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Coreografia dos afetos: A cor Púrpura

Por Bruna Domingues e Pâmela Costa

O Viver é um dançar bonito:

 sempre fui sonhador,

 é isso que me mantém vivo[1]

                              De que cor são feitos os sonhos?

Sonhar, sim, é um ato de rebeldia em tempos tão sombrios. Nesse cenário catastrófico, o sonho alimenta nosso espírito, e de mãos dadas caminhamos. 

A literatura nos transforma e quando dizemos isso, estamos afirmando que não somos mais as mesmas após o encontro com uma estória. E essa, em especial, é impactante, pois mostra a realidade nua e crua, nua no sentido de tirar tudo e ao mesmo tempo mostrar que é possível acreditar que o mundo pode ser um lugar de sonhos. O corpo nu, exposto às mazelas do mundo. Corpo nu de uma mulher negra, Celie. 

Alice Walker é autora negra e feminista ativa, sua obra A Cor púrpura, narra a trajetória de Celie. Um romance epistolar, que começa com uma adolescente de quatorze anos escrevendo a Deus e depois sua travessia dolorosa pela vida, suas cartas são endereçadas à sua irmã, Nettie.

O sonho tem a cor púrpura?

Celie nos ensina que sonhar é preciso. Que é preciso encontrar algum refúgio, mesmo quando seu próprio lar não é seguro. Cresceu sendo violentada pelo padrasto, espancada e abusada de todas as formas possíveis. Sua vida foi aos poucos perdendo a cor, aos poucos sua vida e sonhos foram perdendo a cor púrpura, e somente marcas de sangue ficaram em seu lençol. A história de Celie não é fruto da imaginação, ela é o retrato de nossa sociedade. Quantas Celie nesse exato momento estão sofrendo? Maria Célia de Santana, Viviane Soares… Kathlen Romeu, grávida de quatro meses vítima de “balas perdidas”, no meio do caminho não tinha uma pedra, mas, sim, balas.  

As mulheres negras e de baixa renda são a maioria das vítimas de feminicídio em nosso país. A cultura de violência contra as mulheres é fruto de uma raiz patriarcal e machista. De acordo com o levantamento do Monitor da Violência (USP), cerca de 73% das vítimas de feminicídio no ano de 2020 foram mulheres negras. E essa realidade só aumentou com a pandemia da Covid-19. Em meio a essa política de milhões de mortos, no Brasil passamos a marca de 500 mil vítimas.

Não são apenas números.

Querido Deus, 

“Eu tenho quatorze ano. eu sou. Eu sempre fui uma boa minina. Quem sabe o senhor pode dar um sinal preu saber o que tá acontecendo comigo”. […] “Quando aquilo dueu, eu gritei. Ele cumeçou a ne sufocar, dizendo É melhor você calar a boca e se  acustumar” (2017, p. 09). 

Quando lemos a primeira carta de Celie, é impossível não chorar e ficar com raiva. Um nó na garganta, uma tristeza desoladora por não ser apenas uma história fictícia. Ficamos sufocadas. Se acostumar?  Não, é impossível se acostumar com a violência. Estuprada pelo padrasto, teve duas crianças, as duas arrancadas de seus braços. Ela diz: “Ele levou. Ele levou quando eu estava dormindo. Matou ele lá no bosque. Vai matar esse também, se ele puder” (2017, p. 12). Retrato da violência, opressão e silenciamento. Celie foi entregue ainda jovem, sendo separada de seus irmãos e de sua irmã que tanto amava, Nettie. Encontrou refúgio na escrita, a escrita a salvou.

A História de Celie, passa em torno dos anos de 1900 a 1940, uma mulher negra, praticamente analfabeta, no Sul dos Estados Unidos. Teve sua infância roubada, violentada ainda criança perdeu sua alegria de viver.   Impedida de estudar, silenciada, viveu sendo violentada em seu lar e depois na casa do seu esposo, o Sinhô. Nettie, ensinava Celie a lutar e a não aceitar o que o Sinhô e os filhos faziam com ela:

“Eles é que mandam, eu digo.

Mas ela continua. Você tem de brigar.

Mas eu não sei como brigar. Tudo que eu sei fazer é cuntinuar viva” (2017, p. 31). 

Conceição Evaristo afirma que as escrevivências marcam e nos ensinam a ouvir a aprender com a dor do outro. Não obstante, é através da escrita das cartas que somos afetadas de maneira singular e profunda.

                                      Liberdade é não ter medo.

