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“Tristes partidas, o abuso da morte”

Por Charles Santiago

Junho, e, pela segunda vez, nossos santos: Antonio, João e Pedro, já abrasileirados, lamentam a falta de celebração, festividade e comilanças neste período de grandes folguedos. Choram, com Patativa do Assaré, tristes partidas. “É carro que corre no topo da serra, sem aceno, sem despedida.”

Para a coluna deste mês, havia pensado em retomar um texto já publicado e, a partir de novas considerações, dedicá-lo aos nossos santos juninos. Entretanto, é justo dizer que nesse meio tempo de ponderar sobre a coluna em curo, fui provocado por uma arguta leitora para que escrevesse sobre “a morte e seu abuso”.

Leitora esta que, não nego estima, acompanha-me em cada verso, fazendo, é importante salientar, considerações e discordâncias que enriquecem qualquer bom debate. Disse-me que a morte, pelo menos nesse texto, não fosse protegida pelos versos poéticos, filosóficos… mas, querelada em seus abusos no cotidiano brasileiro.

Por algumas vezes, aqui mesmo no Factótum Cultural, açulado pelo tempo pandêmico, afoitei-me em reflexões sobre a morte e seus arcanos seculares. E, nessa empreitada de elucubrações, não foi difícil encontrar autores que, da filosofia e da literatura, emprestaram pensamentos, poesias e acendimentos para o enobrecimento dessa nossa companheira, aquela que, conosco, mesmo às sombras, vela o nosso destino.

Todavia, a nobre leitora, é certo, não se deu por satisfeita, pelo contrário, quis mais do que uma reflexão doce – metafórica, buscou de mim um confronto – tratar da morte como o fim da vida – a desativação dos estados físicos e biológicos. Ela, certamente, tem os seus motivos,  já padeceu e padece com as desventuras da vida finita – os horrores do tempo pandêmico.

Confesso que relutei para com o empreendimento! Primeiro: junho é mês de festança. Período de mesa farta, tempo de fogueiras ardorosas, de muito forrobodó. Como é dito por Gonzaga: “olha pro céu, meu amor, vê como ele está lindo. É noite de São João”. Segundo: a morte tem sua beleza assegurada no imaginário das sabenças: é simbólica, imaginativa, fruitiva…nunca abusada.

No fundo, é preciso dizer, receei, nesse tempo de pandemia, confrontá-la, isto é, pensá-la para além da romantização poética, filosófica. Vê-la, a partir de sua crueldade, como disse minha adorável leitora, sua presença rotinizada nos círculos mais próximos: “tirando-nos familiares e amigos de forma abrupta, silenciosamente trágica – abusando e lambuzando-se com tantas gentes indefesas”.

Num sábado, já anoitecendo, depois de uns goles de licor, bebida tipicamente nordestina, ouvindo um forró pé de serra, degustando um milho cozido, buscando sintonia com os santos juninos, caçava palavras certas para a escrita desta coluna.

Todavia, naquele dia, um sábado aparentemente sem graça, a aguardente não apresentava seus paladares. O corpo, não como de costume, comparecia dores e cansaço. Não era ressaca, para minha infelicidade boêmia.

Naquela noite, já esfriado com o néctar maltado, o corpo dava sinais de febre, náuseas, dores insuportáveis…

Não tardou para que se confirmasse a suspeita: COVID-19. Ali, positivado, uma confusão mental aturdia minha mente,  mais do que isso, uma pergunta martelava meu juízo: o que fazer?

Não foi, é óbvio, uma questão filosófica: aquela que a gente lê no manchego, Ortega, Freyre… pelo contrário, fora uma outra indagação, corriqueira talvez, mas real, a morte espreitando minha vida… eu só imaginava: o que resta fazer frente a sua força, seu mistério?

Ah, minha gente! Nesse momento, período de incubação viral, a morte, pelo menos a sua ideia, aquela quando remexia minha mente e fragilizava minha carne, não fora um sentimento fácil, tampouco, poético, filosófico, mas exaustivo, frenético. Eu até tentei, por alguns instantes, como um bom cristão, ao lado de Francisco de Assis, chamá-la de irmã, contemplá-la face a face, flertando com os seus caprichos.

Mas, na tormenta, a realidade salta os olhos. A fé, a esperança, tudo isso é somente uma cortina de fumaça que se desmancha frente ao inevitável – a potencialidade da morte e seu destino misterioso. Ali, acamado, eu só pensava em seus rastros abusivos – um caminho de quase 500 mil brasileiros mortos. Na minha mente, não tardaria para que eu fosse somente mais um número a engrossar esse rastro.

Isolado, avexado, com muito medo e um problema na cachola: “o que fazer?” Na companhia de um termômetro, um oxímetro e a ideia da morte – eu tentava, em vão, com preces e promessas, responder ao momento de tempestade. No fundo,  buscava um pouco mais de existência, sobreviver para viver, mas, como resposta, a memória se ocupava de escarafunchar o vivido – numa espécie de penitência cristã – remoía-me com perguntas: fora válido o caminho até aqui? Eram essas suas perturbações existenciais?

