase sempre tão vergonhosamente desempenham?” (Nísia Floresta Brasileira Augusta, em Direitos das mulheres e injustiça dos homens, 1832). 

Descreve em seu texto os preconceitos, restrições e impedimentos sofridos pela mulher, sendo negado o seu desenvolvimento intelectual e sua capacidade laboral, referindo às injustiças causadas pelo homem, afirmando a competência feminina e o direito à educação. 

Sua contribuição para a educação, além de ter criado uma escola para meninas, em uma época onde isso era mal visto, foi com seus escritos mostrar que enquanto nação poderíamos ser muito mais do que aquele império escravocrata que havia em seu tempo, seu texto “Opúsculo Humanitário” é um grito de esperança para todas as mulheres que viviam em sua época, não apenas as mulheres brancas, mas negras e indígenas, seu anseio para que todas, independentemente de sua origem tivessem acesso à educação é algo que hoje ainda parece muito avançado. 

Sua preocupação não era leviana, seu desejo por uma escola pública de qualidade, onde o governo tivesse a obrigação de cobrar para que as melhores pessoas pudessem estar à frente dos locais de ensino, é algo que hoje ainda temos que lutar, são quantos os lugares onde ainda as professoras e professores lutam para serem reconhecidos como seres de suma importância para um país, não existe nenhum lugar no mundo, nem na história, que possa se sustentar sem ensino de qualidade, sem que as pessoas tenham o direito de aprender e de que suas capacidades sejam reconhecidas, não por seu gênero, mas por seus desejos e capacidades. 

Na sua época, as mulheres não podiam aprender a ler e escrever, porque isso iria permitir que elas mandassem cartas demais para seus amantes, e porque isso era muito pesado para suas cabeças frágeis, que poderiam enlouquecer com muito ou pouco conhecimento, causando sua morte, mentiras espalhadas pelos homens, pelos clérigos, pelo governo, que, como ela mesma fala em seus textos, permite que o povo seja inculto para poder controlar melhor, pois, depois de tanto tempo se tornou mais claro.  Há no nosso país um desejo para que as pessoas sejam as mais incultas possíveis, para que os poucos cultos possam controlar melhor os caminhos pelos quais o país anda. Esses são os mesmos que desenvolvem as políticas públicas, e como fala Darcy Ribeiro, muitos anos depois, constroem o projeto de destruição da escola pública de qualidade para todos. 

Sua preocupação com a mulher tem um caráter moral, sua formação cristã não permite que ela se olhe diferente de um homem, pois, se a divindade cristã os criou da mesma maneira, não há motivo para que um seja superior ao outro. Sua formação até mesmo permite que ela fale que faltava aos gregos a perfeição da religião cristã, mesmo vendo em Platão uma “alma sublime” que coloca ambos, homem e mulher no mesmo nível, para uma República perfeita. Seu liberalismo, propensão de uma mente em formação, e que se conecta com o positivismo de sua época, na França. 

Seu apanhado geral da história humana nos faz perceber que por mais que um povo tenha desenvolvido seus objetivos enquanto nação, eles pecaram pelo erro primordial de não dar lugar para a mulher mostrar o seu valor, contrapõe as nações indígenas, onde a mulher tem em seu marido alguém que o ajuda, não alguém que a oprime, e mesmo com o cuidado com os filhos isso não significa uma posição menor, antes uma de suma importância, tendo em vista que sem filhos e sem um cuidado excepcional todas as nações estão fadadas ao fracasso, seja por meio da imoralidade reinante, ou pela simples destruição através dos tempos de tudo que foi construído. 

