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Deixemos de romantizar as violências

Por Liliam Beatris Kingerski

Mesmo no silêncio destas palavras, que escritas não podem gritar. Eu grito!

É nesse meu grito que carrego todas as mulheres…

-BASTA DE VIOLÊNCIA!-

A luta é contínua…

Enquanto escrevo, penso; também me questiono: – O que posso fazer para ajudar nessa luta?

Sendo eu, uma educadora, percebo cada vez mais, a necessidade de carregar para a sala de aula as minhas angústias, que não são apenas minhas. Percebo que precisamos falar das opressões e das violências, precisamos torná-las visíveis… A escola não pode ser visualizada apenas enquanto espaço harmonioso, mas, enquanto espaço de debate, de conflitos. Ao criar e produzir conhecimento, ocupamos este espaço e nos reconhecemos nele. A escola não deveria negar que as opressões existem e de nenhuma forma contribuir para que as violências continuem a ocorrer, contudo, sabemos que ela é parte de um sistema que nos aliena de muitas formas, infelizmente ela carrega essa cultura.

Por vezes, me vejo com poucas armas para essa luta… A caneta e o papel afirmam minhas angústias. E, é entre palavras que muitas vezes brigam entre si, permeadas por questões que não cessam, que também travo minhas batalhas. É nesse emaranhado de palavras que encontro o que sou.  Reconheço-me em minha luta!

Trabalhando há alguns dias a violência contra a mulher, em sala de aula, resolvi recorrer a História: Mary del Priore, historiadora e a autora de: Histórias Íntimas – sexualidade e erotismo na história do Brasil, que nos diz: “Na Colônia, no Império e até nos primórdios da República, a função jurídica da mulher era ser subserviente ao marido. Da mesma forma que era dono da fazenda e dos escravos, o homem era dono da mulher. Se ela não o obedecia, sofria as sanções.”[1]

No Brasil colônia, o convívio estava regido pelas Ordenações Filipinas, que eram um código de leis que se aplicava a Portugal e seus territórios ultramarinos. Essas leis asseguravam ao marido o direito de matar a mulher caso suspeitasse de uma traição. Isso mesmo, bastava suspeitar disso, imagine se o marido realmente soubesse que a mulher o traíra.

Durante o Brasil República, as leis continuaram a priorizar e refletir a superioridade masculina. Em 1916, o Código Civil declarava as mulheres casadas como “incapazes”. Afinal, elas nada podiam fazer sem que um homem autorizasse.

Quando pesquisamos sobre a violência contra as mulheres e encontramos essas descrições, percebemos que a violência era além de autorizada, também, legalizada. O que diz respeito ao sistema patriarcal da época, se é que dá para dizer que hoje mudamos completamente. O tempo passou e mulheres continuam morrendo, mulheres continuam sendo assassinadas por seus maridos e companheiros, continuam sofrendo as mais diversas formas de violências.

É preciso destacar que as mulheres, as suas opressões e violências sofridas, sempre foram silenciadas ao longo da história!

Atualmente continuamos negando essas violências e não falando sobre elas…

Preciso dizer, que quando ouço uma mulher ou uma adolescente falando e contando das violências vivenciadas, me sinto como que rasgando por dentro.

 Pergunto: Por que negamos às mulheres o direito a falar de suas dores? Por que negamos o direito de lutar contra isso?

A sociedade não mudou muita coisa, pois muitas mulheres continuam vivendo dependentes de seus companheiros, que por vezes não permitem que trabalhem e estudem. O silêncio é parte fundamental desta opressão. Estas mulheres não podem ou não possuem coragem para falar sobre o assunto. Enquanto que a sociedade também não está preparada para enfrentar essas situações e buscar alguma solução. Falar de violência contra a mulher pode ser considerado tabu em uma sociedade, acostumada a romantizar violências.

