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A revolta de Deus… (parte 2) O paradoxo da Empatia

Por Eliane Camargo

A pergunta que me veio quando pensei neste texto foi: Por que escrevo? Por vezes sou cura, escrevo para abraçar, outras vezes sou ferida aberta, dessas que doem muito e então, escrevo para incomodar.  

Hoje, escrevo com o sentimento daquela que carrega o peso de não normalizar violências. Sim, o mundo é injusto! Mas eu me recuso a conservar a dor e acreditar que ela seja normal. Isso seria como retirar uma parte de mim.

No último texto da coluna: A revolta de Deus? Ou a crise da (des)crença? que tive a honra de escrever com o amigo Josemi, nos propomos a pensar sobre Deus. Um tema, que para mim não tem nada de intocável, é como os outros que já escrevi, pois fazem parte de nossas questões filosóficas. Quem nunca se perguntou o que é Deus? Deus existe? Ele é bom ou ruim? Existem deus ou deuses? Eu, ao menos, sempre me pergunto. E muitos filósofos e filósofas também o fizeram. Mas é certo, a nossa escrita/ferida gerou inquietações.

Alguns filósofos como Tomás de Aquino e Santo Agostinho nos trouxeram tratados brilhantes com o intuito de provar a existência de Deus. Nietzsche por outro lado, desacreditado de uma moral de rebanhos, teceu muitas críticas a religião cristã, e de forma brilhante, com sua filosofia  “matou Deus”.  Ao meu ver este é um tema que não carrega tabus, e se, para algumas pessoas ele carrega, é necessário perguntar : Por que é um tabu? E, por que é um tabu apenas quando se trata das religiões cristãs “oficiais”? Pois não foram poucas as pessoas religiosas que presenciei endemonizar religiões de matrizes africanas, indígenas. Por acaso o Deus ou deuses delas é menor?

É certo, hoje com um governo que ataca a filosofia e a sociologia, questionar, se posicionar tem sido cada vez mais difícil. Pensar, sempre incomodou àqueles que querem dominar pessoas. Por vezes, tenho sentido que voltamos à Idade Média, onde determinados temas eram proibidos e não podemos mais tocar, sob o risco de sermos “jogadas/os” na fogueira.

Mas nunca é demais lembrar: foi a igreja católica que em nome do “bem” mataram muitas pessoas durante o período medieval. Foi a partir de ideias religiosas que os colonizadores mataram e escravizaram indígenas e depois africanos. Cabe dizer: De boas intenções o inferno está cheio.

Muitas e muitos colegas “professoras/es” me confidenciam que por medo de represálias, não trabalham mais nas aulas feminismo, homofobia, nazismo, religiões africanas… Marx então, tornou-se o próprio diabo. 

Mas, se resolvi continuar o tema, foi porque o texto passado gerou algumas discussões que me fizeram pensar sobre preconceito, generalizações, caridade e empatia. Segundo algumas críticas, fomos infelizes em generalizar todas as pessoas que participam das religiões, embora tenhamos feito uma crítica à religião que ora ao capitalismo e não as pessoas que seguem, pois estas, muitas vezes são usadas por alguns pastores e padres.

– Falamos alguma mentira?

Disseram também, que fomos preconceituosos ao nos referir a todas as pessoas que votaram em Bolsonaro colocando-as como ruins. De fato, eu peço desculpas se fizemos generalizações apressadas em relação às pessoas religiosas. Mas não peço desculpas aos bolsonaristas, pois ainda que nem todas as pessoas que elegeram Bolsonaro possuem ideias fascistas e, muitos votaram nele pela descrença na política brasileira. Essas possuem sim uma parcela de culpa pelas atrocidades que este governo tem cometido. E, muitas se quer se arrependem de terem votado neste projeto necrófilo de política.

Ainda que meu lado diplomático  não queira brigar, não posso fechar os olhos e beijar os pés dos bolsonaristas. Pois, se muitas pessoas foram ingênuas a ponto de  acreditarem em uma “política nova” e deu no que deu, que ao menos assumam suas culpas. Aliás, Hitler também chegou ao poder com um projeto de “nova política” e  sabemos o que aconteceu. Não é mesmo?

É certo, a maldade e a bondade fazem parte do ser humano. Ninguém é só bom ou só ruim (Exceto Bolsonaro, este é só ruim, disso não tenho dúvidas) É preciso dizer também: Existem muitas pessoas dentro das religiões que fazem trabalhos belíssimos e de grande relevância social dentro de prisões, nas periferias e em demais espaços de exclusão. Trabalho este, que deveria ser obrigação do Estado, contudo ele negligencia. Tenho para mim que essas pessoas de uma caridade verdadeira, fazem jus ao Deus do amor ao próximo. Que bom que elas existem!

