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A revolta de Deus? Ou a crise da (des)crença?

Por Eliane Camargo e Josemi Teixeira Medeiros

Deus me proteja de mim e da maldade de gente boa”, canta a voz terna de Chico César, enquanto rascunhamos este texto… 

Entre áudios e mensagens de texto, eu e o amigo Josemi, comunicamos uma vontade: Desenhar linhas sobre o pensar divino. E, logo concluímos: Em toda nossa vida, encontramos mais Deus na poesia, na música, no afago da natureza, do que no banco das igrejas.  

Mas, antes que suscitemos conclusões errôneas, devemos dizer: Não é esse deus rotulado que acreditamos, não é esse que se perde nas instituições e nos manuais humanos, que mais reforçam a faceta hipócrita da humanidade, do que de fato se faz mistério. Então, não somos deístas, não somos “agnósticas/os”, também não somos ateu e ateia, simplesmente, porque nossa maneira de pensar Deus é pelo seu velar que se dá nas não respostas que temos sobre a existência. Deus está no que não sabemos, mas sentimos. Talvez ele seja o próprio amor. 

– E, será que cabe o amor  dentro de  instituições que lucram com a alienação alheia?  

“Deus não existe: diz o tolo em seu coração! Corromperam-se e cometeram injustiças detestáveis; não há ninguém que faça o bem” (Salmos 53). E, se ele existe deve estar muito indignado, nós ao menos estamos e nem somos divinos.

Aquele senhor ajoelhado diante do altar, com olhos baixos e braços erguidos ao céu, que intercede à luz divina por um caminho conforme a vontade de Deus, aparentemente é uma pessoa de boa-fé. Não é mesmo? Mas, é aí que está o pulo do gato ou no dizer de uma linguagem cristã: Ali se encontram as astúcias do Satanás.  Entre Deus e humanos de má-fé, que aniquilam a boa-fé, existe o fanatismo charlatão que ora ao capitalismo. Executam a chama do divino, a construção do reino de Deus, nesse reino que se revela em moedas de “caras e coroas”, em sua maioria homens e mulheres de “bem”. Diríamos: hipócritas com caráter duvidoso.   

Compaixão só na hora de recolher o dízimo. Em nome do dízimo, amém. Esse tal divino abençoa apenas alguns pastores e padres, enquanto isso os fiéis pastam as migalhas de uma santa ceia sem pão. Bem verdade, charlatões não sabem transformar água em vinho. Mas, sabem transformar fé em fortunas. Na mente dessa gente, Deus socorre alguns (os seus prediletos) e larga os flagelados da fé sob a sombra do Diabo, como diriam os “bons cristãos”.

– Será isso mesmo ou muito pior?

Vivemos entre os protegidos pelo falso messianismo que dizem crer e entre os miseráveis descrentes, que profanam o nome de Deus em vão. Estes não recebem a graça comprada. Uma graça que não é de graça, que se perde na própria desgraça de uma vida atrofiada por mazelas capitalistas.

– Quanto vale o milagre? Será que Deus é fiel ao não fiel?  

Foi-se o tempo em que a oração era um clamor: “Como não sei rezar / ó queria mostrar meu olhar, meu olhar, meu olhar” (Romaria). Em catedrais/templos de bitcoins e maquinetas da visa/mastercard só não pode ser fiel quem não tem crédito ou limite no cheque especial. Todos fiéis (cartões) são aceitos, menos aqueles que não têm limite. Nesse caso, se a crença a Deus é estar junto aos profetas mentirosos, que rezam ao capitalismo, talvez seja melhor não crer.  Se esta “fé” nos condena, não será ela que irá nos salvar. 

Vivemos em um momento de crise de esperança e de política. Crise da própria humanidade. Em um país sem chão, de gente sem rumo e de fé confusa. A descrença é o nosso resistir e nossa tentativa de sobreviver às mãos do deus dos “cristãos” apoiadores da tortura e da morte. Embora, seja mais preferível viver “sem Deus”, do que seguir a voz dos charlatões orantes.

– Será que Deus ficou louco? Ama mais a uns do que a outros!

– E os que ama é de arrepiar.

Que Deus nos livre do deus de Bolsonaro e nos proteja dele e de seus aliados. Segundo este divino bolsonarista, gays não tem céu e a pandemia é um castigo por causa do carnaval. Nunca imaginei que o divino tivesse mais tempo para olhar para nossas camas a ponto de esquecer-se de olhar nossos corações. E, assim, o profeta de verdade cita: “é um pensamento simples: os seres humanos foram criados para atormentar uns aos outros” (Dostoiévski, O idiota, 1869).  

– Se até Deus é contra nós, o que será de nós?  

Se ele existe, certamente não tem religião. Des(crente) na crença daqueles que dizem acreditar. O fundamentalismo religioso no Brasil é a comunhão máxima entre homens e mulheres de boa fé e o charlatanismo dos portadores da má fé, que saqueiam a renda de miseráveis e famintos. É como se Deus e Satanás pudessem compartilhar do mesmo banquete. 

Por fim, afirmamos: Não temos a mesma fé dos que dizem acreditar no divino, mas não fazem jus ao Deus do amor ao próximo. É necessário negar a deus, negar a este que fortalece a mão “daquelas/es” que clamam de punho cerrado e com pólvora na mão. É necessário negar “aquelas/es” que em nome da “fé”, acreditam que o mundo melhor virá através do ódio.

– Nossa fé se faz na vida, no amor.

– Não! Não é possível que Deus seja o mesmo para “todas/os”. 

Eliane de Fátima Camargo, Graduada em Filosofia e Sociologia. Mestranda em Filosofia. Feminista. Colunista do Factótum Cultural.

Josemi Teixeira Medeiros, em exercício poético, graduado em Filosofia, com especialização em Filosofia da Educação . Mestre em Filosofia.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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3 comentários em “A revolta de Deus? Ou a crise da (des)crença? Deixe um comentário

  1. Óbvio que foi o humano que criou os “deuses”, caros Eliane Camargo e Josemi Teixeira Medeiros. E foi o próprio humano também que, através dos tempos, foi solidificando a crença religiosa (lato sensu) e aprimorando a “história” de como surgiu Deus na Terra, até torna-la “inerente ao ser humano” (seu principal “escravo”). O marco histórico da criação dos deuses é dúbio, mas atribui-se a Hesíodo (poeta grego nascido no século VIII a.C em Beócia) a menção de um “deus” (o “Caos”) que seria o criador do universo.
    Parabéns pelo texto.

    Curtido por 1 pessoa

    • Obrigada pela leitura Juan e também pelo comentário. Que bom que gostou. A questão divina é um tema por vezes delicado de tratar e ao mesmo tempo muito gostoso de escrever, porque é muito próprio do existir humano essas questões filosóficas. Gratidão, viu. Que bom que nossa escrita pode te afetar. Abraços!

      Curtir

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