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Por uma filosofia menos barbuda e mais infante

Por Helayne Cândido

Grupo Violes: Ensinar filosofia para crianças fez com que elas aprendessem  matemática e leitura mais rápido

Escrevo com a memória

do som de crianças a brincar no pátio…

Quando pensamos no ato de filosofar logo nos vem à mente senhores barbudos e de idade avançada, com um semblante sisudo e de difícil acesso, visto que seus conhecimentos parecem inatingíveis.

Foi assim durante séculos, onde pessoas comuns não poderiam ou não tinham a oportunidade de refletir sobre suas vidas, seu tempo e suas vivências; tendo então, suas vidas pré-determinadas por um seleto grupo de pensadores – os senhores barbudos.

Porém, em todos esses anos, também teve muita gente teimosa por pensar, por refletir, por problematizar e que foram silenciadas porque seus pensamentos eram considerados subversivos para a época. Ainda há um grupo que dentro da filosofia sofre com olhares desconfiados sobre sua possibilidade de participação. Que são elas: as crianças.

Não é de hoje a insistente luta por uma educação acessível a todos e todas. E embora muitas conquistas tenham sido alcançadas, ainda há muito o que se almejar para além da simples presença em uma sala de aula.

Pois bem, anos se passaram e o direito à educação é uma conquista. Porém, não podemos deixar de lado o fato de uma pandemia que escancarou as desigualdades sociais, desde o acesso a tecnologias, como a um simples prato de comida.

A escola é o ambiente do cuidado, não tenho dúvidas. Mas esse cuidado precisa extrapolar o cuidado apenas do corpo e preocupa-se com o íntimo, com as inquietações e pensamentos de nossas crianças, se não, continuaremos a ser os homens ranzinzas de barba a olhá-las com superioridade.   

Esta escola que se tornou acessível estruturalmente precisa tornar-se próxima da criança no sentido de lhe proporcionar o desenvolvimento do senso crítico, através do diálogo e da amorosidade. Seria o pensar com sensibilidade. Isto porque somente a racionalidade almejada por nossos colegas barbudos do passado não nos basta mais. É necessário olharmos para nossa sociedade e percebermos o quanto ela está doente. E todo esse pessoal adulto que a compõem, um dia também foram crianças e frequentaram a escola – o que deu errado, então?

Paulo Freire, pensador brasileiro que já almejava uma escola que embora sendo séria, jamais fosse sisuda, sofre ataques de uma sociedade que ainda não entendeu seu método libertador de aprendizagem. É possível vermos discursos de pessoas da própria categoria do magistério, sem compreender o verdadeiro legado deste homem. Isto é fruto de uma educação que por anos foi cheia de autoritarismo, que tem suas raízes na catequização jesuíta e na colonização dos corpos.

Ora, há não muito tempo, iniciamos a década de 80 sob as amarras da ditadura e existe quem hoje reivindique sua volta, pois tudo o que foge do padrão aceito visivelmente pelo cidadão de bem precisa ser escondido ou aniquilado, e desta forma, qualquer um que ouse questionar essa ordem será punido. Mas que ordem é essa que não pode ser questionada? Que desejo é esse por pessoas que só dizem sim, senhor!? Que educação financeira é essa que só serve pro pobre aprender a contar suas moedas? Suspeito que educação é essa, e não é a que desejo.

Desejo uma escola que proporcione aos  estudantes questionar, problematizar, experimentar, falar e ouvir. Mas infelizmente, o que vemos em escolas do ensino fundamental é o contrário. Vemos muitas vezes corpos sendo domesticados, falas sendo silenciadas, em busca de um comportamento padrão.

Sabemos, sim, que existem lugares em que a filosofia com crianças acontece. Prática já iniciada por Lipman nos anos 70. Mas estou falando da minha realidade que ainda não foi alcançada por esse estudioso da área e onde se percebe o espanto quando se diz que está pesquisando sobre filosofia com crianças, como se filosofia e crianças fossem peças impossíveis de se encaixar. Eis o legado deixado pelos velhões barbudões.