Ao depararmos com a história de A cor púrpura, algo em nós despertou. As questões são atuais. São muitas mulheres no livro que nos inspiram a acreditar que é possível esperançar, e que é preciso endurecer aos baques da vida, mas não deixar de acreditar nos sonhos. Não estamos romantizando o sofrimento, a dor de Celie não pode ser romantizada. “Eu olho pras mulher, sim, porque num tenho medo delas”. (2017, p. 15). Destacamos que mulheres brancas precisam romper com o epistemicídio, e aprender  a ouvir mais e reconhecer o privilégio da branquitude.  É através da escrita de mulheres negras que se rompe a hegemonia científica branca e androcêntrica. 

                                        Eu sou uma mulher,

Tênue é a linha entre amor e sonho: Celie aprendeu a gritar quando aprendeu a se amar, então compreendeu que poderia sonhar, em seguida começou a realizar. Imaginem um mundo em que toda menina preta hostilizada por sua aparência aprenda a gritar e não a se esconder? É isso que a Celie nos inspira. Ela foi salva por ela mesma, cresceu ouvindo “você é feia, pobre, você é negra, você é mulher”. Mas, dançou uma nova melodia, encenou novos passos e rompeu com a violência imposta desde sua infância. Descobriu que era uma mulher forte encontrando outros movimentos do viver.

Através de uma doença, Shug Avery, antigo amor do Sinhô, aparece no enredo. Celie a admirava desde muito cedo e, como um vendaval, Shug balança suas estruturas da vida e do amor. Desperta o amor e a mulher dentro de Celie. É a música, a arte que provoca em Celie sentimentos novos. Uma cantora de Blues dona de si, que assustava os homens com sua ousadia e coragem. Sua arte gerava espanto na sociedade do século XX, mas foi através da música que Shug mostrou que é possível uma mulher ser o que ela quiser, escancarando o preconceito racial, de gênero, étnico e a opressão. 

                                      O afeto é revolucionário!

 Outras mulheres são importantes na trama, Sofia a mulher do seu enteado, uma mulher que também inspira, pois, mesmo a sociedade exigindo que fosse uma esposa submissa, ela não silenciava diante da opressão do marido. Sofia lutava com as armas que tinha, sua força física notável a ajudava conquistar sua própria liberdade. A personagem não aceitava violência doméstica calada, também batia. Foi um exemplo de que nossa sociedade não aceita facilmente que mulheres briguem por seu espaço com unhas e dentes, mas nem mesmo o tempo e as mazelas da sociedade a fizeram desistir dela mesma.

                                             Canta, liberdade!

 Por fim, gostaríamos de enfatizar a importância da arte, da música em especial. Quando a arte se torna resistência?

Shug era do tamanho de sua voz: grandiosa! Sua voz era extensão de seu corpo, corpo esse que se declarava livre a partir da música. Sabemos que desde que nasce, uma mulher perde o direito de domínio sobre o próprio corpo, tendo que o adaptar a roupas, padrões, comportamento etc. A música foi o jeito de Shug dizer sim e não para os baques da vida, para seus medos e amores, foi sua libertação financeira. 

  Mesmo com todos os louros das conquistas de artista, Shug não tinha o respeito dos pais, teve que renunciar a uma vida plena com os filhos, seu corpo era aceito pela maioria dos homens porque era um corpo belo e sexualizado.  Toda liberdade tem um preço, ainda mais quando se é mulher.

“Eu estou mantendo meus olhos em você”

Foi a música que uniu Celie a Shug. No filme a música Miss Celie’s Blues “Blues da Dona Celie” é uma cena apaixonante. Vemos Shug reconhecer a importância de Celie, ela percebe que nunca ninguém a olhou com tanto afeto, amor e admiração como Shug, na coreografia do afeto: surge a cor púrpura.

De fã, Celie tornou-se amiga e amante, parceira e confidente da cantora. Aprendeu a amar e ter prazer com o próprio corpo, aprendeu que sua beleza não dependia do consentimento alheio, aprendeu uma profissão. Aprendeu sobre amor, contemplação e admiração. Aprendeu a ver e ser vista por Deus com os em-cantos da vida.

Aprendeu que os sonhos têm cor de gente e que gente é para brilhar, não para morrer de fome.

REFERÊNCIAS

WALKER, Alice. A cor Púrpura. Rio de Janeiro: José Olympio, 2017.


[1] Frase da música A Vida é Desafio dos MC´s Racionais.

Bruna Gabriela Domingues. Professora de filosofia da rede estadual de ensino de Santa Catarina. Graduada em filosofia. Mestre em Ensino de Filosofia (PROF-FILO/ UNESPAR). Poetisa amadora, feminista, revolucionária e apaixonada. Colunista do Factótum Cultural.

Pâmela Bueno Costa, professora de filosofia na rede estadual e particular de ensino – SC. Graduada em Filosofia. Pós-graduada em Ensino da Filosofia. Mestre em Ensino da Filosofia PROF-FILO. Cursando terceiro ano de Letras: Português/Espanhol (UNESPAR). Ilustradora amadora e aprendiz de aquarela. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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