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Vida, essa aventura filosófica

Por Helayne Cândido

Qual é a sua filosofia de vida? Descubra e se conheça melhor - Portal

Final do dia.

Dia corrido como qualquer outro.

Se não fosse pela viagem no tempo que me foi proporcionada durante uma aula de filosofia e exigiu um desaceleramento do meu pensar.

Uma viagem sobre minhas vivências. Somos feitos delas. Eu poderia me apresentar contando a vocês quem sou hoje e essa seria uma tarefa fácil. Mas dizer quem somos e buscar por tal definição é perceber que somos processos. Processos que nos constroem e que, conscientes deles, então, passamos a nos desconstruir.

Quem lhes escreve não é a mesma de vinte anos atrás, que envolta por uma panorâmica romantizada da vida, teve sua existência resumida a casa e seus afazeres domésticos. Embora em alguma medida na juventude quisesse transgredir o mundo, em algum momento aquietou-se. Hoje, continuo tendo que cuidar da casa e dos filhos. Mas com uma diferença: consciente da minha existência no mundo. Isso significou, para mim, romper com o que até então era minha experiência de vida.

A aula, em que se seguiu a reflexão sobre a temática existencial, me fez perceber o quanto é surpreendente o encontro da filosofia com nossa vida e que isso é algo sublime. 

Ora, alguém pode perguntar: mas somente agora se deu conta de sua existência?

Lhes respondo: como professora de história, foi ela quem me mostrou na carne meu lugar no mundo. Mas está sendo a filosofia que me mostra as trilhas de meus pensamentos.  A vida, essa aventura que só se conhece vivendo, brinca com a gente.

Sempre gostei de estudar. Quando criança rabiscava o armário em meu quarto com o giz trazido da escola e ensinava o be-a-bá para minhas poucas bonecas. Influência herdada de meu pai, professor, que dizia que os estudos são nosso maior tesouro. Foi-se em 2007 e nesse ano dei de cara com o fantasma da finitude e da impotência.

Anos passam e vivo o luto do fim de um casamento. Onde tiveram coisas boas, mas chegou num momento que minha existência já não cabia ali dentro. Entre julgamentos e o enfrentamento do novo, surge o medo do desconhecido, a insegurança do que me aguardava à frente, mas a certeza de que uma nova versão de mim nascia e estar cara a cara com ela era firmar minha existência ainda mais. Assumir sua autenticidade é assumir-se na vida.

A filósofa Izilda C. Johanson, em seu artigo “De objeto a sujeito: uma contribuição feminista à história e à filosofia”, explica:

[…] Como ressalta Beauvoir (1947), assumir nossa fundamental ambiguidade é assumir que “é no conhecimento das condições autênticas de nossa vida que precisamos apoiar a força de viver e as razões para agir (2020, p. 03).

Já desgostosa de assuntos romantizados, a vida, essa brincalhona, me apresenta alguém especial e iniciamos um romance. Brevemente encerrado pela senhora morte. Encontro o senhor luto novamente, me sento e converso com ele. Os dilemas do porquê continuar foram substituindo o porquê do acontecido. A resposta para confortar meu coração, eu jamais encontraria, mas anos depois mostrou-se a minha frente. Sim. Eu e você somos finitos. E o que você faz com essa informação? E te basta?  O professor Thiago Stadler, que durante a aula nos brinda com sua sabedoria, me lembrou que rir de tudo isso é uma saída, que para alguns pode soar como um afronte, mas passada a dor, que outra coisa teríamos a fazer, se não rir de nossas experiências nessa vida. E terá outra? Ele ainda nos abrilhanta com seus escritos em “Sobre poeira e folhas secas” que: “[…] nem mesmo o consolo de que a morte existe para todos faz com que o humano se adapte a essa realidade” (2020, p. 21).  Quanta ironia há em imaginar que nós somos os únicos seres que se preocupam com esse fato. Isso tudo para dizer que nossa existência é marcada pelo nosso autoconhecimento e pelo tempo. Esse tempo do chronos que nos persegue e nos regula e que, ao chegar ao fim de nossa vida, queremos que ela tenha valido a pena. E embora o chronos determine nossa passagem por esse planeta, é tempo aion que marca nossa vida.

Foi preciso constatar, como já dizia Ortega, que somos nossas circunstâncias e o que acontece conosco, mas penso que isso não pode nos definir.  O que quero dizer aos que me leem é que antes de tudo sou mulher. Uma entre tantas. Uma mulher em construção, que pretende levar dessa vida apenas o tempo suspenso da minha existência. Levar? Para onde? (risos em meio a constatação). Ao final do dia, uma professora amante de gatos e de Van Gogh me convida para a escrita. Junto com outras mulheres admiráveis reforçam o convite. A vocês digo: quando descobrimos nossa singularidade é no coletivo que nos tornamos fortes. 

Encerro essa ligeira escrita de minha apresentação desejando a vocês que ousem, que se libertem, que enfrentem seus medos, que vivam amores e desamores enquanto há tempo. E que a cada peça que essa senhora Vida lhes pregar, que vocês tenham força suficiente para que, conscientes de si, vocês possam se reerguer, se reinventar e se firmarem nesta grande aventura que é o existir.  

– JOHANSON, Izilda. “De objeto a sujeito: uma contribuição feminista à história e à filosofia”. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v.28, n.2, e 59273, 2020.

– STADLER, Thiago D. “Sobre poeira e folhas secas”. Revista Blecaute. Campina Grande. v.7, n.20, 2020.

Helayne Cândido é Professora de ensino fundamental. Graduada em Pedagogia e História. Pós graduada em Psicopedagogia e Psicomotricidade e Artes. Mestranda pelo Pro-filo, pesquisa filosofia e infância. Uma pedagoga apaixonada por história a se aventurar no mundo da filosofia.  

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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