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Das máscaras que protegem e das que silenciam: Dialoguemos com Grada Kilomba

Por Liliam Beatris Kingerski

Ouvindo Grada Kilomba, sinto que ela reflete o que quero dizer quando escrevo. Nas palavras dela: “Então, por que eu escrevo? Eu escrevo quase como uma obrigação, para me encontrar. Enquanto eu escrevo, eu não sou o ‘Outro’, mas o eu, não o objeto, mas o sujeito. Eu me torno a relatora, e não a relatada. Eu me torno a autora, e a autoridade da minha própria história. Eu me torno a absoluta oposição do que o projeto colonial havia predeterminado. Eu me torno eu.[1]

E, como é bom nos tornarmos nós, não é mesmo?

É a nossa afirmação enquanto escritoras/es que nos tira deste projeto violento que foi a colonização.

Sigo dialogando sobre e com escritas de mulheres, buscando desconstruir preconceitos, e, desta forma, resistir às situações confortáveis, por onde boa parte das pessoas pensa “estar tudo bem”… É justamente aí que brotam as raízes do sexismo, do machismo e do racismo. Negar isso é naturalizar essas violências!

Em nome dessas batalhas, as quais travamos no nosso cotidiano, trago aqui a voz de uma mulher negra, cujas ideias ainda são pouco conhecidas, a intelectual Grada Kilomba, que busca na escrita uma forma de desconstruir o colonialismo, se colocando e se reconhecendo como “sujeito”, visto que a mulher negra sofre na pele além do machismo, também o racismo. Pois a história da mulher negra é ainda mais marcada pelas violências.

Se, para Enrique Dussel (1993) [2] a colonização foi o encobrimento do outro, com a mulher negra isso é ainda maior, uma vez que dentro da sociedade capitalista ela é a outra do outro e da outra, a mulher branca. Basta olharmos ao nosso redor, quantas mulheres negras conhecemos em espaços de visibilidade social? Na academia? Na escrita? Em espaços políticos?

Pretendendo romper com esse ciclo marcado pelo pensamento colonizado, a autora deixa claro desde o início, quando escreve: “este livro é muito pessoal; escrevi-o para entender quem eu sou.”[3] Busca descolonizar conhecimentos, e dar visibilidade ao racismo cotidiano relatado por mulheres negras e num passado colonial onde as violências eram silenciosas.

Em sua análise a respeito da mulher negra, levando em conta um passado colonial e patriarcal que teimam em marcar, descreve como elas são visualizadas: “não sendo nem branca, nem homem, a mulher negra exerce a função de o ‘outro’ do outro”[4]. Relegadas à subalternidade, as mulheres negras eram descritas sobre outros olhares, sendo assim, “o outro do outro”, não sendo reconhecidas pelas suas próprias palavras, pelo que realmente são.  Grada rompe com essa ideia ao se identificar nessa escrita, ao tratar da mulher negra, enquanto sujeito capaz de escrever sua visão desta história. Em sua obra Memórias da Plantação, trata da urgência de pensarmos o colonialismo, a alteridade, racismo, conhecimento e linguagem.

Fala do significado da máscara utilizada no rosto dos negros e das negras que foram escravizadas/os.

“A máscara, portanto, levanta muitas questões: por que deve a boca do sujeito Negro ser amarrada? Por que ela ou ele tem que ficar calado/a? O que poderia o sujeito Negro dizer se ela ou ele não tivesse sua boca tampada? E o que o sujeito branco teria que ouvir? Existe um medo apreensivo de que, se o/a colonizado/a falar, o/a colonizador/a terá que ouvir. Ele/ela seria forçado/a a entrar numa confrontação desconfortável com as verdades do “Outro”. Verdades que têm sido negadas, reprimidas, mantidas e guardadas como segredos. Eu gosto muito desse dito “mantido em silêncio como segredo”. Essa é uma expressão oriunda da diáspora africana e anuncia o momento em que alguém está prestes a revelar o que se presume ser um segredo. Segredos como a escravidão. Segredos como o colonialismo. Segredos como o racismo.[5]

A máscara tinha o intuito de castigar e principalmente silenciar esses grupos. E, hoje as máscaras do silenciamento ainda continuam a oprimir, pois quando tratamos do racismo, quando cobramos o direito de estudar mulheres e homens negros, ainda existe resistência. – Por que essas vozes geram incômodo?- É simples: Porque elas falam o que o sistema opressor não quer ouvir.

Na escrita de Grada Kilomba percebemos a sua preocupação com a linguagem, pois ela está estritamente relacionada a uma questão de identidade, precisamos nos identificar com a nossa linguagem, nos sentir nela. E isto, muitas vezes não acontece. Por exemplo: no próprio português, as palavras que são colocadas como neutras, na verdade não são, pois elas favorecem a perpetuação das relações de poder e de violência.

A máscara da qual Grada nos fala, que silenciou o povo negro no passado, segue silenciando suas falas em todos os espaços. Enquanto educadora/es devemos nos perguntar: como estudamos temas relacionados à cultura negra em sala de aula? Como os/as negros/as são contextualizados/as nos conteúdos e nos livros didáticos?

Grada Kilomba carrega em suas palavras a angústia de viver, a importância de falar, de ser ouvido/a, de pertencer, de se reconhecer, de se ver enquanto sujeito… A luta contra as opressões começa por admitirmos que elas existem…

Vale a pena lembrar que hoje usamos a máscara para nos proteger e para proteger o outro do vírus do Covid-19… Hoje, homens e mulheres, brancos e negros, todos/as devem ou deveriam usá-la. Existem aqueles/as que se recusam a usar por ignorância, mas esta é outra questão. O que posso dizer é que: é impossível não lembrar que nosso governo segue uma política negacionista, desmerecendo o uso da máscara, e negando a luta pela vida.

O vírus não nos aproximou, pelo contrário, pois ele está sendo pior com as classes mais vulneráveis e mais uma vez a população negra, que em sua maioria vive na periferia, tem sofrido mais com as consequências deste vírus e com os descasos do governo de Bolsonaro. 

Acredito que ainda existem muitas máscaras que precisamos desconstruir, porque elas continuam a esconder opressões. A romantização do racismo, por exemplo, é uma delas. A negação de nossa responsabilidade com a dívida histórica, que escravizou pessoas, faz parte do projeto de colonização que foi justamente silenciar o “outro”. Que hoje, as máscaras de tecido nos protejam contra o vírus e que as máscaras da hipocrisia violenta sejam destruídas.


[1] Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=UKUaOwfmA9w&ab_channel=GradaKilomba

[2] DUSSEL, Enrique. O encobrimento do outro: A origem do Mito da Modernidade: Conferências de Frankfurt: Petrópolis- RJ: Vozes,1993.

[3] KILOMBA, Grada. MEMÓRIAS DA PLANTAÇÃO: Episódios de racismo cotidiano. Tradução de Jess Oliveira. RIO DE JANEIRO: Cobogó, 2019.

[4] KILOMBA, Grada.

[5] KILOMBA, Grada.

Liliam Beatris Kingerski é professora de filosofia. Graduada em Filosofia, História e Sociologia, com pós-graduação em Política e Sociedade, História e Sociedade. Mestranda do programa PROF-FILO da UNESPAR. Pesquisadora da Filosofia Feminista, apaixonada por escritas de mulheres e Filosofia. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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