Enquanto mulher, anseio todos os dias que as mulheres tenham o direito e a liberdade de serem elas mesmas, que escolham ser o que elas querem…que ao menos falem sobre sua condição de ser mulher nesse momento. Mesmo que o sentimento que me perturba seja o de ter as mãos atadas, amarradas por um sistema que trata da violência, muitas vezes justificando esse ato e culpabilizando a própria vítima. Sei que enquanto escrevo…mulheres são mortas…

Ao tratar das opressões sobre a mulher, me vem a mente, a filósofa existencialista Simone de Beauvoir (1908-1986), autora da obra “O Segundo Sexo”, uma referência para o movimento feminismo; Mulher que fugiu dos padrões do período em que viveu, compreendendo a mulher como processo em construção.

Nas palavras de Kate Kirkpatrick, mulher que escreveu uma biografia sobre Simone:

“Ela havia visto a mãe sofrer devido a um relacionamento totalmente desigual com o pai. Quando criança, ela se recusara a ser tratada ‘como menina’, pois sabia que meninos e meninas eram iguais aos olhos de Deus. Desde o dia em que o atendente da livraria a assediara, ela sempre se sentira desconfortável na companhia de homens desconhecidos. Ela havia perdido Zaza, que morrera em consequência de discussões sobre o valor comparativo de dotes, propriedades e amor. Mantivera conversas com mulheres que ignoravam as funções e prazeres de seu próprio corpo. Visitara outros países, o que a fizera perceber que os costumes podem parecer necessidades só porque são comuns”.[2]

-Que mulher nunca se sentiu violentada? (aqui não falo apenas da violência física, mas de outras tantas). Que mulher nunca se sentiu objeto? Que mulher nunca se sentiu silenciada?

Trago aqui Simone de Beauvoir como inspiração…” Não se nasce mulher, torna-se mulher[3].

Pensando essa condição, Beauvoir verificou que a mulher é sempre definida a partir e pelo olhar masculino, sendo vista como objeto, o segundo sexo. Nas palavras da filósofa:“A humanidade é masculina e o homem define a mulher não em si, mas relativamente a ele: ela não é considerada um ser autônomo.”[4]

São muitas as questões que permeiam as violências, que é impossível discutir em apenas um texto. Contudo, mesmo que eu não possa fazer muito, ainda assim precisamos lutar com o que temos.  No momento o que tenho de meu, é a minha escrita e a trago como uma forma de denúncia; são muitas as mulheres que sofrem violência, elas podem estar do nosso lado e mesmo assim, não as enxergamos.

Simone de Beauvoir se foi, mas suas palavras marcam os nossos desejos de independência, de liberdade, de poder escolher, de sermos quem queremos ser, de sermos respeitadas. Que possamos lutar contra o que nos machuca.

Finalizo com as palavras dela:

“Que nada nos defina.

 Que nada nos sujeite.

Que a liberdade seja a nossa própria substância.”


[1] DEL PRIORE, Mary. Histórias íntimas: sexualidade e erotismo na história do Brasil. São Paulo: Planeta, 2011;

[2] KIRKPATRICK, Kate. Simone de Beauvoir: uma vida; São Paulo: Planeta do Brasil, 2020.

[3] BEAUVOIR, Simone. O segundo sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.

[4] BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo: fatos e mitos. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1970.

Liliam Beatris Kingerski é professora de filosofia. Graduada em Filosofia, História e Sociologia, com pós-graduação em Política e Sociedade, História e Sociedade. Mestranda do programa PROF-FILO da UNESPAR. Pesquisadora da Filosofia Feminista, apaixonada por escritas de mulheres e Filosofia. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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Professora de filosofia. Graduada em Filosofia, História e Sociologia, com pós-graduação em Política e Sociedade, História e Sociedade. Mestranda do programa PROF-FILO da UNESPAR. Pesquisadora da Filosofia Feminista, apaixonada por escritas de mulheres e Filosofia. Colunista do Factótum Cultural.

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