Nessa hora de convalescência, é sabido, não há filosofia, teologia ou coisa do gênero. É você, suas dores e você. Nietzsche não deixou de se fazer conselho, “dez vidas assim eu viveria”, mas, no momento, era somente mais uma filosofia contra o drama existencial – a possibilidade real do último suspiro – a desencarnação deste orbe – o último adeus.

Foram dez dias infelizes, exatamente isso,  uma ocasião de incerteza e de medo. Um tempo de aflições. Acreditava eu que, cedo ou tarde, num estilhaço de horas, a minha hora não tardaria. Mas, é digno de nota, durante esse período, além da pergunta: o que fazer? Outra provocação me era cada vez mais problemática – “o abuso da morte”.

Como é possível? Sua aproximação, mesmo enquanto ideia, muda tudo: o forte fenece, pois, a força da morte é extravagante. Os poderosos sucumbem, a morte tem poder incalculável. Sua imagem diminui nossa arrogância, põe no chão nossas crenças, faz fraquejar nossa vã filosofia – o seu abuso é sem limite.

Na unidade básica de saúde, aguardando atendimento médico, contemplava a fila gigantesca de gente que, silenciosamente, esperava socorro. Uns, semelhantes a mim, agoniados com a calmaria ensurdecedora das incertezas. Outros, inquietos com o porvir – aguardavam a palavra salvífica da medicina. Aflito eu só arrazoava comigo: quantos aqui vão sobreviver? Quantos vão poder contar suas histórias? E quantos serão somente história, estatística?

– Na quilométrica fileira de gente, questões assim povoavam minha mente e gastavam a minha estação de espera.

É interessante notar que, depois de um tempo, como tudo na vida, a gente começa a se acostumar com a situação em que nos encontramos e, nessa adaptação ao momento, a existência vai ganhando seu rumo, acertando o caminho para o que há de ser, mesmo que seja misterioso: “a triste partida”, pois, em tempos assim, compreendemos que não somos o que pensamos ser – os donos do tempo, da vida, do momento – somos, somente, uma faina que existe, mas que, num retumbar de olhos, seremos lembranças e saudades…

O medo, aquele que nos atormenta quando o fim parece próximo, não é somente da morte em si, mas desse espaço que parece anteceder o momento morte, pois, nessa fração de hora, perguntas não são respondidas, das quais, a mais aterradora é, certamente, o que fazer? O que ainda resta fazer nesse homeopático tempo que nos é dispensado?

Outrossim, com a escassez de tempo em que nos encontramos diante dos dissabores da morte, com tanto para ser feito e vivido, já que não fizemos tanto, o medo é somente um sentimento, pois  não estamos preparados para essa travessia. A biografia ficou em algum lugar do caminho – aqui, conosco, estão somente os projetos, os sonhos, a materialização de desejos, na sua maioria, torpes – um mundo arranjado, não vivido.

Contudo, é justamente nessa falta de tempo que o considerado trivial assume suas forças:  um beijo não dado, um abraço não apertado, a falta de afago no animal de estimação, um café com um amigo, uma gargalhada despretensiosa, um cheiro no parente próximo, um amor não vivido, um eu te amo… tudo isso, somente nesse instante, faz-nos sentir o quanto precisamos de tempo para resgatar, na esquina cotidiana, a vida tão negligenciada por nós, pobres sonhadores.

A vida e seu deleite, aquela que pulsa nos poros, no instante da morte nos faz vê-la como  realmente é – simples e breve, mas intransferível, singular, arrebatadora em sua singularidade poética – um existir pleno, leve que, muito em breve, será tão somente um sussurro na memória e corações de nossos amados e amantes…

Mas é nesse vale de lágrimas que esperamos, mesmo parecendo impossível, sonhar que, no futuro próximo, celebraremos os nossos santos juninos e venceremos o tempo dilemático. É nessa crença que, com o rei do Baião, nas noites de céu estrelado, chamegaremos ao som de um forró gostoso, amanhando-nos em corpos quentes e oleosos.

Por hora, mesmo sem uma reflexão justa que atenda o espírito inquieto de minha altiva leitora, deixo aqui minhas memórias de medo, mas também um aprendizado: que saibamos amar a vida, vivê-la com toda intensidade possível, pois, nos dizeres cristãos, “não sabemos o dia, tampouco a hora de nosso fim, mas, é certo, não deve tardar, pois o homem é como o lírio do campo – hoje existe e amanhã deixará de existir”.

Por último, amemos mais e briguemos menos! Que nossas despedidas tenham gestos amorosos. Que nenhum adeus seja proclamado sem uma resposta: até breve! Que, em tempos sombrios, não nos falte uma palavra de conforto, de carinho… Por isso, sobretudo neste tempo, conecte com seu amigo enfermo, pois, suas palavras podem não tirá-lo do leito, mas serão como bálsamo na penosa e solitária travessia da positivação do vírus. Que dos santos Antonio, João e Pedro, tenhamos suas bençãos para futuras farras.

Charles Santiago é professor, filósofo e escritor. Colunista da Factótum Cultural. Autor do livro Filosofia de Boteco.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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