Feito então as desculpas do que me senti equivocada e não pedindo desculpas pelo que não devo me culpar, falo sobre empatia…

Empatia é sentir com o outro, diferente de se colocar no lugar do outro, porque isso seria impossível de se fazer. Só sabe o tamanho da dor quem a sente, por isso não acredito na frase: Eu sei o que você está sentindo. Ninguém sabe o que se passa dentro de nós. Por vezes nem nós “mesmas/os”.

Mas, acredito na frase: Eu compartilho de sua dor. É a esta que tenho me dedicado a pensar a empatia. Do contrário, se ficasse com a primeira ideia, teria que entender Bolsonaro quando depois de muitas muitas mortes ele disse: – E daí, lamento, quer que eu faça o quê? Teria que entendê-lo quando recusou, em nome de uma religiosidade cega, vacinas que poderiam ter salvo muitas vidas. Teria que entendê-lo quando gastou milhões com chiclete, enquanto pessoas passam fome. Não! Nós não merecemos o presidente que temos. Eu e muitas pessoas que fazemos “caridade” sem postar nas redes sociais, não merecemos! Também não merecem aqueles e aquelas que lutam todos dias por um mundo mais justo. E, não, eu não me coloco no lugar dele. Se, empatia é isso, eu não tenho.

Já ouvi algumas vezes que meu discurso é preconceituoso, agressivo, antidemocrático por não aceitar ideias contrárias as minhas, mas devo pontuar as ideias que me coloco como contrária: Sou antirracista, antimachista, antifascista, antitortura. Talvez o paradoxo do discurso democrático seja este: Por que em nome de um discurso  “democrático” somos coniventes com as violências? Por que é mais fácil acreditar que é normal existirem milhões de pessoas na miséria e algumas milionárias, do que se incomodar com isso? Por que  a partir de nosso lugar, não lutamos para que as estruturas se modifiquem? Por que aceitamos de bom grado que a sociedade é assim e pronto?

Talvez corra o risco de novas generalizações, mas sobre estas não pedirei desculpas, não acredito que um discurso conservador tenha empatia. Só quer conservar uma sociedade injusta quem do alto de seus privilégios não precisa lutar todos os dias pelo pão, lutar para não ser alvo da violência estatal, quem tem um pai ou uma mãe que pague os estudos, quem não conhece a realidade das periferias, quem não sofre na pele o racismo, o machismo.

E, antes que pensem que a minha luta é somente com palavras, atrás do computador, devo dizer: Eu sou da periferia, já senti no estômago a dor da fome e na pele a violência das opressões. Meu primeiro emprego foi com nove anos, a minha adolescência dividi entre o estudo noturno e o trabalho diário em pomares de maçã. Não tenho histórico de berço de ouro, não tive nem  “tempo” para ser traumatizada, pois quando a barriga ronca e a comida não chega, os traumas psicológicos dão espaço para a raiva das injustiças. Pobre não tem tempo e nem dinheiro para terapia. Ou a gente se agarra com vontade a vida ou se mata na primeira esquina.

Não nego que o meu esforço sempre foi muito presente, mas se estudei e continuo a estudar foi graças a governos que deram espaços para pessoas como eu terem direito a uma vida mais digna, sem precisarem da “caridade” e das migalhas dos outros. E, aqui, não romantizo governos, mas convenhamos, o que o governo bolsonarista fez de bom para nosso país?

Minha luta tem sido por uma educação emancipadora, onde os sujeitos se percebam oprimidos e lutem coletivamente por um mundo mais humano. Talvez isso nunca aconteça e seja apenas fruto de uma fantasia quixotesca, da minha luta por causas perdidas, ainda assim: luto!

Sim, minha gente, toda ação é política, não há como fugir disso. Até o silêncio conivente é político.  O que temos que pensar é: De qual lado nós estamos? Eu não tenho dúvidas, estou do lado de minha gente: “negras/os”, indígenas, mulheres, homossexuais, pessoas periféricas. Não devo nada a elite, tão pouco a Bolsonaro, a ele só meu desprezo e meu combate.

Que as pessoas continuem a ser caridosas, pois o mundo precisa muito. Mas, que a generosidade seja de fato verdadeira, que repartam o que possuem e não as sobras ou o que não querem mais. Que realmente acolham as pessoas. Para além disso, que lutem por mais igualdade de oportunidades, que lutem por justiça social.  Não temos fome só de pão, temos fome de justiça. É por justiça que luto desde que me entendo por gente.

Gente como eu, periférica, que não nasce em berço de ouro, que não tem “contatos”, não romantiza a realidade. Precisa lutar todos os dias pelo direito de ler, escrever, estudar, trabalhar, de continuar existindo.  

Por fim, dedico a minha gente, o meu grito ferido e meu abraço de liberdade: A periferia VIVE! Aceitando ou não, continuaremos ocupando os espaços. Não ficaremos no quarto dos fundos, recusamos as senzalas contemporâneas. Ninguém mais vai nos calar!

Eliane de Fátima Camargo, Graduada em Filosofia e Sociologia. Mestranda em Filosofia. Feminista. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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