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Juiz de Michigan “converte” traficante em advogado criminalista

Ed Martell presta juramento para se tornar advogado diante do juiz Bruce Morrow 

Na primeira vez que Edward Martell se levantou para ouvir sua sentença, em 2005, ele já sabia que, pelas diretrizes do estado de Michigan, nos EUA, deveria pegar de um a 20 anos de prisão, por fabricar e vender pedras de crack — já antevendo uma pena mais próxima dos 20 anos, por causa de seus antecedentes criminais.

Mas, em vez disso, o juiz Bruce Morrow decidiu dar ao réu uma segunda chance. Anunciou a suspensão condicional da pena por três anos, com um desafio: o réu deveria enveredar pelo bom caminho e voltar à corte, dentro de algum tempo, para lhe contar como usou sua inteligência e suas habilidades para alcançar uma realização profissional, como se tornar um alto executivo de uma grande empresa.

Martell nunca se tornou um executivo. Mas, na semana passada, ele voltou a estar frente a frente com o juiz Morrow — desta vez, para prestar o juramento requerido dos bacharéis em Direito para se tornar advogados, depois da aprovação no Exame da Ordem e em uma avaliação de aptidão e caráter pela ABA (American Bar Association).

Decorreram 16 anos de um acontecimento para o outro. No decorrer desse tempo, o juiz manteve contatos esporádicos com Martell, para encorajá-lo a superar as circunstâncias difíceis de sua vida e alcançar seu objetivo. Martell era filho de mãe solteira, que lhe deu uma educação rígida e ética, mas ele enveredou pelas trilhas do tráfico, ainda na adolescência, influenciado pelos amigos da rua.

Criou uma folha de antecedentes criminais “respeitável”. Quando conseguiu financiamento estudantil para se matricular no “college” (a faculdade de ensino básico nos EUA para se entrar em uma universidade), os conselheiros riram ao ouvir que ele queria ser advogado. Disseram que ele era um criminoso com um sonho. Deveria fazer um curso profissionalizante, como o de técnico de aparelhos de ar-condicionado e aquecedor de água.

Inspirado pelo juiz Morrow, no entanto, ele insistiu em seu propósito de estudar Direito e os conselheiros o colocaram nas classes que eram pré-requisitos para ingressar em uma faculdade de Direito. Em seu caminho, encontrou mais gente que queria ajudar em sua formação estudantil, bem como na advocacia e na seccional da ABA. E também em sua luta contra as drogas.

Ele passou nos exames do “college” e se matriculou na University of Detroit Mercy, a única que se predispôs a ajudá-lo a conseguir financiamento estudantil, por meio da organização Jesuit Founders’ Scholarships. A propósito (para quem não conhece a palavra), “mercy” significa clemência, piedade, compaixão, misericórdia, perdão. Na “Mercy”, ele se formou em Direito, ciências políticas e espanhol.

Antes de enfrentar os conselheiros da Ordem, ele trabalhou como estagiário e pesquisador na Promotoria Pública do Distrito de Colúmbia e em um escritório de advocacia, o Perkins Law Group. No dia da avaliação de aptidão e caráter, compareceram à seccional da Ordem, para lhe dar apoio, dois advogados da banca e o juiz Bruce Morrow.

Bem aconselhado, Martell não tentou “enrolar” os conselheiros. Contou sua história de traficante e usuário de drogas, falou sobre o curso que frequentou para ajudá-lo a mudar de vida e declarou: “Eu sou a mesma pessoa, mas não penso mais como antes. Evoluí.”

Os conselheiros consideraram que sua sinceridade era um indicador de sua aptidão atual para praticar advocacia. Mais importante que seu passado. Aprovaram o candidato em apenas 15 minutos.

Martell foi empregado pela banca Perkins Law Group, onde atuará como advogado criminalista — com a vontade de usar o que aprendeu com o juiz Morrow em favor de seus clientes, ajudando-os a mudar os rumos de suas vidas. E poderá se dedicar também à área do Direito Eleitoral, um interesse que adquiriu no curso de ciência política.

Esse não foi o único caso em que o juiz Bruce Morrow provocou uma virada na vida de réus que julgou. Foram vários, o que lhe deu o apelido de “juiz da segunda chance”. Em entrevista para a estação de TV Fox 2 Detroit, repercutida pelo Jornal da ABA,  pelo Washington Post e pelo Deadline Detroit, ele falou sobre os réus que mudaram de vida:

“Eles são talentosos, são brilhantes, têm habilidades e qualificações que, se você não está tentando melhorar as vidas das pessoas e se conectar com elas, a única coisa que você vê é a pessoa e o crime pelo qual foi acusada”.

Assista aqui o vídeo do juramento de Edward Martell, com entrevista dele e do juiz Bruce Morrow.

João Ozorio de Melo é correspondente da revista Consultor Jurídico nos Estados Unidos.

Revista Consultor Jurídico, 6 de junho de 2021.

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