Chegamos, então, ao ponto: podem crianças filosofar? Podem questionar? Estão preparadas para isso? Possuem amadurecimento para tal? Não estaríamos forçando uma adultização do pensamento? Que contribuições tornar a filosofia mais próxima delas traria para sua formação?

Quando penso em filosofia com crianças, penso em uma filosofia da sensibilidade. Porque só a filosofia não bastou para tornar pessoas humanas. Crianças são seres questionadores em sua essência e de algum modo, isso vai se perdendo à medida que crescem.  

Ser professor/a vai além de repassar conteúdo ou ensinar apenas a ler e contar. A escola como ambiente de cuidado vai além apenas de um ambiente seguro ou um local onde se garante uma boa refeição. Ela é espaço de se cuidar do humano para além dos corpos. É necessário cuidar de nossa essência humana.

O que acabou se tornando difícil com a chegada da pandemia covid-19. O distanciamento necessário escancarou entre tantas mazelas a fundamental importância da escola na vida de muitas crianças e adolescentes. Por maiores que sejam as tentativas, não há no mundo tecnologia capaz de substituir o cotidiano escolar, as interações, o olho no olho, o colo quando necessário, a palavra amiga e o abraço fraterno. Boaventura chama a atenção em “A cruel pedagogia do vírus”:

[…] a quarentena não só torna mais visíveis, como reforça a injustiça, a discriminação, a exclusão social e o sofrimento imerecido que elas provocam. Acontece que tais assimetrias se tornam mais invisíveis em face do pânico que se apodera dos que estão habituados a ele. 

De maneira alguma acredito que a figura de professores e professoras seja de salvadores da pátria e que todos os problemas da sociedade estão em suas mãos para serem resolvidos. Mas é necessário que estes profissionais, conscientes de sua formação e influência sobre a vida de tantas pessoas, estejam engajados na construção de uma sociedade mais aberta às diferenças e por uma educação mais acolhedora. Também é esse engajamento que nos faz aceitar o desafio de que mesmo ela, a filosofia, não aparecendo na grade curricular, nos faz tomar uma posição filosófica perante o mundo e perceber a filosofia nos mais simples detalhes da vida e se aproveitar desses instantes para torná-la mais próxima dessas crianças que já possuem em sua essência a característica questionadora e que infelizmente, são podadas.

O filósofo Schiller acreditava ser importante que as pessoas tivessem acesso a uma educação estética, de forma lúdica, uma educação para um olhar sensível frente ao mundo. Se o mundo nos quer sérios, ranzinzas como nossos amigos do passado, Schiller propõe a leveza do encantar-se, tão necessária em nossas escolas nos dias atuais.

[…] Defenderei a causa da beleza perante um coração que sente seu poder e o exerce, e que tomará a si a parte mais pesada de meu encargo nesta investigação que exige, com igual frequência, o apelo não só a princípios, mas também a sentimentos. (p.21)

Leveza é o que está faltando num país que se constituiu na base da violência. Vivemos tempos de angústia e incertezas sobre os dias de amanhã. Tempos em que a banalidade da violência nos ataca e nos amedronta. Que seja possível sonhar e colocar em prática o desejo de Schiller por uma educação que englobe o ser humano de maneira total. Desejo que esta razão, tão valorizada por séculos pelos senhores barbudões, dialogue com o sensível, pois a razão sozinha não basta para nos tornar pessoas mais humanas. E que o espírito infante, questionador, incomodado e barulhento, como crianças a brincar no parque, se mantenha vivo em nós.

Referências:

SANTOS, Boaventura de Sousa. A cruel pedagogia do vírus. Edições Almeida, S.A. Coimbra, 2020.

SCHILLER, Friedrich. A educação estética do homem: numa série de cartas/ Friedrich Schiller: tradução Roberto Schwarz e Márcio Suzuki; introdução e notas de Márcio Suzuki. – São Paulo: Iluminuras, 1989.

Helayne Cândido é Professora de ensino fundamental. Graduada em Pedagogia e História. Pós graduada em Psicopedagogia e Psicomotricidade e Artes. Mestranda pelo Pro-filo, pesquisa filosofia e infância. Uma pedagoga apaixonada por história a se aventurar no mundo da filosofia.  

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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