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As feridas vivas da educação, se curarão?!

Por Helayne Cândido

O que a educação pode fazer pelo coração humano?

Mais um dia em que muitos encerram o expediente.

Eu não. Após a ida à padaria com toda parafernália que a situação atual do país nos exige, chego em casa, preparo o café, a mesa e assim aqueço o corpo e entre um gole e outro, pensamentos e lembranças que me foram presenteadas neste dia, me fazem brotar um sorriso no canto da boca. Levanto-me e vou para os trabalhos da escola.

Trabalho burocrático e enfadonho. Resultado deste tempo de pandemia.

Ouço Elis, “Como nossos pais”. Essa música na interpretação desta mulher, me toca de uma maneira única e, neste dia, em que meu pai se tornou nome de rua, as lembranças chegam carinhosamente em meu coração. Mas isto é assunto para outros escritos.

Voltando à música, lembrei-me de que certa vez, em um curso de capacitação, foi sugerido uma atividade de paródia e eu disse ao meu grupo que fizéssemos sobre uma música de Elis.

Minhas companheiras de grupo não sabiam quem era ela. Me senti deslocada, fora da moda, mas elas aceitaram o desafio. Passado o susto, fiquei a pensar como poderiam não conhecer uma cantora tão marcante da história musical de nosso país. Julgada por uma vida de liberdade e talvez pelo motivo de sua morte, a sociedade talvez criminalizou Elis pela mulher brilhante e fora da curva que foi.

Voltando à área pedagógica e parafraseando Elis, “não quero lhe contar das coisas que aprendi nos livros”. Sim, é apenas um trocadilho. Eu sei da importância dos livros para nossa formação. Mas esse texto tem a intenção de trazer “a ferida viva do meu coração”.

Sou professora e amo o que faço. Não me imagino fazendo outra coisa nessa vida. Mas não é esse amorzinho mais ou menos. É um amor de embate, visceral, aquele tipo que luta com unhas e dentes e que sempre levantará a bandeira de que a solução para esse país é a educação. E que agora em tempo de pandemia ficou evidente que é a escola que salva muitas crianças da ausência do estado, da negligência familiar e de maus-tratos, entre outros.

Tenho a escola como seu segundo lar, e estando dentro dela, vivendo suas realidades, falo com propriedade de suas mazelas e tenho total paciência para explicar àqueles que não habitam esse mundo do lado de cá, sobre o porquê da situação caótica que vivemos, pois já dizia Darcy Ribeiro, “A crise na educação é um projeto”. Talvez por isso, minhas colegas de profissão não conheciam nada sobre Elis. 

Como desejo voltar às salas de aula, à presença dos pequeninos e de minhas colegas de profissão. Estas que são sempre tão julgadas e culpabilizadas pela situação intelectual precária deste país por aqueles que não entendem que para uma educação de qualidade se faz necessário investimento.

Estou tão cansada de ouvir sobre as mazelas da escola e o que me salva é voltar meu olhar para o que é possível dentro dela. Dentro dela existe combate. Dentro dela existe debate. Dentro dela precisa existir diálogo. Dentro dela, precisa existir cuidado e zelo e quem não pensa dessa forma, sinceramente, não sei o que faz dentro dela. Somos seres de relação e também de crises. E deveria ser a partir disso, da crise e do diálogo, que buscaríamos novas formas de enxergar o mundo e de modificar esse mundo, que, sinceramente, a aposta da forma como aí está, não deu certo. Freire argumenta:

[…] uma das virtudes necessárias de um educador democrático, que é preciso saber ouvir, ou seja, saber como ouvir uma criança negra com a linguagem específica dele ou dela, com a sintaxe específica dele ou dela, saber como ouvir o camponês negro analfabeto, saber como ouvir um aluno rico, saber como ouvir os assim chamados representantes de minorias, que são basicamente oprimidas. Se não aprendermos como ouvir essas vozes, na verdade não aprendemos realmente a falar. Apenas aqueles que ouvem, falam (2014, p. 89).

Estou cansada de ouvir que a educação não presta, sendo que há professoras que compram gás para a família de seu aluno ter onde cozinhar, há professora que faz rifa para poder levar suas crianças para conhecer um cinema, tem professora que tira dinheiro do bolso para confeccionar material pedagógico, tem escola que faz bazar para ter dinheiro em caixa, agora em tempo de pandemia, tem professora levando atividades nas casas das crianças para que elas pelo menos tenham um momento de esquecer essa prisão que virou esse momento. Não quero aqui, de maneira alguma, romantizar essa situação. Mas se a escola funciona é na incessante vontade de tornar possível o aprender de qualquer forma. Como Freire, “também acredito na força das verdadeiras relações entre as pessoas para a soma de esforços no sentido da reinvenção das gentes e do mundo” (2014, p. 71).

