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Apologia do humor: refletindo sobre a expressão “politicamente (in)correto”

Por Paulo Cesar Jakimiu Sabino

trabalhe com bom humor

“Para centenas de milhões de homens no planeta, Carlitos é um herói como Ulisses ou Roland le Preux o foram para outras civilizações”

(André Bazin)[i]

Uma das expressões que mais me incomodam negativamente é o tal do “politicamente incorreto” para se referir a um humor que seja contrário ao status quo de uma sociedade, porque supostamente é “subversivo”. O motivo é muito simples: a comédia é subversiva e politicamente incorreta – e isso desde Aristófanes. Porém, o uso contemporâneo dessa expressão serve justamente para reverter o sentido do termo e colocá-lo ao lado do status quo. O politicamente incorreto, enquanto uma antítese radical do politicamente correto, serve apenas para justificar preconceitos e ataques enquanto “brincadeiras”. O humor serve então como instrumento de opressão contra os já marginalizados, se valendo de racismo, homofobia e misoginia, por exemplo. Algo extremamente problemático e que faz do humor um mero entretenimento – que claro, serve ao comediante medíocre. Quando se faz uso disso para atacar o gay, o negro ou a mulher, por exemplo, o discurso está somente afirmando que esses grupos prejudicados social e historicamente são os que detém um poder social. Nada mais distante da verdade e da realidade concreta.

Contudo, o humor é mais do que isso, porque a comédia é uma ferramenta política contra aquilo ou contra quem é dominante. O humor provoca o riso, um gesto social necessário nos dias atuais. Ele permite que o sofrimento gere um momento de alegria e prazer. Para rir desse modo é necessário que o objeto do riso (aquele de quem estamos rindo) apareça de forma subversiva. Rir do negro, do gay ou da mulher e também do pobre, por exemplo, não permite essa subversão justamente porque esses grupos estão localizados abaixo na estrutura hierárquica da sociedade branca, hétero e patriarcal. Partir desse princípio é fundamental para entender a dinâmica emocional do riso.

Desde Aristóteles entendemos a comédia como um gênero artístico oposto ao gênero tragédia. Se esta última imita os seres humanos “melhores do que realmente eles são”, a comédia imita-os fazendo parecer “piores do que realmente são”[ii]. Assim, o herói do humor não é o mesmo da tragédia, ele é o tipo baixo que não é digno de atenção ou de respeito. No mundo contemporâneo, esses tipos são, além daqueles supracitados, também o nerd, o gordo e talvez o arquétipo mais reconhecido no cinema de gênero cômico: o vagabundo, tão bem representado por Charles Chaplin. A imitação dos seres “piores” da sociedade não é uma maneira de ridicularizá-los, mas justamente de ampliar sua importância fazendo-os heróis – porque, obviamente, é assim que a obra se torna subversiva. O pior se torna melhor, o dominado se torna dominador, o ridicularizado irá ridicularizar o opressor. Para que fique tudo mais claro: é o vagabundo enganando o policial e brigando com o valentão em The Kid. Essa é a subversão. É o policial negro enganando o supremacista branco em BlacKkKlansman de Spike Lee. O pior é exaltado – e isso é subversivo. Desde a comédia clássica de Aristófanes – que coloca as mulheres em uma posição de superioridade em Lisístrata – até em séries e filmes de apelo popular que exaltam tipos marginalizados. A qualidade pode ser discutida, o gosto também, mas a fórmula não. Rir do pior, diminui-lo ainda mais é apenas preconceito e violência verbal. Agora, humor? Jamais. Nunca foi.

Nos festivais da Saturnália era comum que os poderosos abrissem mão de suas posições hierárquicas. Durante esse evento, todos eram iguais, sejam escravos ou cidadãos. Eram invertidos os valores para gerar assim situações cômicas. Fazia do humor um instrumento político, para romper os limites socialmente criados, ou seja, artificialmente criados. Logo, era permitido transgredir a ordem e a lei.

Participa do cômico quem é zombeteiro, mas que também sabe de quem zombar. No filme JoJo Rabbit o diretor Taika Waititi faz piada com o nazismo e com Hitler. Como pode brincar com algo tão sério, alguém se pergunta? Ora, ele sabia como brincar, ele sabia contra quem direcionar as piadas. As características excêntricas e histéricas do nazismo são desveladas, o seu Hitler era um ideal bastante ridículo na mente de um jovem e ingênuo nazista. Citei esses nomes e mencioneis essas obras porque é aconselhável apreciar a obra de artistas talentosos que sabem zombar. Afinal, o chiste de qualidade é raro. A sensibilidade apurada que um artista deve possuir para brincar com esses temas tão sérios é difícil de medir, e que certamente é impossível de encontrar em medíocres comediantes defensores do “politicamente incorreto”. O humor não tem limites, mas há um limite no gênero comédia que quando ultrapassado é apenas o mais cru preconceito.

Para encerrar, gostaria de mais umas poucas palavras que me ocorrem quando lembro de Freud afirmando em seu texto O chiste e suas relações com o inconsciente que brincando poderia dizer-se tudo, até mesmo a verdade. O defensor do politicamente incorreto apenas quer justificar seu real e verdadeiro preconceito como uma simples brincadeira que não deve ser “levada a sério”. Esse “levar a sério” é também um enigma fácil de decifrar. Significa apenas: quero ser livre para falar o que quiser, mas ao mesmo tempo não quero me responsabilizar pela minha fala. Em outras palavras, além de medíocre, o politicamente incorreto é covarde.

Viva a comédia de quem que sabe fazer rir, que faz do riso um gesto de resistência.


[i] BAZIN, A. Charles Chaplin. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.

[ii] ARISTÓTELES. Poética. Tradução de Eudouro de Souza. São Paulo: Abril Cultural, 1973

Paulo Cesar Jakimiu Sabino, Mestre em Estética e Filosofia da Arte pela UFOP e Doutorando em Filosofia na UFPR. Entusiasta de literatura russa. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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