Assim,  sua preocupação com a educação não é como os políticos demagogos que veem nisso uma plataforma de eleição, ela entende dos problemas que naquela época já afligiam a escola, com professores e professoras sem formação mínima para ingressar no magistério, as escolas que se preocupam com o número de alunos, não com a qualidade do ensino que deve ser ensinado e que deveria ser a primeira diretriz, além daqueles que não deram certo no comércio, ou em qualquer outra coisa e veem na educação uma tábua de salvação, não por seu amor ao educar, mas simplesmente por ser um investimento baixo, com valorização parca dos profissionais que a compõem.  Baseados em compêndios (apostilas), onde as professoras e professores devem apenas ditar como fazer as atividades e todos irão sair sabendo o que está nos compêndios e tudo estará bem. Ela se revolta contra isso e contrapõe as nações européias, onde para ser professor era necessária uma prova, para demonstrar suas capacidades enquanto tal, não apenas para fazer estudar os compêndios, mas saber dar aula, para que as crianças em suas mãos possam aprender e a gostar do conhecimento, não serem punidas, fisicamente e moralmente, através dos castigos que os jesuítas trouxeram junto com sua maneira de educar, onde o sabor pelo saber dá lugar ao fel pelo saber. 

 Em verdade, se alguns políticos lessem apenas esse livro em toda a sua carreira, eles sentiriam vergonha do que fazem, ou pelo menos teriam uma noção mais básica de como poderia ser feito uma educação que valorize cada um pelo que é, um ser humano que tem seus desejos e maneiras de viver, não um escravo dos poderes instituídos. 

Fala até da educação superior, onde os jovens mal sabem ler e escrever e lutam contra as regras da gramática, e naquela época não havia Paulo Freire, como os demagogos da nossa atualidade gostam de culpar pelos alunos incompetentes que temos nas graduações, sem falar do Ensino Médio. 

Uma leitura necessária para entender os atuais rumos da educação e muita coisa que ainda precisa ser melhorada, mesmo tanto tempo depois, Nísia Floresta, merecia muito mais teses e discussões, seus textos estão cheios de possibilidades para pensarmos a nossa atualidade, muito mais do que discutirmos pragmáticos, europeus, etc.  

Em suma, deveria haver um cuidado maior para uma pensadora além do seu tempo, que ainda tem muito que falar, para uma sociedade que ainda não colocou todos em uma escola de qualidade, e que as mulheres ainda são odiadas por falar o que pensam e por se colocarem, mostrarem a sua cara e falarem o que pensam, se um homem fala o que pensa, os colocam na presidência, por mais que seja um néscio. 

REFERÊNCIAS 

Augusta, Nísia Floresta Brasileira. Fragmentos de uma obra inédita: notas biográficas. / Nísia Floresta Brasileira Augusta; tradução de Nathalie Bernardo da Câmara. – Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2001. 

Floresta, Nísia. Opúsculo humanitário. Estudo introdutório e notas de Peggy Sharpe-Valadares. S. Paulo: Cortez Editora, 1989. 

Floresta, Nísia. Direitos das mulheres e injustiça dos homens. In: Aguiar Bezerra, G. B.(org.). Nísia Floresta Brasileira Augusta. Uma mulher à frente de seu tempo. Direitos das mulheres e injustiça dos homens. Editora Fundação Ulysses Guimarães, s.l, s.d. 

Mary Woolstonecraft e Nísia Floresta: diálogo feminista. Disponível em: http://unb.revistaintercambio.net.br/24h/pessoa/temp/anexo/1/256/210.pdf.  Acesso em: 07. maio. 2021. 

Helayne Cândido é Professora de ensino fundamental. Graduada em Pedagogia e História. Pós graduada em Psicopedagogia e Psicomotricidade e Artes. Mestranda pelo Pro-filo, pesquisa filosofia e infância. Uma pedagoga apaixonada por história a se aventurar no mundo da filosofia.  

Marcella Schiavo Trava é Professora de filosofia na rede estadual de ensino. Possui formação em Serviço Social, Filosofia e Sociologia. Especialista em Gestão em Saúde; Trabalho Social com Família e Terapia de Casal e Família.

Rafael Costa Lima é Professor de educação infantil da rede municipal de União da Vitória. Pensador de uma Filosofia para a infância e quase mestrando da Unespar.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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