Sim, essas professoras das quais querem exigir um alto nível intelectual quando, muitas vezes, muitas delas não têm nem como comprar um livro ou pagar um novo curso, mas que não medem esforços quando se trata de fazer a escola funcionar. Para mim, essa profissional é que faz a diferença.

Uma vez ouvi que uma escola não existe sem crianças. Concordo. Mas ela só funciona pela força de vontade de professoras. E durante essa pandemia gritou aos meus olhos, que somos nós, que pegamos nas mãos dessas crianças e que realmente se preocupam com a aprendizagem e que, sim, ela acontece na convivência escolar:  “E você pode até dizer que eu tô por fora ou tô inventando” (risos ao som de Elis).

A verdade é que sempre seremos o perigo daqueles que querem manter o povo sobre seus domínios. O governo que aí está é a prova disso, quando diz, por exemplo, que não podemos trabalhar sexualidade humana, que meninas usam rosa e meninos vestem azul, que usamos kits gays e por aí vai. Se isso não é o cúmulo do desconhecimento educacional não sei o que é. Na verdade, sei. É ataque! Ataque aos que realmente acreditam na educação para a liberdade.

A educação para todas e todos nesse país é algo muito recente. Basta um estudo rápido e veremos que o acesso à educação há pouco chegou às classes menos favorecidas. E é isso que incomoda uma parte da população deste país, preocupada apenas com seus privilégios e a encher a boca para falar de meritocracia, num discurso tão desumano de não compreender que outro também deveria ter seu direito de uma vida digna e sem necessidades. 

“Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo, tudo, tudo o que fizemos ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais.”

Pois foi com o discurso de um ataque comunista, assim como na época de Elis, que nosso país caiu no buraco que está. Com um presidente que nega ciência e com o país que mais mata de covid no mundo.

O trabalho que teremos pela frente, como educadoras e educadores, será desafiador. Para além das ciências necessárias a serem ensinadas, teremos um papel importante de acolhimento dentro das escolas e isso, diplomas e certificados não garantem. O que quero dizer com isso, é que sim, necessitaremos de muito estudo, muito aperfeiçoamento. Mas também de muita humanidade para acolher estes que serão os futuros responsáveis por esse país, para que eles conheçam Elis e tantos outros que cantaram esse país. Para que se conheça sobre artes, sobre história, sobre filosofia e todas as ciências.

E eu espero que “o novo venha”. Pois, ele vem! E que seja num grau arrebatador como era a voz de Elis. 

Referencial:

Freire, Paulo. Pedagogia dos sonhos possíveis. / Paulo Freire; Org. Ana Maria Araújo Freire. 1ª ed. – São Paulo: Paz e Terra, 2014.

Como nossos pais. Canção de Belchior, do álbum Alucinação. 1976. Voz de Elis Regina, álbum Falso Brilhante, do mesmo ano.

Helayne Cândido é Professora de ensino fundamental. Graduada em Pedagogia e História. Pós graduada em Psicopedagogia e Psicomotricidade e Artes. Mestranda pelo Pro-filo, pesquisa filosofia e infância. Uma pedagoga apaixonada por história a se aventurar no mundo da filosofia.  

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

3 comentários em “As feridas vivas da educação, se curarão?! Deixe um comentário

  1. Ler sua publicação me fez me fez lembrar de um conversa que ouvir entre duas profissionais da saúde sobre a vacinação do covii-19: “nos não tivemos preferencia para tomar vacina, os professores que nem trabalharam tiveram prioridade, nem trabalharam, ficaram em casa sem fazer nada”, veja como se pensa desses proficionais.

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    • Olá!
      Obrigada pela sua leitura.
      O ideal seria que todas e todos estivessem sendo vacinados, não é mesmo. Inclusive há muito tempo, para q saíssemos logo dessa situação. 🙏🏻

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  2. Olá!
    Obrigada pela sua leitura.
    O ideal seria que todas e todos estivessem sendo vacinados, não é mesmo? Inclusive há muito tempo, para q saíssemos logo dessa situação. 🙏🏻

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