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Não é normal!

Por Paulo Cesar Jakimiu Sabino

Como Freud ajuda a entender nossa relação com a morte e a pandemia | Veja  Saúde

Maio de 2021. Já se passou mais de um ano desde o início da pandemia. Suponho que nem o mais pessimista acreditava que o Brasil estaria perto de atingir a marca de meio milhão de mortos pela Covid-19. Hoje, ainda há muitos que não são pessimistas. Iludidos? Não, apenas não existe para essas pessoas um motivo para ser – pois a morte foi banalizada.

Embora muita comoção com a inestimável perda do ator Paulo Gustavo, essa comoção me parece ser mais pelo carinho com a pessoa do que pela causa. Nada contra isso, não vou aqui problematizar algo desse tipo, não seria gentil. O luto é para ser respeitado.

A questão que se impõe a mim hoje é outra: morrer por decorrência da Covid no Brasil é algo trivial, embora não devesse ser. Cada vez mais o número aumenta e a doença se aproxima. Morreu um estranho, morreu o amigo de um conhecido distante, morreu o conhecido, morreu o meu amigo, morreu meu familiar – a morte chega perto e a vida segue sem temor. Haverá quem chame isso de coragem, eu chamo de burrice e falta de empatia. As pessoas entendem esse número assombroso de mortes como algo normal.

Normal é aquilo que segue a regra, cuja a direção é regular e não desvia o caminho. Por isso, quando o filho perde os pais, é normal, quando os pais perdem o filho, não é. Morrer é normal, a morte é estabelecida desde o princípio da vida – se nasceu, começa a morrer. A morte pode ser natural, de velhice, ou do acaso, por um acidente, porque a fortuna é característica da existência humana. A coisa muda de figura quando se trata de uma morte que poderia ser evitada. Afinal, ninguém que quer viver sai por aí tentando morrer. Eu deixo mais intuitivo: ninguém atravessa um cruzamento movimentado com os olhos vendados esperando não ser atropelado. Ninguém vendado atira ao léu esperando não atingir ninguém. Mas é exatamente isso que estamos fazendo quando saímos as ruas nos expondo aos riscos do vírus sem necessidade, quando não cobramos vacinas, quando desdenhamos de máscaras – nada mais é do que normalizar a morte evitável.

Existe uma diversidade enorme de sentir algo: a partir daquilo que podemos nomear – medo, angústia, cansaço – ou mesmo de formas em que a linguagem está ausente. Mas a questão aqui é uma apatia, não enquanto um estado mental prejudicado, como quando o sofrimento psíquico gera a incapacidade de sentir algo – pois isso seria patológico. Me refiro a uma falta de pathos comum no cotidiano. Por exemplo, quando não sentimos nada ao se levantar para ir até a sala, para realizar uma ação comum como vestir uma roupa, amarrar o cadarço do tênis. Tudo isso é algo que fazemos sem sentir nada, apenas fazemos. Não há interesse algum nisso. Eis a maneira como tratamos o fenômeno da morte por Covid hoje.

Mas cuidado. Essa normalização não é um processo natural, ou como mencionei antes, de uma apatia causada pelo sofrimento psíquico – algo que seria perfeitamente justificável no contexto da atual crise sanitária. Essa normalização pode muito bem fazer parte de um projeto político. Em entrevista a Giannazi na TV Alesp, Vladimir Safatle[i] é objetivo e pertinente ao afirmar: o neoliberal não sente, ele faz contas.

Tal frase me faz pensar que a morte pode ser útil a quem pensa só em economia, desqualificando o sofrimento das pessoas, evitando se comprometer com o princípio de solidariedade inerente a quem vive em sociedade. Há algum sentido nesse número de mortes que não pode ser explicado por uma simples e pueril incompetência.

Pode ser que eu esteja enganado, mas fico sempre com um pé atrás. Quem afirma que ser humano algum seria capaz de fazer valer mais o dinheiro que a vida já está maculado com o sangue das vítimas. Não tenho tal postura. Eu me comprometo com a verdade, para qual a dúvida é condição. Já dizia Sartre que “a dúvida é o preço da pureza”[ii]. Ela é condição da verdade, e é também da ética. Duvide de que essa situação catastrófica é só questão de incompetência – pode ser que existam interesses maiores.

Não é normal! Ainda há vida – não sei dizer por quanto tempo.


[i] A entrevista completa pode ser conferida no canal de Gianazzi no link: [https://www.youtube.com/watch?v=HhwhBM5ebyI]

[ii] “Bem posso suportar um pouco de dúvida: é o preço que se tem de pagar pela pureza” (SARTRE, “A infância de um chefe” In: O Muro. Tradução de H. Alcântara Silveira. São Paulo: Nova Fronteira, 2015).

Paulo Cesar Jakimiu Sabino, Mestre em Estética e Filosofia da Arte pela UFOP e Doutorando em Filosofia na UFPR. Entusiasta de literatura russa. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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